Um italiano sucede a outro na presidência do Parlamento Europeu

David-Maria Sassoli, de 63 anos, é o novo presidente da eurocâmara.

Até há 24 horas ninguém apostaria no seu nome, mas a dinâmica das negociações, dentro e fora do Parlamento Europeu, conduziu a que o italiano conservador Antonio Tajani passasse o testemunho ao seu compatriota progressista David-Maria Sassoli. O candidato dos Socialistas & Democratas foi eleito à segunda volta, tendo recolhido 345 votos em 667 validos, sendo eleito presidente do Parlamento Europeu. Jan Zahradil obteve 160 e Ska Keller 119.

A escolha de um italiano em tudo contrário aos valores do atual governo de Roma será também uma bofetada de luva branca a Matteo Salvini e Luigi Di Maio.

Uma alemã ecologista, um checo eurocético, uma espanhola da Unida Podemos e um italiano jornalista concorreram à presidência do Parlamento Europeu. Na primeira volta David-Maria Sassoli ficou a sete votos da eleição, tendo obtido 325 votos dos 662 sufrágios válidos, seguido de Jan Zahradil, com 162, de Ska Keller, com 133 e de Siri Rego com 42.

"Estamos aqui para escolher um novo presidente, este parlamento é livre e autónomo", começou por dizer no início da sessão o presidente cessante Antonio Tajani, antes de anunciar cada um dos candidatos.

Deu depois cinco minutos a cada um, por ordem alfabética, tendo a candidata dos Verdes Ska Keller iniciado por lamentar que o cargo de presidente do PE tenha sido alvo de "moeda de troca" entre os líderes europeus. Fez depois um discurso em tom otimista, no qual afirmou que a UE é "o maior feito histórico do continente", mas apelando para uma cimeira sobre a urgência climática.

A espanhola Siri Rego fez um discurso emotivo, de combate ao fascismo e na defesa de um Parlamento feminista. A um ritmo difícil de acompanhar - Tajani disse no final que os candidatos devem falar de forma pausada para que os tradutores possam fazer o seu trabalho, o que gerou risadas, e que os candidatos devem ter tempo para expressar as suas ideias - recordou o que os países do sul sofreram com a austeridade e o "neoliberalismo", atacou Salvini, o líder da extrema-direita espanhola e ministro do Interior e destacou o papel da "heroína" Carola Rackete, a capitã do navio Sea Watch, que foi detida por entrar em águas italianas após ter resgatado as vidas de 40 migrantes. No final, recebeu aplausos e apupos.

David-Maria Sassoli, o candidato do grupo político Socialistas & Democratas, comprometeu-se a trabalhar por "um parlamento mais sustentável e que seja respeitado pelos Estados e pelas instituições". Depois dirigiu-se aos deputados. "Vocês representam a esperança, mas também a raiva dos cidadãos. Terei sempre a porta aberta e ouvirei a todos atentamente", prometeu, tendo destacado o interesse em ouvir os jovens. Deixou uma frase que resume o seu pensamento: "Precisamos de um continente de portas abertas e com respeito por todas as culturas." Por fim evocou Jean Monnet: "Nada é possível sem os homens e as mulheres e nada dura sem as instituições."

O checo Jan Zahradil foi quem terminou a ronda de alocuções. Puxou dos galões da experiência ("Para quem não me conhece estou cá desde 2004") e depois disse o que deveria fazer quem desempenha o cargo a que se candidata. "Um bom presidente deve ser neutral e imparcial, tratar todos de forma justa e com respeito e que não se represente a si próprio mas a todo o Parlamento", disse. Zahradil defendeu o equilíbrio entre pequenos e grandes Estados e entre países da zona euro e de fora da moeda única.

A escolha dos eurodeputados é feita em voto secreto, depositado em urna. Caso não haja um vencedor com maioria absoluta de votos expressos, podem ser propostos novos nomes. O processo pode repetir-se até uma quarta volta, mas nesse caso só vão a votos os dois nomes mais votados e é eleito quem tiver mais votos, independentemente da percentagem.

Quem é o jornalista Sassoli

David-Maria Sassoli é um jornalista conhecido em Itália. Nascido em Florença, em 1956, casado e com dois filhos, é vice-presidente do PE. Começou no jornalismo nos meios locais florentinos. Já em Roma integrou a redação de Il Giorno, onde segue a política. Em 1992 passa para a televisão e, sempre na RAI, ascende a subdiretor de informação do canal.

Em 2009 aceita entrar na política, pelo Partido Democrático, e é eleito eurodeputado. Sassoli lidera a delegação do partido no Parlamento. Em 2012 tenta, sem sucesso, o cargo de presidente da Câmara de Roma, pelo que voltou a candidatar-se a Bruxelas em 2014. Nesse ano o partido então liderado por Matteo Renzi alcança um resultado histórico nas europeias e Sassoli é eleito vice-presidente.

Sassoli, apaixonado pela música clássica e pela história, nunca deixou de escrever nos media italianos e mantém um blogue na versão transalpina do Huffington Post.

"Vice-presidente do PE mas sobretudo um de nós", é como se apresenta no Twitter. Também aqui não esconde a sua frontal oposição ao governo de coligação entre os populistas antissistema do Movimento 5 Estrelas e a extrema-direita da Liga.

Depois de assumir funções, o novo presidente do Parlamento dirige a eleição dos 14 vice-presidentes, bem como a eleição dos cinco questores (responsáveis pelas questões administrativas e financeiras dos deputados).

Sassoli vai cumprir dois e meio de mandato - metade do estipulado - antes de passar o testemunho a um membro do Partido Popular Europeu para cumprir os outros dois anos e meio.

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