Valls contra seis nas primárias sem os verdadeiros rivais à esquerda

Ex-primeiro-ministro é o favorito dos sete nomes que vão a votos à esquerda, num escrutínio para escolher candidato às presidenciais em que não está nem Macron nem Mélenchon

Até há duas semanas primeiro-ministro francês, Manuel Valls é o favorito dos sete candidatos que vão disputar as primárias da esquerda. Mas não deve festejar: é que nesta corrida, pensada para mostrar uma frente única, não estão os seus dois mais importantes adversários desse espectro político, os ex-socialistas Emmanuel Macron e Jean-Luc Mélenchon. Nas sondagens para a primeira volta das presidenciais de 23 de abril, além de ambos estarem à frente de Valls, a esquerda acaba por se ressentir das divisões internas, com nenhum deles a conseguir passar à segunda volta de 7 de maio.

Valls lançou-se na corrida só após o presidente François Hollande desistir de ser candidato a um segundo mandato. Apesar dos apelos, Macron (ex-ministro da Economia que em abril fundou o partido En Marche!) recusou participar nas primárias, dizendo não querer perder tempo "nas querelas do Partido Socialista". Já Mélenchon, eurodeputado pela Frente de Esquerda e candidato do movimento A França Insubmissa, disse que não era por "capricho" que não concorria às primárias, considerando que isso o poria "numa posição de deslealdade total", já que poderia ter de acabar por apoiar um outro candidato que não partilha a sua visão política.

"Os franceses vão estar a ouvir atentamente o debate em janeiro. Precisamos de que a mobilização dos eleitores seja a maior possível porque essa é a única forma de unir a esquerda", defendeu Arnaud Montebourg, ex-ministro da Economia e o único que parece poder fazer sombra a Valls nas primárias. Numa sondagem Harris Interactive para a televisão pública, de dia 8 deste mês, o ex-primeiro-ministro tinha 45% das intenções de voto na primeira volta, a 22 de janeiro, face a 28% de Montebourg. Na segunda volta, dia 29, a corrida está renhida, com Valls a ter 51% e o adversário 49%. Mas isso não quer dizer nada - nas primárias da direita, o favorito durante quase um ano, Alain Juppé, acabou por perder para François Fillon.

Seis homens e uma mulher

Além de Valls e de Montebourg, há mais dois militantes socialistas (e dois ex-ministros da Educação) na corrida: o deputado Benoît Hamon e o eurodeputado Vincent Peillon. A lista de candidatos às primárias da esquerda fica completa com três membros de partidos mais pequenos: Sylvia Pinel, líder do Partido Radical de Esquerda e a única mulher a ir a votos; François de Rugy, do Partido Ecologista; e Jean-Luc Bennahmias, da Frente Democrata. O presidente da Alta Autoridade das Primárias, o jurista Thomas Clay, anunciou que no total houve 24 candidaturas, mas só estes sete reuniram as condições para concorrer.

Dois deles ficaram de fora no último instante, Fabien Verdier e Gérard Filoche, tendo criticado a direção socialista pelo "afastamento". A organização do escrutínio, liderada por Christophe Borgel, explicou que ambos não apresentaram o número de assinaturas previsto nas regras. Os candidatos tinham de reunir o apoio de 5% de um dos seguintes grupos: membros do conselho nacional do PS, deputados socialistas, conselheiros regionais ou departamentais ou autarcas de cidades com mais de dez mil habitantes.

Borgel, que lembrou que as primárias da direita decorreram sem problemas mesmo com a exclusão da candidatura de Hervé Mariton. "Não podemos aceitar um processo coletivo com regras e depois deitá--las fora quando não nos convêm", criticou. Filoche, militante socialista, anunciou à rádio Franceinfo que vai apresentar um "duplo recurso" da decisão - primeiro em relação ao número de apoios que recolheu e depois para poder participar fora do PS. Pinel, Rugy e Bennahmias, não sendo militantes, não precisaram desses requisitos para entrar na corrida.

Debates e participação

Durante a campanha haverá três debates a sete, todos na semana antes da primeira volta (a 12, 15 e 19 de janeiro). Um debate está previsto antes da segunda volta. As primárias da esquerda, como as da direita, são abertas a todos os eleitores franceses, bastando pagar um euro (as da direita custaram dois euros) e assinar uma declaração de compromisso com os valores da esquerda. O PS espera a participação de dois milhões de pessoas, muito abaixo dos valores registados no escrutínio da direita (4,4 milhões), organizado em novembro e ganho por Fillon.

Agora, o candidato d"Os Republicanos é o favorito à vitória nas presidenciais, batendo a líder da Frente Nacional, Marine Le Pen. Macron surge em terceiro, à frente de Mélenchon e do vencedor das primárias da esquerda - seja Valls ou Montebourg. Há ainda a dúvida de se François Bayrou, líder do Movimento Democrático, se candidata - o que poderia roubar eleitores ao centro.

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