Terrorismo. Autores tinham filha bebé e bombas caseiras

FBI admite que o tiroteio que fez 14 mortos tenha sido um ataque terrorista. Assaltantes eram muçulmanos e deixam filha de seis meses

À medida que se vão conhecendo os contornos do pior massacre nos Estados Unidos desde o ataque à escola Sandy Hook, em 2012, o mistério adensa-se e ninguém põe de parte qualquer explicação. O presidente Barack Obama, que falou a partir da Sala Oval na manhã de ontem, disse que não é possível excluir que o massacre de 14 pessoas num centro de serviços sociais em San Bernardino, Califórnia, tenha sido um ataque terrorista - depois de o chefe da polícia Jarrod Burguan ter dito na quarta-feira que se tratava de um ato de "terrorismo doméstico."

"Neste momento não sabemos ainda a razão por que é que este terrível evento aconteceu. É possível que esteja relacionado com terrorismo, mas não sabemos. Também é possível que esteja relacionado com violência no trabalho", disse Obama, visivelmente abatido.

O massacre ocorreu por volta das onze da manhã de quarta-feira, quando Syed Rizwan Farook e a mulher, Tashfeen Malik, entraram num auditório do Inland Regional Center e abriram fogo sobre os presentes, matando 14 pessoas e ferindo 21. Mais de 300 agentes de várias forças responderam ao alerta. Os atacantes, ambos muçulmanos, foram intercetados várias horas depois, quando seguiam num Ford Expedition preto, e morreram durante a troca de tiros.

Uma hora depois da intervenção de Obama, o diretor assistente do FBI David Bowdich falou na primeira conferência de imprensa do dia com muita cautela. "É prematuro definir isto como terrorismo." No entanto, as peças do puzzle apontam cada vez mais nesse sentido e há fontes anónimas do FBI a confirmar que Syed Rizwan Farook mantinha contactos telefónicos e via redes sociais com suspeitos de terrorismo. As quatro armas usadas - duas pistolas de 9 milímetros e duas espingardas semiautomáticas AR-15 de .223 - foram compradas de forma legal. A presença de explosivos (bombas-tubo) no local ligados a carrinhos com controlo remoto, que falharam quando foram acionados, e o equipamento usado pelos atacantes demonstram que este foi um assalto premeditado.

Casal tinha bebé de seis meses

Os autores do tiroteio eram casados e tinham uma filha de 6 meses. Ele, Syed Rizwan Farook, de 28 anos, era cidadão norte-americano e trabalhava no departamento de saúde do condado de San Bernardino como especialista ambiental, há cinco anos. A festa que decorria no auditório onde o tiroteio ocorreu era um almoço de Natal deste departamento. Ela, Tashfeen Malik, era uma paquistanesa de 27 anos que entrou nos Estados Unidos em julho de 2014 sob o visto K-1, atribuído a estrangeiros que pretendem casar-se com cidadãos norte-americanos. A bebé de 6 meses foi deixada com a avó de Farook, segundo a qual o casal tinha até uma consulta no médico nesta semana.

Os dois ter-se-ão conhecido online e casaram-se já nos Estados Unidos, depois de uma viagem à Arábia Saudita - o FBI não tem, para já, informações sobre outras paragens onde possam ter estado. O casal foi descoberto e intercetado pelas autoridades no Ford Expedition alugado após a denúncia de um sobrevivente, que contou à polícia que Farook esteve na festa com um comportamento estranho e desapareceu de repente.

O que está por explicar é o motivo por que ambos se mantinham nas redondezas e a bordo do veículo que já estava identificado nos alertas. A perseguição que se seguiu, com ajuda de helicópteros e veículos militares, resultou numa troca de tiros já perto do aeroporto de San Bernardino. Farook e Malik morreram cobertos de balas.

É possível que ambos pretendessem executar mais ataques. Traziam consigo grandes quantidades de munições (1400 balas .223 e 200 para as pistolas de 9mm) e no apartamento, arrendado em seu nome, a polícia descobriu 12 bombas-tubo, ferramentas e dezenas de milhares de munições de vários calibres. A presença de Malik no ataque é também considerada invulgar: menos de 5% de todos os tiroteios em massa são praticados por mulheres, e esta tinha sido mãe recentemente.

Polémica na ala republicana

Vários candidatos presidenciais republicanos expressaram as suas condolências e disseram que os seus "pensamentos e orações" estavam com as vítimas, o que desencadeou uma forte reação contra nas redes sociais: a ala republicana é uma força de bloqueio na aprovação de legislação mais restritiva para a venda de armas. Obama também tocou no tema: "Temos de garantir que, quando indivíduos decidem que querem fazer o mal, é mais difícil consegui-lo. Porque neste momento é demasiado fácil." O acesso às armas é considerado um direito, consagrado na Segunda Emenda.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG