Trump condena finalmente "neonazis, supremacistas brancos e KKK" depois de Charlottesville

"O racismo é mau", disse o presidente. "Os KKK, os neo-nazis, supremacistas brancos e outros grupos de ódios são repugnantes"

O presidente dos Estados Unidos condenou esta segunda-feira os supremacistas brancos, após protestos em Charlottesville terem provocado a morte de três pessoas. Donald Trump tem sido criticado nos últimos dias, tanto por democratas como por republicanos, por não ter condenado especificamente a extrema-direita pelos incidentes no estado da Virgínia.

"O racismo é mau e aqueles que provocam a violência em seu nome são criminosos e rufias, incluindo os KKK, os neo-nazis, supremacistas brancos e outros grupos de ódios são repugnantes para tudo o que temos como querido como americanos", disse Donald Trump. Foi a primeira vez que o presidente mencionou claramente grupos de supremacia branca nas críticas, após ter dito que os incidentes em Charlottesville foram provocados por "muitos lados, muitos lados".

"Condenamos na medida mais forte possível esta escandalosa demonstração de ódio, intolerância e violência. Não há lugar para isto na América", disse o presidente.

"Como disse muitas vezes antes, não importa a cor da nossa pele, todos vivemos sob as mesmas leis, todos saudamos a mesma fantástica bandeira e fomos todos feitos pelo mesmo Deus todo poderoso", afirmou Trump.

"Para qualquer um que agiu criminalmente na violência racista deste fim de semana, serás totalmente responsabilizado", avisou o presidente. Trump informou que o departamento de justiça norte-americano abriu uma investigação ao "ataque mortal com um carro que matou uma americana inocente". "Será feita justiça", continuou.

"Aqueles que espalham violência em nome da intolerância atacam o centro da América", continuou o presidente, segundo a CNN.

Durante o fim de semana, três pessoas morreram e 19 ficaram feridas numa manifestação organizada por extremistas brancos em Charlottesville, Virgínia. No Twitter, Trump condenou no sábado "tudo o que representa o ódio", acrescentando que "não há lugar para este tipo de violência nos Estados Unidos". Contudo, disse também aos jornalistas que os incidentes foram "demonstração chocante de ódio, fanatismo e violência de muitos lados, de muitos lados".

Segundo o editorial do New York Times, no site de extrema-direita The Daily Stormer foi publicado durante um fim de semana um texto a elogiar a atitude de Trump. "Ele [Trump] não nos atacou. Não nos condenou de forma alguma. Quando foi pedido para nos condenar, ele apenas saiu da sala. Muito, muito bom", lia-se no The Daily Stormer. "Deus o abençoe".

O senador republicano Cory Gardner disse no Twitter que "temos de dar nome ao mal", que os culpados foram os "supremacistas brancos" e que este foi um caso de "terrorismo doméstico". O congressista democrata Adam Schiff afirmou que o presidente precisava de se manifestar "contra a venenosa ressurgência da supremacia branca. Não há 'muitos lados' aqui, só certo e errado".

Donald Trump "demorou 48 horas" a condenar os neo-nazis, disse o ativista Al Sharpton esta segunda-feira, segundo a Reuters. "Foi obviamente um comunicado baseado na pressão que tem sofrido ao longo do fim de semana".
"Gostava que ele [Trump] tivesse dito estas mesmas palavras no sábado. Estou desapontado por ter demorados dois dias", comentou Mark Warner, senador democrata da Virginia.

A Casa Branca afirmou no domingo que Donald Trump incluiu "supremacistas brancos, KKK [Ku Klux Klan], neo-nazis e todos os grupos extremistas" quando criticou a "violência, intolerância e o ódio".

Os incidentes ocorreram na sequência de uma marcha do movimento de supremacia branca que foi convocada para contestar a decisão de Charlottesville de remover a estátua do general Robert E. Lee de um parque no centro da cidade. Robert E. Lee é considerado atualmente um símbolo da defesa da escravatura e do racismo.

As autoridades locais consideraram o protesto ilegal e o governador da Virginia decidiu declarar o estado de emergência, mas milhares de pessoas convergiram para o centro de Charlottesville, a cerca de 160 quilómetros de Washington.

Pouco depois dos confrontos, um condutor -- que tinha participado na manifestação de extrema-direita - atropelou de forma intencional um grupo de contra manifestantes, matando uma mulher de 32 anos e ferindo outras 19 pessoas.

James Fields, de 20 anos e oriundo do Estado do Ohio, seria detido e acusado de vários crimes, incluindo de homicídio em segundo grau.

Os outros dois mortos foram o piloto e o passageiro de um helicóptero que se despenhou nos arredores de Charlottesville, disse o governador do estado, Terry McAuliffe. A polícia ligou o acidente com o helicóptero com a manifestação de extrema-direita.

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