Valls acolhido por Macron após deixar os socialistas

Ex-governante formalizou saída do PS francês; irá sentar-se na bancada do partido do presidente. E tem planos para o futuro.

Antigo primeiro-ministro socialista, candidato derrotado nas primárias desta família política para as presidenciais, eleito deputado independente depois de ter falhado a iniciativa de concorrer às legislativas deste mês nas listas do partido do presidente Emmanuel Macron, Manuel Valls tornou-se ontem um "aparentado" do La République en Marche! (LRM), sentando-se entre os seus eleitos na nova Assembleia Nacional francesa.

Está consumada uma caminhada política que levou o ex-socialista a distanciar-se do partido, a tentar várias aproximações falhadas ao LRM e a tentar, após a eleição, a constituição de um grupo parlamentar próprio (no que também falhou), até finalmente ser acolhido nas fileiras daquele partido com um estatuto algo semelhante ao de deputado independente. Designado em França sob a etiqueta de "deputado aparentado", o detentor deste estatuto participa na vida do grupo parlamentar, beneficia da sua logística, mas não foi eleito nas listas do respetivo partido. Detém certa liberdade nas tomadas de posição, o que era considerado uma vantagem para Valls. Dizia ontem ao Libération um seu próximo: "O estatuto de aparentado dá-lhe direitos que não teria enquanto não inscrito [deputados que não pertencem a nenhum grupo parlamentar ou não são suficientes para formar um, caso dos eleitos da Frente Nacional], sem o forçar a muitas obrigações". Outro aliado de Valls, ouvido pelo mesmo diário, antecipava a estratégia do ex-socialista: "vai deixar acalmar a efervescência e quando as forças da dispersão tiverem feito o seu trabalho no LRM, ele estará em condições de assumir a liderança dos progressistas", isto é, o setor daquilo que Valls define como um projeto social e liberal de raiz republicana para renovar a esquerda.

Um projeto que considerou impossível de prosseguir entre os socialistas. Por isso, ao anunciar o abandono, disse constatar "com muita amargura e com muita tristeza aquilo em que se transformou o Partido Socialista", que considera anquilosado. Uma ideia depois repetida numa mensagem no Twitter: "Abandono o Partido Socialista, ou é o Partido Socialista que me deixa...". Era ontem recordado que Valls tem apelado, desde há anos, os socialistas "a ultrapassarem-se". E Valls explicou a saída ainda com um outro motivo: "não poderia estar num grupo parlamentar repleto de ambiguidades e onde não se votará a favor da moção de confiança ao governo. Eu votarei a favor da moção no próximo 4 de julho".

Do lado dos socialistas, a própria designação do partido parece tornar-se incómoda. Os 31 eleitos socialistas votaram ontem um novo nome para o seu grupo parlamentar. Pela primeira vez desde 1958, notou a Europe 1, não haverá um grupo com a designação socialista na Assembleia Nacional. "Após o voto desta manhã, o nosso grupo parlamentar passa a designar-se Nova Esquerda", escreveu no Twitter o seu presidente, Olivier Faure. Nome de uma tendência de esquerda criada nos anos 90 por Benoît Hamon no interior do partido.

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