Trump dispara para todo o lado

Dois países com um programa nuclear; o mais populoso do mundo e visto como o grande rival; e um território falido e destruído à espera de ajuda. Em peso variável, Donald Trump e a sua equipa dedicaram-se nos últimos dias a Teerão e Pyongyang, Pequim e San Juan. Segundo os críticos, como tática para distrair das investigações a que está sujeito e aos impasses em que se encontram as reformas prometidas. Mas quem dispara também se expõe a ser tomado como alvo, no caso por parte de um aliado com uma retórica ainda mais agressiva do que a sua, Ancara.

Destruir em minutos esforço de anos

O acordo assinado em 2015 entre as potências com assento no Conselho de Segurança das Nações Unidas, a Alemanha, a União Europeia e o Irão, no sentido de este último ter um programa nuclear vigiado em troca do levantamento de sanções, foi execrado na sexta-feira pelo 45.º presidente norte-americano. "Um dos piores acordos de sempre em que os EUA entraram", lamentou. E porquê? Porque, segundo Trump, o regime de Teerão "violou várias vezes" o acordo (a Agência Internacional de Energia Atómica, que supervisiona o acordo, nega esta afirmação) e aproveitou-se da quantia de cem mil milhões de dólares "para financiar o terrorismo" (essa quantia pertence ao Irão e estava bloqueada pelas sanções; porém, por causa de dívidas e outros pendentes, ao Irão terá chegado entre 35 e 60 mil milhões). Aplaudido pelo figadal inimigo do Irão, a Arábia Saudita, e por Israel, mas criticado pelo resto do mundo, Trump quer impor sanções aos Guardas da Revolução e repor sanções ao país de Hassan Rouhani , através do Congresso. E ameaça, a qualquer momento, sair do acordo.

Previsão de tempestade sobre Kim Jong-un

Se uma guerra se medisse em palavras, há muito estariam em conflito aberto. Em setembro, Donald Trump disse que o seu país iria "destruir" o país asiático caso o regime de Kim Jong-un ameace Washington ou algum aliado seu. O que levou o ministro dos Negócios Estrangeiros de Pyongyang a concluir que Trump tinha "declarado guerra" e, como tal, reservava o direito de abater bombardeiros dos EUA, mesmo fora do seu espaço aéreo. Volvido um mês, bombardeiros estratégicos estiveram envolvidos em exercícios militares com aviões de caça sul-coreanos e japoneses e o porta-aviões Ronald Reagan com navios da Marinha japonesa, a sudoeste da península da Coreia. O regime lançou dois mísseis sobre o Japão e realizou o sexto teste nuclear nas últimas semanas. Além disso, foi revelado na quarta-feira que 235 gigabytes de documentos militares foram roubados por hackers da Coreia do Norte a Seul, os quais incluíam planos de guerra e para acabar com a liderança norte-coreana. "Calmo antes da tempestade", disse Trump sobre a dor de cabeça chamada Coreia do Norte.

Conter Pequim pelo mar e através de Taiwan

Foi um saco de pancada do candidato Trump no que respeita às trocas comerciais e à necessidade de se produzir made in US em detrimento da potência asiática. Depois, recém-chegado à Casa Branca, falou ao telefone com a líder de Taiwan, Tsai Ing-wen: um incidente diplomático que levou o presidente norte-americano a ter de esclarecer que não punha em causa a política de China única. Statu quo mantido e em junho os norte-americanos anunciam um acordo milionário de venda de armas a Taipé e promessas de reforço na cooperação estratégica que incluem a hipótese de aportar na ilha Formosa com navios da Sétima Frota. Na semana passada, nova irritação para o país de Xi Jinping: o contratorpedeiro norte-americano Chafee passou ao largo de ilhas reclamadas por Pequim no mar do Sul da China. Uma ação que tem sido repetida por Washington desde que Trump chegou ao poder - uma afirmação de força em contraponto às pretensões territoriais e marítimas chinesas que chocam com a dos Estados Unidos, mas também com as de Vietname, Filipinas, Malásia, Taiwan e Brunei.

Silêncio face às críticas do aliado turco

O presidente norte-americano encontrou no homólogo turco alguém que tem sido uma espécie de Trump para com Trump: Recep Tayyip Erdogan ameaça, vocifera, critica. Do lado da Casa Branca, silêncio. O mais recente capítulo começou com a detenção de um funcionário do consulado norte-americano em Istambul. Os serviços diplomáticos, alegando motivos de segurança, suspenderam a emissão de vistos na Turquia. "Quem causou isto foi o embaixador. É inaceitável os EUA sacrificarem um parceiro estratégico devido a um embaixador que não sabe qual é o seu lugar", acusou Erdogan. O homem que lidera a Turquia há 14 anos acusou os EUA de manterem espiões do clérigo Fethullah Gülen nos consulados. Gülen, exilado na Pensilvânia, é acusado de instigar a tentativa de golpe do ano passado. Erdogan aproveitou ainda para criticar a emissão de mandados de captura de 15 elementos da sua segurança - em maio, durante a visita do líder turco a Washington, aqueles funcionários carregaram sobre manifestantes -, bem como a detenção de um ex-administrador do banco público Halkbank.

Furacão revela mal-estar com Estado associado

Como Estado livre associado dos EUA, os cidadãos de Porto Rico têm nacionalidade norte-americana, mas não gozam de todos os direitos. Não podem, por exemplo, eleger o presidente nem representantes no Congresso, apenas na Câmara dos Representantes. Com o Estado submerso numa crise que culminou, em maio, com a declaração de falência, devido a uma dívida pública superior a 70 mil milhões de dólares, o furacão Maria deixou um rasto de destruição (e pelo menos 45 mortos) tal que, passadas mais de três semanas, a eletricidade ainda é para uma minoria dos 3,4 milhões de habitantes e a água potável não chega a 35% dos porto-riquenhos. Trump não se coibiu de criticar dirigentes locais, como a presidente da câmara da capital, San Juan, acusando Carmen Yulín Cruz de "pobre liderança". Na quinta-feira, advertiu Porto Rico de que a ajuda da agência federal de gestão de emergências (FEMA), do exército e dos socorristas "não pode continuar para sempre" e comentou que "a eletricidade e todas as infraestruturas já eram um desastre antes do furacão".

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