"Trump ganhou votos quando lhe tentaram roubar a nomeação"

Em Lisboa para uma conferência na Gulbenkian, Kerry Kennedy, presidente do Centro Robert Kennedy para os Direitos Humanos e sobrinha do presidente John F. Kennedy, elogia a atitude de Portugal na crise dos refugiados.

Está em Lisboa para falar de direitos humanos: qual é a maior ameaça atualmente?

A maior ameaça aos direitos humanos é o ódio. Temos o Estado Islâmico a decapitar pessoas, o Boko Haram, a crise dos refugiados na Europa, os ataques contra os rohingya na Birmânia, o aumento do antissemitismo e xenofobia na Europa, o crescimento dos partidos neonazis - são já o terceiro partido na Suécia e na Grécia. Em Itália temos a Liga Norte, na Alemanha vemos o que está a acontecer, na Hungria ganharam as eleições. E também nos EUA, vemos as atrocidades que são cometidas contra as minorias pela polícia que levaram ao surgimento do movimento Black Lives Matter. A melhor forma de responder ao ódio é construir comunidades de compaixão, entendimento e respeito mútuo.

A educação é o início dessa luta?

Faz parte da solução. São assuntos que têm de ser abordados pelas famílias, pelos locais de culto. Não podemos ter clérigos a pregar o ódio. Têm de ser abordados pelos líderes políticos, pelos investidores, pelas empresas.

Como é que a pessoa comum pode ajudar?

Martin Luther King costumava dizer que todos temos um dom e temos de usar esse dom para tornar o mundo mais justo. Temos de fazer o que podemos em termos pessoais e profissionais. Quando as crianças me perguntam o que podem fazer na crise dos refugidos, respondo: "Podes fazer uma venda, podes ser mais simpático com os teus colegas e podes chegar a casa e lavar a loiça esta noite. Não esperes que te peçam para o fazer. Faz algo por outra pessoa que seja espontâneo. Escreve uma carta aos teus pais a agradecer o que fizeram por ti, diz-lhes."

A nível político, resolver a crise dos refugiados promete não ser assim tão fácil...

Isso é completamente diferente. Sem uma política comum, não basta lançarmos flores uns aos outros. É preciso uma mudança de política para que haja uma mudança no terreno. Parte dessa tarefa passa por... Portugal é um país espantoso. Passou por uma crise económica terrível. E mesmo assim aceita refugiados. É um exemplo para os outros.

Também temos sorte por estarmos na ponta da Europa, fora da rota dos refugiados, ao contrário da Grécia ou da Itália...

Sim. E a Grécia tem sido espantosa. Têm sido tão generosos com os refugiados. A questão é que esta não pode ser uma crise da Grécia ou de Portugal ou de Itália, é uma crise da Europa. E toda a Europa tem de assumir as responsabilidades. E é também uma crise dos EUA. Aceitámos menos de 2000 refugiados sírios. Temos 320 milhões de habitantes, conseguimos absorver muitos mais.

Estamos em ano de eleições nos EUA, é assustador para si ouvir as coisas que Donald Trump diz sobre mulheres, sobre imigrantes, sobre muçulmanos, sobre tortura, etc?

Ele... uhm... O que é assustador é ele dizer essas coisas e as pessoas votarem nele. Os EUA têm um longo historial de candidatos presidenciais que dizem coisas assim. Tivemos George Wallace em 1968 que queria mandar todos os negros para África. Pat Buchanan, Louis Farrakhan,... Geralmente recebem 20% dos votos. Isso não me preocuparia. No caso de Trump, ele tinha esses 20%. E manteve-se assim grande parte da campanha. Depois, a liderança republicana começou a dizer que lhe ia roubar os votos. "Mesmo que ele ganhe, vamos roubar-lhe a nomeação na convenção." As pessoas começaram a ficar furiosas e a votar mais nele. Trump ganhou votos quando lhe tentaram roubar a nomeação. Foi uma reação, não a Trump, mas à liderança do partido. Ele é muito perigoso e já prejudicou a reputação dos EUA no estrangeiro.

Acha que ele pode ganhar em novembro?

Ele pode ganhar. Acho que não vai ganhar, Hillary Clinton vai ganhar. Mas acredito que é possível ele ganhar. Não podemos dar nada por garantido nas eleições americanas.

Uma presidente Hillary Clinton terá uma perspetiva diferente por ser mulher?

Diria que sim. A minha experiência como ativista dos direitos humanos é que se pegar numa comunidade, seja onde for, e só puder fazer uma coisa para melhorar os direitos humanos, essa coisa será dar mais poder às mulheres. E a vida de Hillary... ela já fez muitas coisas, mas numa tem sido sempre consistente: mais poder para as mulheres.

O presidente Obama deixa a Casa Branca em janeiro, qual o seu maior legado?

Há uma diferença entre o seu legado e o que ele foi. O que ele fez de mais extraordinário pelos EUA é algo pelo qual nunca vai receber louros: evitar o desastre. Quando Obama se tornou presidente, os melhores economistas previam que os EUA se encaminhavam para uma nova Grande Depressão. Mas graças às políticas de Obama isso foi evitado. Em segundo lugar, temos a reforma da saúde. Vocês em Portugal devem achar que somos loucos por não termos um sistema de segurança social para todos. O país mais rico e poderoso do mundo não tem segurança social universal? Resolver isso já transformou muitas vidas. Quando Obama se tornou presidente, é preciso lembrar que sucedeu a Bush. E nessa altura, os EUA eram o país mais odiado do mundo. Bush estava convencido de que a nossa força estava no nosso poderio militar, mais do que na economia. Estava errado. O que nos torna mais poderosos são as nossas ideias, a ideia de justiça, de liberdade de meritocracia.

É autora de Being Catholic Now. O seu tio John F. Kennedy continua a ser o único presidente dos EUA católico. Ainda há discriminação religiosa nos EUA, sobretudo quando falamos de candidatos presidenciais?

Em relação aos católicos não. Mas se fosse um presidente muçulmano, sim. Ainda há muita intolerância religiosa. É difícil um judeu tornar-se presidente. Seria muito difícil para um muçulmano. Mas o meu tio... quando ele era um jovem senador do Massachusetts, o sistema migratório era totalmente fechado para quem viesse de fora da Europa. E isso incluía os Açores. Na altura houve uma terrível erupção vulcânica nos Açores que gerou muitos refugiados. Eles queriam ir para os EUA mas não podiam. Para entrar precisavam que um senador assinasse pessoalmente o seu pedido de imigração. E o meu tio assinou dezenas de milhares de pedidos. Por isso há tantos portugueses no Massachusetts. E ainda hoje - há uns anos estive em campanha pelo meu sobrinho que hoje é congressista por New Bedford e Fall Rivers, zonas de muitos açorianos - e nem imagina, as pessoas chegavam ao pé de mim e diziam: "o seu tio assinou os meus documentos!" E é lindo. Quando pensamos naquela mentalidade: ir contra o Congresso dos EUA para dizer que somos um grande país, somos um país de compaixão, temos de receber estas pessoas e eu vou fazer o meu papel. É o que Portugal está a fazer agora, com a crise migratória. Está a dizer. Venham! Nós não temos empregos para nós, mas venham. É espetacular.

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