Trump estará sempre em xeque pelo cocktail entre negócios e política

Especialistas informáticos acreditam que eleição poderá ter sido viciada e aconselham Hillary Clinton a contestar os resultados

Trata-se de território inexplorado. Nunca antes a questão de potenciais conflitos de interesses envolvendo um presidente dos EUA se revestiu de uma magnitude tão ampla como no caso de Donald Trump. Nunca a Casa Branca teve como inquilino um magnata com tantos negócios, investimentos e relações comerciais dentro e fora de portas.

Muitos analistas defendem que não é impossível que mais cedo do que mais tarde haja matéria para um possível impeachment. Trump, por seu turno, está convicto do contrário: "A lei está totalmente do meu lado. O presidente está isento de conflitos de interesses". Será a frase verdadeira? Mais ou menos. Sim e não. Talvez nim.

Independentemente do enquadramento legal, já se dizia em Roma que "à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecê-lo". Em conversa com Nigel Farage, Trump terá pedido ao britânico, líder dos independentistas do UKIP, que mexesse os cordelinhos para impedir a construção de um parque eólico offshore na Escócia, para não estragar a vista de um dos seus campos de golfe. No encontro com os jornalistas do The New York Times, na terça-feira, o presidente eleito não negou que assim tivesse sido. "Sim, é possível que tenhamos falado do assunto", foi a resposta que deu aos repórteres. Para a revista Vanity Fair, este é já um exemplo nítido da mistura entre negócios e política.

"Para os diplomatas estrangeiros o hotel de Trump é o lugar onde ficar", era o título de um artigo do The Washington Post na semana passada. De acordo com o jornal norte-americano, esta é uma forma de caírem no goto do futuro presidente.

Todos os antecessores de Donald Trump das últimas décadas optaram por entregar os seus ativos a um blind trust, ou fundo cego, lavando assim as mãos dos negócios e evitando potenciais conflitos de interesses. Barack Obama não o fez, mas os seus ativos não passavam de simples Obrigações do Tesouro. Trump tenciona delegar a gestão nos seus filhos, mas, escreve a The New Yorker, essa solução não seria equivalente nem a um fundo - porque os gestores não seriam figuras independentes -, nem seria cego - porque os responsáveis seriam os filhos. "Para algumas pessoas eu não poderia nunca mais voltar a estar com a minha filha Ivanka", reclama Trump.

Mas afinal o que diz a lei? Trump estará certo quando afirma que os conflitos de interesses não se aplicam ao presidente e quando diz que nada o impediria de gerir os negócios e ao mesmo tempo o país? A doutrina divide-se. "Tecnicamente falando, Trump tem razão", escreve a Vanity Fair. "Está errado. Num dia normal o melhor que se consegue de Trump é uma meia-verdade", diz à The Atlantic Norman Eisen, ex-chefe do gabinete de ética da Casa Branca entre 2009 e 2011.

Escreve o The Washington Post que não é verdade que a lei o isente de potenciais conflitos de interesses, mas de facto existe uma norma do Congresso que estabelece uma exceção para o presidente e para o vice-presidente. Isto porque "a presidência tem tanto poder que qualquer decisão executiva pode sempre representar um potencial conflito", explica o jornal, e isso deixaria em muitos casos o responsável máximo do país de mãos atadas.

Mas existe também, na Constituição, a Cláusula dos Emolumentos Estrangeiros, que impede o presidente de aceitar qualquer presente, oferta ou favorecimento vindos do exterior. Tendo em conta a miríade de interesses de Trump nos mais diversos países, nomeadamente em áreas quentes, como o Médio Oriente, a atuação do futuro presidente estará constantemente a testar as fronteiras da lei.

Ainda que para já não passe de uma hipótese, é possível que os resultados eleitorais venham a ser contestados. Vários especialistas informáticos de referência acreditam que o número total de votos no Wisconsin, no Michigan e na Pensilvânia pode ter sido manipulado por hackers e aconselharam a equipa de Clinton a agir. Estes três estados, nos quais Hillary perdeu por margens muito curtas, representam, no total, 46 grandes eleitores. Se trocassem de mãos seriam suficientes para que Donald Trump fosse derrotado.

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