"Vamos ver quanto tempo conseguem manter a mentira"

Inés Arrimadas, do Ciudadanos, diz que não teve a vitória que desejava. E acusa os independentistas de terem um discurso vazio

Cara da vitória do Ciudadanos na Catalunha, Inés Arrimadas continua a dizer que vai esperar pelo que irão fazer os partidos independentistas, que seguraram a maioria no Parlamento, em termos de formação de governo. Mas recusa a ideia de que ficou tudo na mesma com esta votação. "Esta foi uma vitória que não tem os efeitos imediatos que gostaríamos", disse ontem Arrimadas numa entrevista ao El Mundo. "Percebo que as pessoas queiram uma solução rápida em 15 minutos, mas lamentavelmente 30 anos de nacionalismo não se resolvem numas eleições".

Agora a estratégia de Arrimadas é esperar para ver se o bloco independentista - liderado pelo Junts per Catalunya de Puigdemont - consegue um entendimento com vista a formar governo. "Temos de ser prudentes. A ver o que fazem, porque não têm uma tarefa fácil. Fazem muitos discursos, mas vazios de conteúdos. A candidatura de Puigdemont é só por Puigdemont, não tem equipa, nem projeto, nem plano de governo, não têm nada. Vamos ver quanto tempo conseguem manter a mentira e a irrealidade do processo independentista", disse a política.

Defende que estas eleições, apesar da manutenção da maioria independentista, trouxeram "uma mudança muito importante: a primeira força política na Catalunha é o Ciudadanos, uma força constitucionalista". E diz que esta ida às urnas era "a única alternativa" e que mostrou "um independentismo mais fragmentado, com menos apoios, com menos deputados e menos apoio internacional". A surpresa: "Esperava que o bipartidarismo [PP e PSOE] tivesse mais um par de deputados para poder ter uma maioria", admitiu.

Enquanto isso, em Bruxelas, Carles Puigdemont pediu ontem ao governo espanhol que lhe permita regressar a Espanha a tempo da sessão de abertura do Parlamento catalão e possa tomar posse como presidente da Generalitat. O cabeça de lista do Junts per Catalunya, o segundo mais votado das eleições, é alvo de um mandado de detenção em Espanha. "Quero regressar à Catalunha o mais cedo possível. Gostava de regressar já. Seria uma boa notícia para Espanha", disse Puigdemont em entrevista à Reuters.

Questionado sobre se voltará a tempo da sessão de abertura do Parlamento, que terá de realizar-se até 23 de janeiro, respondeu: "Seria natural. Se não me permitirem tomar posse como presidente, será uma grande anormalidade do sistema democrático espanhol". "Eu sou o presidente do governo regional e continuarei a ser o presidente se o Estado espanhol respeitar os resultados da eleição", acrescentou.

Puigdemont, que apelou ao diálogo com Mariano Rajoy para resolver o clima de tensão entre Barcelona e Madrid, garantiu estar pronto a ouvir qualquer proposta do primeiro-ministro, mesmo que esta não inclua a independência da região. "Se o Estado espanhol tem uma proposta para a Catalunha, deveríamos ouvi-la", declarou à Reuters o ex-presidente da Generalitat, pedindo um diálogo entre iguais.

Na sexta-feira, Mariano Rajoy disse que iria fazer "um esforço para manter o diálogo" quanto à questão catalã, mas condicionou este diálogo ao cumprimento da lei, porque "quando se viola a lei viola-se os direitos das pessoas".

Sobre o convite ao diálogo que já havia sido feito por Puigdemont, o presidente do governo espanhol disse num primeiro momento que "com quem tenho de sentar-me é com quem ganhou as eleições, que foi a senhora Arrimadas". Para logo em seguida retificar a sua posição, dizendo que "terei de falar com quem exerça a presidência da Generalitat, para o qual tem de ser eleito, tomar posse e estar em condições de falar comigo".

O advogado de Puigdemont garantiu ontem que o ex-presidente da Catalunha irá passar o Natal em Bruxelas, mas reconhecendo que "a única opção para ser investido é voltar", apesar de ter a certeza de que "se entrar em Espanha é detido". Jaume Alonso Cuevillas afirmou ainda que o ex-líder catalão "está disposto a voltar", mas que deve ponderar "se pode fazer mais coisas dentro ou fora". "É uma decisão política que deverá tomar nos próximos dias", adiantou.

Seja qual for a decisão, ontem o Junts per Catalunya já deixou claro que não planeia apresentar um candidato à presidência que não seja o seu cabeça de lista. "Todas as nossas opções passam pelo presidente Carles Puigdemont. Derrotar o 155.º passa por restituir a situação antes da sua aplicação", disse em entrevista à RAC-1 Elsa Artadi, diretora de campanha e número dez da lista do Junts per Catalunya.

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