UE prepara resposta de emergência para cenário de vitória do brexit

Bruxelas tenciona ser intransigente nas negociações com Londres em caso de sucesso eurocético

Os alarmes soam cada vez mais alto em Bruxelas. À medida que se aproxima a data do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE) e cada vez mais sondagens apontam para a vitória do campo que advoga a saída na votação de quinta-feira 23. A confirmar-se este cenário, no dia seguinte, os presidentes da Comissão, do Conselho e do Parlamentos Europeus, respetivamente Jean-Claude Juncker, Donald Tusk e Martin Schulz irão, reunir-se com Mark Rutte, primeiro-ministro da Holanda, país que assegura a presidência rotativa da UE, para discutirem as medidas a tomar.

O mais tardar no domingo, 26 de junho, a Comissão Europeia estará reunida para definir a estratégia a seguir, podendo realizar-se no quadro da cimeira semestral da UE, a 28 e 29 em Bruxelas, uma outra paralela entre o Reino Unido e os restantes 27 Estados membros.

Em seguida, estes decidirão o caminho futuro da UE, tendo uma fonte da Comissão declarado no final de maio à Reuters que o "divórcio" com os britânicos "deve ser rápido". Uma outra fonte acentuou não existir "qualquer interesse em negociar com Londres quaisquer novas condições nos primeiros dois anos". As negociações necessárias restringir-se-ão à liquidação de pagamentos e transferências financeiras entre ambos os lados, aos prazos de saída de agências europeias do Reino Unido e ao esquema de pensões a atribuir aos funcionários britânicos a prestarem serviço nas instituições da UE.

A concretizar-se, a saída do Reino Unido ocorreria em julho de 2018, com as negociações a serem marcadas por uma postura intransigente da UE, referiu uma outra fonte à Reuters. A equipa negocial seria liderada por um alemão ou um francês, indicou a primeira fonte citada em maio pela Reuters.

Noutro plano, Martin Schulz esteve reunido no passado dia 7 com os presidentes das principais famílias políticas representadas no hemiciclo no Parlamento Europeu (PE) - o Partido Popular Europeu, os Socialistas e Democratas e os Liberais e Democratas -, tendo ficado definido que o plenário reunir-se-á entre 24 e 28, dia em que se inicia o Conselho europeu, referiu segunda-feira ao EurActiv um eurodeputado francês, sob anonimato.

Por seu lado, o Banco Central Europeu (BCE) estaria já pronto a intervir nos mercados para travar a queda do valor do euro e da libra, uma movimento que se tem vindo a acentuar nos últimos dias à medida que crescem as hipóteses de uma vitória do brexit, os partidários da saída. Uma queda que continuou a observar-se ontem, com o iene, a moeda japonesa, a registar o valor mais alto dos últimos três anos face ao euro e à libra. Também o franco suíço atingiu o valor mais elevado dos últimos três meses face ao euro, com o dólar a registar igualmente uma apreciação face à divisa europeia.

As bolsas europeias estão a ser influenciadas negativamente tendo registado perdas perdas na ordem dos 400 mil milhões de euros entre sexta-feira e ontem, indicou a Bloomberg.

O modo de atuação do BCE será anunciado na manhã de 24 de junho, quando for claro qual o sentido de voto dos eleitores britânicos. Um alto quadro do BCE declarava ontem à Reuters, sob anonimato, "que será feito todo o necessário para manter a adequada liquidez dos mercados", a confiança dos investidores e evitar a possibilidade de uma recessão das economias da UE e Reino Unido.

Até ao dia do referendo estão previstas uma série de reuniões de dirigentes dos bancos centrais dos países membros da UE para avaliação da situação e para concertarem atuações. Para a eurozona, está marcada uma conferência telefónica dos governadores dos 19 bancos nacionais para 24 de junho.

Vantagem do brexit

Cinco sondagens divulgadas entre segunda-feira e ontem revelam que o campo da permanência na UE (o designado bremain) está a perder terreno entre os eleitores.

Assim, uma sondagem YouGov a 1905 inquiridos dá 46% de intenções de votos para a saída da UE e 39% para a permanência. Excluindo os indecisos, nesta sondagem publicada pelo The Times a vantagem do brexit dilata-se ainda mais: 54% contra 46% do bremain. Uma outra sondagem, esta do TNS e realizada online, consolida a tendência para a saída, com 47% dos inquiridos a pronunciarem-se nesse sentido e 40% a favor da permanência. Anterior sondagem da mesma empresa revelava uma vantagem de apenas dois pontos percentuais para o não à UE.

A terceira e quarta sondagens, uma pelo telefone e a outra online, apresentam o mesmo resultado: 56% para a saída, 47% para a permanência. Realizados pela empresa ICM e publicados no The Guardian, os dois inquéritos consolidam a tendência para o não à UE e, por outro lado, quebram a regra das sondagens por telefone evidenciarem resultados de serem mais favoráveis à permanência.

A quinta sondagem, da ORB e publicada no The Daily Telegraph , coloca a saída à frente da permanência pela margem mínima: 49% para 48%. Uma anterior sondagem ORB, divulgada na última sexta-feira, concedia ao brexit uma vantagem de 10 pontos percentuais: 55% para 45%. No caso da ORB, ambos os inquéritos foram por telefone.

Perante este quadro, enquanto o primeiro-ministro conservador David Cameron se apaga deliberadamente na campanha, ciente de que o eleitorado trabalhista é decisivo para a vitória do sim, os dirigentes deste partido, como o líder Jeremy Corbyn e o antigo primeiro-ministro Gordon Brown, têm multiplicado as intervenções. Ontem, Corbyn esteve na sede da central sindical TUC, afirmando que a permanência vai no sentido da defesa dos direitos dos trabalhadores. Criticado por se ter mostrado até agora algo reticente na campanha, a intervenção de ontem de Corbyn foi considerada como a mais forte até agora realizada na defesa do sim à UE.

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