Vaga alemã chega a socialistas europeus e incomoda Bruxelas

Udo Bullmann é o novo líder dos parlamentares do S&D. Primeiro desafio: não perder as europeias de maio de 2019.

O grupo dos socialistas e sociais-democratas (S&D) no Parlamento Europeu (PE) elegeu ontem o seu novo líder, Udo Bullmann, a um ano de eleições europeias que se antecipam como cruciais em alguns países devido a mudanças significativas no peso político das diferentes forças partidárias.

Bullmann, de 61 anos, foi eleito com 86 votos enquanto a sua oponente, a belga Kathleen Van Brempt, teve 61 votos. O grupo S&D tem 190 eleitos. Bullmann vai substituir o italiano Gianni Pittella, que foi eleito para o Senado nas legislativas de 4 de março.

Membro do PE há duas décadas e considerado uma personalidade experiente da ala esquerda do SPD alemão, a que aderiu em 1975, o novo líder dos S&D tem apenas um problema: o de ser mais um alemão em posições de grande visibilidade e importância em órgãos e instituições europeias. No PE, a maior família política, o Partido Popular Europeu (PPE), é também dirigida por um alemão, Manfred Weber. Recentemente, e de forma considerada nada clara, o chefe de gabinete de Jean-Claude Juncker, o alemão Martin Selmayr, foi escolhido para o importante cargo de secretário-geral da Comissão, dando origem a uma série de críticas de todas as famílias políticas no PE. Não só por ser mais um alemão em posições de topo, mas principalmente por a sua continuação no cargo ser independente da formação da nova Comissão, a suceder em outubro de 2019. Alemães ocupam também os postos de secretário-geral do PE, Klaus Welle, a direção do Serviço de Ação Externa, Helga Schmid, e a presidência do Banco Europeu de Investimento, Werner Hoyer, que iniciou em janeiro segundo mandato. E, com a saída de Mário Draghi da presidência do Banco Central Europeu (BCE) no próximo ano, fala-se ainda de mais um alemão para substituir o italiano. Entre os nomes de que se fala estão o presidente do Bundesbank, Jens Weidmann, defensor de políticas fiscais rigorosas, o diretor do Mecanismo de Estabilidade Europeia, Klaus Regling, que foi conselheiro financeiro da chanceler Angela Merkel, sendo referidos ainda outros, entre os quais, segundo a Reuters, o académico e dos mais reputados economistas alemães, Marcel Fratscher. Mas um alemão na presidência do BCE seria demais, é sugerido em círculos de Bruxelas. Um dos principais negociadores na criação do euro, citado no início da semana pelo Político.eu, explicou porquê: "O BCE foi criado à semelhança do Bundesbank, sediado em Frankfurt e o euro foi concebido de forma a ser tão ou mais forte do que o marco alemão. A conclusão era de que isto seria suficiente e que a presidência do BCE não seria para um alemão."

Além do elevado número de alemães em posições de topo na UE e peso crescente deste país agora que é inelutável a saída do Reino Unido, foi o processo de escolha de Selmayr que, em particular, agitou alguns meios europeus, com algumas fontes a descreverem-na como "um assalto ao poder". Visto como figura "controversa", a nomeação de Selmayr foi incluída à última hora numa reunião da Comissão em finais de fevereiro e terá sido decidida por unanimidade.

É tendo como pano de fundo este quadro que Bullmann chega à liderança dos S&D num período crítico para a sua família política. Vários partidos vivem crises profundas, caso do francês, ou estão em queda eleitoral, o alemão e o italiano, como movimentos eurocéticos costumam ter votações relevantes nas eleições europeias. A somar a isto, novos fenómenos de que é exemplo máximo o La République en Marche!, de Emmanuel Macron, consideram a hipótese de constituir novos grupos no PE, o que poderia ter consequências no peso dos S&D no hemiciclo europeu.

O desafio de Bullmann será o de dirigir uma campanha para as europeias de maio de 2019 em que os S&D voltem a ser o primeiro ou, pelo menos, o segundo grupo político no PE. Qualquer outro resultado só pode ser visto como um revés.

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