"Uma vez refugiado para sempre refugiado"

Rawi Hage cresceu no Líbano durante a guerra civil e partiu, como refugiado, para o Chipre. Desde 1992 que vive no Canadá e diz que ainda hoje se sente deslocado. Esteve em Lisboa para dar uma conferência na Fundação Gulbenkian intitulada Arrival (Chegada) e falou com o DN. Para ele os refugiados têm o direito de chegar onde quiserem

Diz que o ato de chegar nunca é passivo. O que quer dizer com isto?

Há muitos tipos de chegadas. Há chegadas vitoriosas e chegadas de pessoas que foram obrigadas a chegar. Mas chegar é sempre o final de um trajeto, por isso envolve quase sempre uma forma de triunfo. Para se chegar houve obstáculos que foram ultrapassados. A história da humanidade é uma sequência de partidas e de chegadas.

Quando é que a chegada termina? Quando é que, por exemplo, um refugiado deixa de ser um refugiado?

Suspeito que uma vez refugiado para sempre refugiado. Há uma quebra psicológica que faz com que penses em ti próprio sempre como refugiado. Julgo que a salvação só acontece na segunda ou na terceira geração.

Ainda se sente um refugiado?

Ainda me sinto deslocado. À medida que vou envelhecendo penso cada vez mais nos "ses". E se não tivesse partido? E se nunca tivesse chegado?

Lamenta ter partido?

Lamento ter nascido num lugar de conflito. Lamento ter passado pela guerra. Lamento ter visto o sítio onde nasci ser destruído.

Quão sangrenta foi a guerra para si?

A guerra no Líbano foi muito sangrenta, mas é preciso dizer que a guerra hoje na Síria é ainda mais. O que vemos hoje é devastador. Estou convencido de que algumas destas guerras são, no fundo, um espaço de teste para os avanços tecnológicos.

Foi com a família para Chipre para fugir da guerra. E depois partiu para os EUA e mais tarde para o Canadá. O que pensa quando vê hoje alguns países a fechar as portas aos refugiados?

As causas desta crise migratória são uma longa acumulação de decisões políticas erradas. Quando olhamos para a quantidade de armas vendidas para determinadas regiões e quando vemos a quantidade de refugiados oriundos dessas regiões percebemos a relação que existe entre a política e o êxodo atual. O neoliberalismo há muito que explora os países destas latitudes, por isso, no meu entender, os refugiados têm direito a chegar onde quiserem chegar. Já pagaram essa viagem através do trabalho, da terra, dos recursos.

Faz sentido distinguir quem foge da guerra e quem foge da miséria?

As causas para a guerra e para a miséria são as mesmas. E também é preciso responsabilizar a elite dos países ditos de terceiro mundo. Essas elites são culpadas pela corrupção, pela subserviência ao neoliberalismo, pelos negócios de compra de armas.

Foi mais difícil para si deixar o Líbano ou chegar a Chipre?

A chegada ao Chipre correu bem, o mais difícil foi a chegada a Nova Iorque. Não falava a língua, não conhecia ninguém e tinha pouco dinheiro. Tive que me fazer à vida e vivi oito anos a tentar trabalhar para sobreviver. Vivi como um refugiado. A sensação de isolamento e de angústia existencial que existe nos meus romances vem daí, dessa experiência.

Em Montreal trabalhou como taxista.

Sim, mas primeiro fui estudar. No Canadá a educação é gratuita e a saúde também. Acho que foi por isso que me tornei socialista, porque tive essa hipótese de estudar sem pagar. Estudei Fotografia e Belas Artes. E depois experimentei começar a escrever. Primeiro contos e depois romances.

No seu primeiro livro, Como a Raiva ao Vento, a personagem principal fugiu da guerra do Líbano. O segundo chama-se Exílio. No terceiro, Carnival, o herói é um taxista. É mais fácil escrever sobre aquilo que conhece ou procura na escrita um efeito catártico?

Um pouco das duas coisas. Sinto-me melhor quando escrevo. Para dizer a verdade, quando escrevo sinto-me louco, mas depois sinto-me são. Acho que é preciso insanidade para escrever ficção. Mas sim, procuro ir buscar inspiração à minha vida porque não foi uma vida vulgar. Há quem faça pesquisa durante anos para substituir as experiências que não tiveram. Eu tenho essas experiências.

Como olha hoje para o Líbano?

É um lugar caótico, mas dentro do caos existe liberdade. O Líbano sempre foi uma vítima. É um país muito contraditório. Por um lado, tem a taxa de literacia mais alta no Médio Oriente, existe democracia, produz artistas fantásticos... Mas, por outro, qualquer conflito na região acaba no Líbano. Se o Irão se chateia com a Arábia Saudita e querem fazer uma guerra vão fazê-la no Líbano. Se Israel quer atacar palestinianos é no Líbano que o vai fazer. Somos três milhões e temos 2,5 milhões de refugiados. É admirável a forma como os libaneses ajudam os outros. A escola é gratuita para as crianças sírias. Se calhar o Líbano devia receber o Nobel da Paz.

A guerra civil terminou totalmente?

Não, mas os libaneses não querem passar por outra guerra. Já tiveram essa experiência e olham para a Síria e percebem o tipo de guerra que seria.

Mas ainda existem tensões religiosas?

Sim, as tensões sectárias sempre existiram. O Líbano - essa é a sua beleza e ao mesmo tempo o seu calcanhar de Aquiles - é um mosaico de minorias que foram perseguidas ao longo da História.

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