Varsóvia acolhe conferência sobre Médio Oriente contestada pelo Irão

Representantes de 60 países reúnem-se a partir desta quarta-feira na Polónia para discutir a segurança no Médio Oriente, numa conferência promovida por Washington e Varsóvia que Teerão considerou hostil e tentou boicotar.

A conferência foi anunciada a 11 de janeiro pelo secretário de Estado dos Estados Unidos, Mike Pompeo, que definiu como objetivo do encontro promover a estabilidade no Médio Oriente, centrada na influência do Irão.

A cimeira será centrada sobre "a estabilidade, a paz, a liberdade e a segurança no Médio Oriente", adiantou nessa altura, indicando que "isso inclui um elemento importante que é assegurar que o Irão não tem uma influência desestabilizadora".

Teerão reagiu dois dias depois, convocando o encarregado de negócios da Polónia em Teerão para expressar o seu protesto contra a realização da conferência em Varsóvia.

"É um movimento hostil dos Estados Unidos contra a República Islâmica e espera-se que a Polónia se abstenha de colaborar com os Estados Unidos", avisou o ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano em comunicado.

Apesar da oposição iraniana, mais de sessenta países, segundo a diplomacia polaca, confirmaram a participação na conferência, incluindo dez Estados do Médio Oriente e todos os membros da União Europeia (UE).

Segundo Varsóvia, dez países renunciaram a assistir à reunião, entre os quais a Rússia, a Autoridade Nacional Palestiniana, o Líbano e o próprio Irão.

Entre os ministros dos Negócios Estrangeiros representados estarão os da Arábia Saudita, o Iémen, a Jordânia, o Koweit, Marrocos, Omã, Emirados Árabes Unidos.

Israel estará representado pelo primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, e os Estados Unidos estarão representados pelo vice-Presidente, Mike Pence, e pelo secretário de Estado, Mike Pompeo.

Segundo o chefe da diplomacia polaca, Jacek Czaputowicz, na reunião participam também representantes de "todos os países da UE, a grande maioria a nível político, ou seja, ministros ou vice-ministros dos Negócios Estrangeiros".

No entanto, a agência France-Presse escreve que as potências europeias estarão representadas por representantes de nível inferior, à exceção do Reino Unido, cujo ministro dos Negócios Estrangeiros disse querer abordar em Varsóvia a crise humanitária desencadeada pela ofensiva da Arábia Saudita no Iémen.

A chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, indicou já ter outros compromissos.

Polónia entre Washington e a UE

Analistas ouvidos pela Associated Press alertam que a Polónia se arrisca a um maior isolamento na Europa ao alinhar com Washington num tema em que os mais importantes países da UE se opõem ao Presidente nos Estados Unidos, Donald Trump: a retirada norte-americana do acordo nuclear com o Irão.

Mas a Polónia, que deseja uma maior proximidade com os EUA face à Rússia, sublinhou que continua a apoiar, como os restantes Estados membros da UE, o acordo nuclear concluído em 2015 e que aliviava as sanções contra o Irão em troca do congelamento do seu programa nuclear.

Segundo o diário polaco Rzeszpospolita, Pompeo aproveitará a visita à Polónia para oferecer ao Governo polaco uma maior presença militar dos Estados Unidos na Polónia, em troca da renúncia de Varsóvia a uma colaboração mais próxima com China e Irão.

No domingo, a Polónia aprovou a compra de um novo sistema balístico aos EUA por mais de 400 milhões de dólares (354 milhões de euros.

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