Theresa May nomeia trio de 'brexiters' para negociar saída da UE

Primeira-ministra britânica, que hoje viaja até à Escócia, foi implacável na hora da remodelação governamental

You brexit, you fix it. Vocês quiseram o brexit, agora resolvam-no. Este pode ser o lema da nova primeira-ministra britânica, Theresa May, que entregou as negociações para a saída do Reino Unido da União Europeia (UE) a três ministros brexiters: David Davis, Liam Fox e o polémico Boris Johnson. Ao contrário do que os parceiros europeus pediram, May já disse ao presidente da Comissão Europeia, Jean Claude--Juncker, que Londres "precisa de tempo para preparar as negociações" antes de acionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa e lançar oficialmente o processo.

Essas negociações ficarão a cabo do eurocético David Davis, ministro para a Saída da União Europeia, que nos anos 1990, num período entre os tratados de Maastricht e Amesterdão, foi secretário de Estado para a Europa e ficou conhecido como monsieur non ("senhor não"). A decisão de May de colocar Davis à frente das negociações do brexit surge apesar de ele manter (num tribunal europeu) uma ação contra o governo por causa da lei de vigilância, que a agora primeira-ministra redigiu quando estava no Interior.

Sobre o brexit, Davis escreveu esta semana num site conservador que "o resultado ideal" é manter o acesso ao mercado livre. "Quando os países europeus perceberem que não vamos desistir do controlo das nossas fronteiras, vão querer falar, é do seu interesse." Em relação a prazos, defendeu acionar o artigo 50 "antes ou no início do próximo ano". Ao seu lado para o ajudar estará Liam Fox, outro fervoroso defensor do brexit, que assume a nova pasta para o Comércio Internacional apesar de ter concorrido à liderança dos tories contra May. Será ele o responsável por negociar os novos acordos comerciais.

Estas duas novas pastas retiram importância à da diplomacia, que ficará a cargo do ex-mayor de Londres, Boris Johnson, conhecido pelas gafes. Uma vez disse, por exemplo, que a candidata democrata à Casa Branca, Hillary Clinton, tinha cara de "enfermeira sádica num hospital psiquiátrico" e também escreveu, num poema, que o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, tem "fama de grande masturbador".

O chefe da diplomacia francês, Jean-Marc Ayrault, acusou ontem Johnson de "mentir" na campanha para o referendo, dizendo que agora ele fica "encostado à parede". E o homólogo alemão, Frank-Walter Steinmeier, antes de saber que seria ele o chefe da diplomacia britânico apelidou de "irresponsáveis" os políticos que levaram o país ao brexit.

Numa curta declaração, Johnson afirmou ontem ter recebido uma "simpática carta" de Ayrault, onde este dizia que estava desejoso de trabalhar com ele. Mas acrescentou: "Depois de um voto como o do referendo, é inevitável que caia algum reboco dos tetos dos ministérios dos Negócios Estrangeiros europeus. Não era o resultado que estavam à espera. Claramente, estão a dar a conhecer os seus pontos de vista de uma forma franca e livre." Em relação ao cargo, Johnson defendeu que o Reino Unido pode ter um ainda maior papel na Europa. "Há uma enorme diferença entre sair da UE e as nossas relações com a Europa, que acho que até vão ser intensificadas", disse, defendendo "um perfil global maior para o Reino Unido".

Entretanto, o novo ministro das Finanças, Philip Hammond, defendeu que é necessário restaurar a confiança na economia depois do brexit, sugerindo uma abordagem menos radical na redução do défice fiscal que o seu antecessor, George Osborne. "É óbvio que temos de reduzir mais o défice fiscal, mas o como, o quando e a que ritmo, e de que forma medimos o nosso progresso ao faze-lo é algo que temos de considerar tendo em conta as novas circunstâncias da economia", afirmou ontem à BBC.

Remodelação radical

May concluiu ontem a remodelação governamental, marcada pela saída dos principais aliados de Cameron. Além de Osborne, a grande vítima foi o ministro da Justiça, Michael Gove, que concorreu à liderança dos tories e acabou com o sonho de Boris Johnson. Para o seu lugar vai Liz Truss (a primeira mulher a ocupar o cargo), e, apesar dos rumores de que o governo seria mais equilibrado, só sete em 24 ministros são do sexo feminino.

Ex-adversária de May, Andrea Leadsom passa da Energia para o Ambiente e Assuntos Rurais. Um "presente envenenado" para outra brexiter: será ela que terá de lidar com os agricultores britânicos, que com a saída do país da UE vão perder milhões em subsídios.

Na agenda de Theresa May está hoje uma viagem até Edimburgo, onde se reunirá com a primeira--ministra escocesa, Nicola Sturgeon. Em cima da mesa, o brexit e o seu impacto na Escócia, onde 62% dos eleitores votaram para ficar na UE.

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