Ucrânia testa relações entre Washington e Moscovo

Face ao bloqueio do processo político a tentação da via militar para recuperar o controlo dos territórios do Leste é muito forte entre as alas mais radicais do regime de Porochenko.

Uma situação militar volátil e suspensa de um cessar-fogo em que ninguém parece acreditar e os primeiros sinais de um endurecimento de posições na Casa Branca ameaçam fazer da Ucrânia o primeiro grande teste às relações entre os Estados Unidos e a Rússia.

O Departamento de Estado norte-americano reagiu a um incidente, no final da semana passada, entre separatistas pró-russos e um grupo de observadores da OSCE apelando "à Rússia e às forças separatistas que apoia" a "respeitar o cessar-fogo" em vigor, "retirar todas as armas pesadas" da linha de confronto e garantir plena liberdade de movimentos aos observadores.

O incidente ocorreu na passada sexta-feira quando um grupo de rebeldes cercou uma equipa da missão da OSCE no Leste da Ucrânia (OSCE Special Monitoring Mission -SMM) e, de armas em riste, impediram o lançamento de um drone da organização.

O caso, registado ao sexto dia de um cessar-fogo negociado em Munique e que travou para já semanas de violentos confrontos entre exército ucraniano e forças separatistas nas áreas de Avdiivka e Donetsk, no Leste da Ucrânia, veio adensar ainda as dúvidas sobre uma trégua que se anuncia frágil e incerta.

O mal-estar crescente entre os separatistas pró-russos e os observadores da SMM prende-se em boa medida com o reacender dos duelos de artilharia no final de janeiro. Num duelo de propagandas recorrente, os lados em confronto acusaram-se reciprocamente de serem responsáveis pela situação, e os separatistas pró-russos acusaram a missão da OSCE de omitir deliberadamente as iniciativas militares das forças de Kiev.

A escalada da situação militar, a mais grave desde a assinatura dos acordos de Minsk, em setembro de 2015, coincidiu praticamente com a tomada de posse de Donald Trump e foi desde logo como um primeiro grande teste à atitude da nova administração face ao conflito e às relações com a Rússia. Num momento em que na Casa Branca se discutia a hipótese de uma revisão das sanções impostas à Rússia na sequência da anexação da Crimeia, no início de 2014, o presidente ucraniano Petro Poroshenko veio a público protestar que seria "impensável" falar do levantamento de sanções face à intensidade das trocas de artilharia no Leste da Ucrânia.

As posições assumidas pela administração Trump ao longo desta crise acusam uma evolução significativa. Uma declaração emitida pelo Departamento de Estado no início de fevereiro dava conta de uma "profunda preocupação" com o reacender dos confrontos, mas evitava claramente atribuir responsabilidades a um dos lados. Desta feita, a Casa Branca não hesita em apontar o dedo aos separatistas e à própria Rússia.

Esta mudança de tom parece refletir a pressão da imprensa, dos serviços de intelligence americanos e de figuras gradas do próprio Partido Republicano, com destaque para o senador John McCain, e ainda de aparentes divisões dentro da própria administração no que toca às relações com Moscovo.

O secretário da Defesa, general James Mattis, e Mike Pompeo, o escolhido de Trump para chefiar a CIA, apontam abertamente Moscovo como uma "ameaça". Michael Flynn, anterior conselheiro de segurança nacional de Donald Trump, foi obrigado a demitir-se por suspeitas de diplomacia paralela pró-Kremlin, e o sucessor, o general H. R. McMaster, nunca escondeu que encara a Rússia como potência hostil.

A tentação das armas

E a situação afigura-se tanto mais séria quanto a tensão militar no Leste da Ucrânia e a ausência de perspetivas de solução política do conflito mantêm viva a ameaça de um reacender com confrontos a qualquer momento.

Os acordos de Minsk, negociado entre Ucrânia, Rússia, Alemanha e França em fevereiro de 2015, conseguiram na altura travar o alastramento do conflito mas nunca foram inteiramente cumpridos no plano militar. Quanto aos aspetos políticos do acordo - reforma constitucional, eleições nas áreas rebeldes e estatuto das zonas separatistas -, o processo mantém-se bloqueado.

O regime de Kiev resiste à plena implementação do acordo Minsk II que o presidente Petro Porochenko assinou em fevereiro de 2015 sob pressão da Europa e que garantiria uma regionalização de facto da Ucrânia e uma forte autonomia para as regiões separatistas. Berlim e Paris mostram-se incapazes de alterar a posição de Porochenko, e Washington tem-se recusado até agora a exercer pressão sobre Kiev.

A recente decisão de Vladimir Putin de reconhecer os passaportes emitidos pelas autoridades separatistas no Leste da Ucrânia parecem indicar que a Rússia está decidida a contornar Minsk e conferir uma quase legitimidade às regiões sob controlo dos rebeldes pró-russos.

Face ao bloqueio do processo político a tentação da via militar como única alternativa para recuperar o controlo dos territórios do Leste é muito forte entre as alas mais radicais do regime de Porochenko.

Os problemas de Kiev não acabam porém aí. Face à radicalização das posições dos dois lados e à hostilidade e desconfiança das populações do Leste, mesmo em áreas sob controlo militar ucraniano como Sloviansk, a integração dessas áreas afigura-se extremamente problemática.

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