"Votarão aqueles que conseguirem mas isso não servirá para nada"

Centro de Barcelona encheu-se ontem de bandeiras espanholas. Independentistas juntaram-se para manter escolas abertas

"Puigdemont para a prisão", "Espanha unida, jamais será vencida" ou "Não votarão". No dia de reflexão na Catalunha para o referendo independentista, considerado ilegal pelo Tribunal Constitucional, as bandeiras espanholas saíram às ruas no centro de Barcelona, enchendo a Praça Sant Jaume, onde está a sede da Generalitat e a câmara municipal. Mas na Escola Collaso I Gil, no bairro de Raval, ou na La Sedeta, na Gràcia, continuavam as atividades programadas por pais e vizinhos para garantir a ocupação dos centros onde hoje esperam poder votar.

"Sou espanhol, sou catalão, amo Espanha, amo a Catalunha, que foi onde nasci. Mas antes de tudo sou constitucionalista", lançou Francisco, reformado de 70 anos, enquanto desfilava orgulhoso com uma bandeira espanhola às costas pela Via Laietana, junto com milhares de outras pessoas, a quem a chuva não demoveu. "Amanhã não vai acontecer nada. Votarão aqueles que conseguirem mas isso não servirá para nada", acrescentou, antes de começar a entoar "Puigdemont para a prisão", numa referência ao presidente da Generalitat.

Na Praça Sant Jaume, para onde a manifestação se dirigia, Quique, Isa e Marc bateram palmas quando surgiu uma bandeira espanhola a uma varanda. Na câmara há uma faixa que pede "mais democracia" (que alguns manifestantes tentaram arrancar) e outra que dizia "sim à Espanha", noutro edifício, uma em inglês a dizer "queremos votar", e em muitas janelas há as bandeiras estreladas independentistas. "Viemos porque achamos que o referendo é totalmente ilegal e não queremos que ocorra. Além de não querermos a independência, queremos que se cumpra a lei", diz Quique, escolhido pelos outros para ser porta-voz. "Se houver algo, terá validade zero", conclui.

Ao contrário dos independentistas, que têm grande capacidade de organização, aqueles que são contra a independência costumam estar divididos, com muitos manifestantes ontem a mostrarem-se surpreendidos com o cenário que viam. "Hoje somos muitos", ouvia-se.

De Madrid também chegaram apelos a uma Espanha unida e contra o referendo, com dez mil pessoas a gritar na rua "Viva Espanha!" e "Eu sou espanhol". Um cenário que se repetiu em cidades como Valência, Sevilha, Valladolid, Santander, Santiago de Compostela ou Cádis.

Depois de uma consulta popular em 2014 não reconhecida pelo governo espanhol, os independentistas fizeram campanha para as autonómicas de 2015 numa lista que incluía associações da sociedade civil com a promessa de organizar um referendo. Os independentistas do Junts pel Sí, liderados por Carles Puigdemont e apoiados pela Candidatura de Unidade Popular, conseguiram a maioria parlamentar que permitiu convocar esse mesmo referendo. O governo espanhol, que o executivo catalão acusa de falta de diálogo, respondeu com o recurso à justiça, com o referendo a ser considerado inconstitucional. Seguiram-se processos contra aqueles que queriam organizar a consulta, com detenções de altos cargos da Generalitat, apreensão de urnas e boletins de voto e o encerramento de sites com informações sobre o ato eleitoral de hoje.

Escolas abertas

Quando a procuradoria deu ordens aos Mossos d"Esquadra (a polícia catalã) para garantir o encerramento dos locais de votação, pais, professores ou simples eleitores que exigem votar juntaram-se para mantê-los abertos. Surgiu assim a iniciativa "escolas abertas", com atividades para toda a família. Na Collaso I Gil houve paella para todos ao almoço. "A polícia já veio três vezes", conta um dos organizadores, que não quis ser identificado, depois de mais dois agentes em patrulha terem saído pelo portão de entrada. "Vêm, preenchem o auto com o que estivermos a fazer e com o número de pessoas na escola e avisam que às 6.00 têm ordens para nos desalojar", acrescenta.

A mesma mensagem foi passada na Escola La Sedeta, na Gràcia. Montse passou a noite de sexta para sábado no ginásio, junto com os dois filhos, que de manhã já participavam na "maratona de voleibol", organizada para garantir que o espaço está sempre aberto. "Os Mossos vieram dizer que às 6.00 de domingo o colégio tinha de estar fechado, mas a nossa atividade está programada para todo o domingo. Não sabemos o que vai acontecer", explicou, dizendo não saber nada de urnas nem do referendo. Falando apenas em catalão, diz que o voto é fundamental. "Votaremos não sei bem como, e as coisas vão mudar", lançou.

Para impedir que os Mossos d"Esquadra ou qualquer outra força policial trave o referendo (o governo de Madrid enviou um reforço de dez mil efetivos da Guardia Civil e da Polícia Nacional), lançaram-se apelos para que os eleitores comecem a fazer fila para votar a partir das 5.00 (a votação decorre entre as 9.00 e as 21.00, menos uma hora em Lisboa). No total, segundo o governo espanhol, 163 dos 1300 colégios que devem ser usados para votar estavam ocupados. O major dos Mossos d"Esquadra, Josep Lluís Trapero, deu ordens para os desalojar "sem violência" esta manhã, quando se esperava uma maior tensão, acrescentando: "Não queremos ser os heróis do dia nem seremos os traidores de nada." A polícia catalã tem estado dividida entre o cumprimento das ordens judiciais e o facto de os próprios agentes fazerem parte da sociedade catalã, podendo também querer votar.

"Quem usar a força perderá a batalha democrática", disse ontem Jordi Cuixart, presidente da Ómnium Cultural, uma das organizações da sociedade civil que faz parte do Junts pel Sí. Já o colega da Assembleia Nacional Catalã, Jordi Sánchez, assumiu que um milhão de votos já seria uma vitória. "Temos consciência de que diante da pressão possa ser difícil uma participação elevada. Mas acho que quando fecharmos a jornada eleitoral temos de valorizar o enorme esforço da cidadania desafiando os medos", disse no dia de reflexão.

Uns dias antes do referendo, Ana Castellano esteve na Praça da Universidade, na banca que os estudantes ali montaram para ajudar quem tem dúvidas sobre o referendo, para conseguir alguns boletins de voto e cartazes para colar no prédio onde vive. "Se não vais votar, eles ganham", lia-se num dos posters que levou. A pediatra acusa o governo espanhol de fazer "uma campanha de medo", espalhando a ideia de que quem for hoje votar será preso. "É um clima de medo que faz que as pessoas mais velhas fiquem em casa. Mas ninguém te pode deter por votares", afirmou, dizendo que os dois avôs, de 86 e 92 anos, seriam os primeiros na fila para votar se pudessem.

Ana, de 29 anos, está atualmente entre missões humanitárias: "Voltei do Peru em agosto e devo ir para a Índia em breve, mas tinha de estar presente neste momento político importante." No estrangeiro, nunca se identifica como espanhola, sempre como catalã. "Quando me perguntam onde é a Catalunha, falo em Barcelona, no Barça, no Messi. Se as pessoas dizem que é Espanha, respondo com um mais ou menos", disse, rindo-se.

Apesar do clima de tensão, Ana acredita que o sim vai conseguir uma vitória importante. "Mas não tenho pressa de declarar logo a independência", explicou, deixando contudo claro que se o governo espanhol "não largar o burro", se a União Europeia não der o seu apoio à Catalunha, então Puigdemont tem de avançar. "Eu apoio o meu presidente", explicou.

Marta Rubio está preocupada com o que pode acontecer depois do referendo se houver uma declaração unilateral de independência. "Não só com a reação por parte do governo de Madrid mas também dos próprios catalães que não acreditam na independência e de repente se veem nessa situação", explicou, apelando ao diálogo entre a Generalitat e o governo central e criticando o facto de que quem se tem declarado contra a independência ter sido apelidado de fascista ou franquista.

"Não vou votar porque não acredito neste referendo. É o referendo do sim, onde não há a opção do não. Se houvesse um referendo válido votava que não, como este não é válido nem vou votar", adiantou a jovem economista, que trabalha na indústria farmacêutica. "Em toda esta história nunca houve um discurso racional em que se discutem os prós e os contra da independência. Ninguém sabe e ninguém pensou nisso", disse a jovem mãe, com um bebé de 11 meses. "Estamos diante de uma ideologia levada ao extremo, com o apoio das massas. Falaram os extremos, não houve argumentos válidos."

Angels Lopez confessa que não era independentista. "Mas conforme vão apertando vou-me sentindo cada vez mais independentista", disse na sede da Ómnium Cultural. Aos 58 anos, esta quiromassagista e educadora corporal foi uma das voluntárias que nos dias prévios ao referendo andaram a contactar os possíveis eleitores para lhes explicar como ia decorrer o voto.

"Eu, mais do que independentismo, nestes momentos estou a pedir como catalã, com raízes em Murcia e em Valência, que o governo me permita votar. É uma questão de dignidade", explicou, dizendo que votará pela independência. "Faço-o pelo meu avô, que foi republicano, vinha de Albacete, lutou na Guerra Civil, esteve num campo de concentração. E também pela minha filha. Mas sobretudo por uma questão de dignidade pessoal."

Enquanto os telefones tocam, Angels mostra-se satisfeita com o facto de toda esta discussão estar a criar uma nova consciência política na Catalunha. "À medida que Madrid vai apertando o cerco, pessoas na rua que, como eu, não são militantes de nenhum partido estão a lutar para que nos deem a liberdade de decidir", afirmou. "Ganhemos ou não, não nos vão dar nada. Mas acho que há um antes e um depois do referendo e temos que seguir com esta linha. Isto está a educar-me mais. Estamos a ganhar muita força a nível civil."

Lázaro Carrasco esteve no comício independentista de final de campanha, em Montjuïc, na sexta-feira à noite. Apesar de ter nascido na Catalunha, admite que não tem uma gota de sangue catalão (o pai é da Andaluzia) e que só começou a falar catalão aos 30 anos - tem agora 60. "Não é uma questão de sangue, é uma questão de direitos, uma questão de respeito, uma questão de dignidade. Não respeitam a cultura catalã, toda a história da Catalunha, negam-na, chega um momento em que te cansas", admitiu, dizendo que, por si, Carles Puigdemont declarava ainda hoje a independência. "Eu sei que mesmo se o declararmos não vamos ser independentes no dia seguinte, será preciso negociar. Mas para mim já somos independentes."

O empresário do setor do desporto não está preocupado com o eventual impacto económico. "Para mim também é indiferente se ficamos na União Europeia, se mantemos ou não o euro", prosseguiu, para logo acrescentar. "Prefiro ser a Suíça. Porque vou ser da União Europeia se posso ser a Suíça. Imagina um paraíso fiscal aqui", disse, sorrindo em seguida. Também não é a economia que preocupa Juan Molinos, que na sexta-feira veio da região de Baix Llobregat com o seu trator. É um futuro para o campo. "A agricultura está muito mal, seja em Espanha seja na Catalunha. Estamos indefesos em todo o lado. Mas pode ser que se dependermos só de nós o governo catalão faça mais pelo campo", disse o agricultor de 68 anos, que cultiva verduras.

"A gente não se independentiza por gostar mas por ver que as coisas já não são normais", disse no meio do protesto de quatro centenas de tratores. "Ter liberdade para votar é democracia. Há pessoas que estão nas ruas que não são independentistas, simplesmente querem votar. Estamos aqui pela defesa da liberdade, para responder às injustiças do governo espanhol", lançou.

Susana Salvador, enviada a Barcelona

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