Viver assustado num país que treme entre cinco placas tectónicas

Relato de um português após o sismo de terça-feira, o segundo em 12 dias, que fez cair edifícios e causou pelo menos 225 mortos

No ano passado, foram registados 15 460 sismos no México, a maioria dos quais com uma magnitude entre 3,0 e 3,9 na escala de Richter, e só em seis casos esta foi superior a 6,0. Contudo, em apenas 12 dias, o país tremeu duas vezes - a 7 de setembro, o abalo foi de 8,4 e causou 90 mortos; na terça-feira, foi de 7,1 e o número de vítimas mortais, ainda provisório, era ontem de 225. A alta atividade sismológica explica-se por o país estar entre cinco placas tectónicas. "O México está num contexto tectónico muito complexo", disse Xyoli Pérez Campos, diretora do Serviço Sismológico Nacional da Universidade Autónoma do México, numa conferência de imprensa.

Em causa está a interação de cinco placas tectónicas: a de Cocos, a norte-americana, a do Pacífico, a de Rivera e a das Caraíbas (há ainda a microplaca de Orozco). O México faz parte do chamado "anel de fogo" (que praticamente rodeia o oceano Pacífico), onde ocorrem 90% dos sismos do planeta. Ontem, a terra voltou a tremer precisamente no Japão, no lado oposto desse anel, num sismo de magnitude 6,1 que não causou danos.

"A placa de Cocos, oceânica, está a mergulhar debaixo da placa continental, a placa norte-americana, numa zona de subdução. É nessa zona que ocorrem a maioria dos sismos no México", explicou Dina Vales, sismóloga do Instituto Português do Mar e da Atmosfera. "Nessa zona, houve 34 sismos com magnitude superior a 7 desde 1900", disse ao DN. "Mas este sismo, intraplaca, localizado a cerca de 300 km da zona de subdução, ocorreu na falha normal no meio da placa continental com uma profundidade estimada de 51 km." Após o sismo, houve uma pequena erupção do vulcão Popocatépetl: "Eventuais erupções nos vulcões nesta área são fenómenos compatíveis com a distensão tectónica associada ao sismo."

Segundo os peritos mexicanos, os dois grandes sismos registados no país de setembro são "independentes". O de dia 7 ocorreu ao largo de Chiapas, precisamente onde a placa de Cocos está a afundar por baixo da norte-americana. O desta terça-feira, teve o epicentro a 120 km da Cidade do México. Em relação ao facto de o último abalo ter ocorrido no mesmo dia do terramoto de 1985, que deixou mais de cinco mil mortos na capital, Pérez Campo disse que foi "mera coincidência". E deixou claro que os sismos não se podem prever: "Temos que estar sempre preparados."

Os especialistas acreditam contudo que este pode ainda não ser o grande sismo que muitos estão à espera que aconteça no México. O grande sismo de que se fala há anos seria na costa de Guerrero, na zona conhecida como brecha de Guerrero (não longe de Acapulco), onde não ocorrem abalos há um longo período de tempo e se espera que haja um sismo de magnitude 8.

Momentos que marcam uma vida

O português João Vicente da Silva, que vive há 17 anos na Cidade do México, passou a noite com a mulher, o filho e o cão no carro. "Estou muito cansado, não dormimos quase nada", contou ao DN. "Ficámos dentro do carro porque dizem que vai tremer com mais força." Natural de Rio Maior, ainda não vivia no México em 1985, mas a mulher e a família sempre lhe falaram desse sismo. "A réplica do primeiro tremor foi o que fez cair muitas casas", explicou, justificando o receio. Ontem estava sem luz, sem água e os multibancos não funcionavam.

O abalo durou 20 segundos, mas para o português foi "uma eternidade". João disse que a sua casa não sofreu estragos, ao contrário da igreja ao lado que desabou - como mais de uma centena de edifícios na capital mexicana, construída sobre um antigo lago. Contudo, o medo faz com que ainda não queira dormir entre quatro paredes. "Imaginas o pior e não sabes o que vai acontecer. São momentos que marcam a tua vida para sempre."

Na véspera, quando se espalhou a notícia de que o Colégio Rébsamen tinha ruído, e que havia alunos presos nos escombros, João decidiu ir ajudar. Mas não conseguiu chegar ao edifício, já que a Proteção Civil local tinha cortado os acessos. "Havia muitas pessoas a chorar e a gritar pelos filhos e o meu filho teve medo e regressámos a casa", explicou. As autoridades continuavam ontem a tentar resgatar pessoas com vida dos escombros desta escola (e de outros edifícios), após terem encontrado os corpos de 21 crianças e quatro adultos. Quatro menores foram tirados com vida, com os socorrista a elevar os punhos no ar a pedir silêncio para tentar ouvir pedidos de ajuda. No total, pelo menos 225 pessoas morreram, com o presidente Enrique Peña Nieto a decretar três dias de luto nacional.

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