Um português na fronteira: do narcotráfico à promessa de um novo muro

Alexandre Costa vive em Nuevo Laredo, na fronteira entre o México e os EUA, conta como é viver no meio da luta de cartéis e como os mexicanos veem o presidente norte-americano Donald Trump

Em julho, os corpos de cinco mulheres e quatro homens foram despejados à frente de uma casa em Nuevo Laredo, uma cidade mexicana que faz fronteira com Laredo, no Texas. A polícia não deu muitos pormenores sobre a investigação, mas a descoberta macabra não foi um incidente isolado. Nuevo Laredo é uma das cidades do estado mexicano de Tamaulipas mais assoladas pela violência entre narcotraficantes, com uma luta entre os cartéis Golfo e Zetas que dura há anos. É aqui que vive o português Alexandre Costa, imigrado no México há cinco anos.

"É um bocado pesado, devido à delinquência e ao narcotráfico. Há algumas histórias que se passam todos os dias que nem sequer chegam às notícias", conta o português ao DN. Nuevo Laredo, Matamoros e Reynosa são as cidades de Tamaulipa onde a violência causada por grupos rivais de narcotraficantes tem aumentado exponencialmente. Entre 2013 e 2016, o número de homicídios no estado subiu 32%, apesar da implementação de um programa de segurança federal, Plan Tamaulipas, que pretendia desmantelar os grupos de criminosos e fechar as rotas de tráfico. A promessa de deportar imigrantes ilegais dos Estados Unidos para o México faz recear uma nova escalada.

"A questão é que, se vamos aumentar as deportações dos Estados Unidos para o México, a nível humanitário vai ser muito complicado", considera. "E isso também são armas para o narcotráfico. As pessoas não têm trabalho, não têm onde ficar, não têm comida e eles [traficantes] aproveitam-se dessa fragilidade", afirma. "O narcotráfico aproveita-se porque são situações humanitárias, quase de refugiados."

Alexandre Costa refere que ainda não se nota uma grande diferença entre a Administração de Barack Obama, que estava em funções quando se mudou para o México, e a de Donald Trump, que está há nove meses no poder. Durante o mandato de Obama, que em oito anos deportou mais de dois milhões de imigrantes ilegais, era comum ver autocarros com deportados nos postos fronteiriços uma vez a cada 15 dias. O ritmo tem sido mais ou menos o mesmo, mas a verdade é que os Estados Unidos viveram até ao final de setembro com o orçamento fiscal de 2017, o último da Administração Obama. Os verdadeiros efeitos das políticas de imigração do novo presidente vão começar a ser sentidos daqui para a frente.

Entre o México e o muro
A história de Alexandre, de 33 anos, é comum a tantas outras de portugueses que saíram da zona de conforto e procuraram outras paragens durante a crise. "Estava desempregado na altura da troika e decidi vir para cá", conta o português, que agora é gerente de um centro de inspeção em Nuevo Laredo. Natural de Mangualde, perto de Viseu, mudou-se para Lisboa aos 18 anos para estudar. Foi lá que conheceu a mulher Sarah, com quem vive em Nuevo Laredo. "O meu coração foi roubado por uma mexicana", explica. O casal tem agora uma filha de 16 meses e considera a hipótese de cruzar a fronteira para o Texas ou descer para o Sul do México e escapar ao narcotráfico. "Tem alturas, são ondas em que a violência sobe bastante. Agora estamos em águas de bacalhau. Tem muito que ver com a intervenção das forças de segurança na cidade, que faz que as coisas aqueçam ou esfriem", afirma o português.

Daquele lado da fronteira, o discurso antagónico de Donald Trump e a sua promessa de que o México pagará por um muro gigante na fronteira não são levados a sério. "O presidente dos Estados Unidos é encarado como... não quero usar palavras fortes, mas é encarado como um palhaço", revela Alexandre. "É considerado incompetente, ignorante, não tem muito respeito. As declarações que ele faz caem em saco roto."

No entanto, há muita preocupação com os efeitos práticos que este antagonismo terá no curto prazo. Além dos efeitos das deportações em massa, teme-se que Trump rasgue um acordo que é vital para a economia mexicana: o NAFTA, ou North American Free Trade Agreement. Assinado por Bill Clinton nos anos 1990, o tratado permite o livre comércio entre os Estados Unidos, o Canadá e o México. "Agora estão a decorrer negociações entre os três governos, o que pode prejudicar gravemente a economia mexicana, principalmente na fronteira, e também a economia americana", refere Alexandre. A posição dura de Trump, que considera o NAFTA um dos piores acordos alguma vez assinados pelos Estados Unidos, "complica muito as coisas", diz o português. E se esta posição nas negociações for para a frente, o fim do NAFTA será um golpe histórico - e estará iminente.

Os sons do Texas
Entre bandeiras da Guerra dos Tronos, o meme do chef turco que põe sal na comida e a Tina da série animada Bob"s Burgers, a brisa outonal do Texas fazia ondular a bandeira de Portugal que Alexandre Costa levou para o festival de música Austin City Limits. Foi ali que o encontrámos com a mulher Sarah e vários amigos mexicanos, à frente do palco onde tocava o DJ Martin Garrix. "A bandeira de Portugal é um excelente ponto de referência para um festival e de certeza que não vai encontrar outra bandeira portuguesa aqui", disse ao DN, empunhando uma haste de vários metros. Nunca tinham estado no Austin City Limits, um dos maiores festivais de música do mundo. Foram ver Gorillaz, Martin Garrix, Portugal. The Man e Red Hot Chili Peppers, de quem Alexandre perdeu dois concertos em Portugal. Não levaram a filha porque não sabiam que o festival era tão amigo de famílias. Mas é: por todo o lado se viam bebés de colo e crianças pequenas, de todas as idades. "É algo de que eu não estava à espera, é um ambiente que parece familiar, apesar do cheiro de canábis pelo ar." De facto, o odor inconfundível da marijuana fez-se sentir durante todo o festival, que terminou ontem com o segundo fim de semana, em que se repetiu o alinhamento de bandas. A canábis é ilegal no estado, mas isto é Austin, que podia bem ser chamada a Califórnia do Texas.

Em Austin

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