Terror regressa com ataques em Berlim, Ancara e Zurique

Tensão por causa de conflito na Síria e medo na Europa intensificam-se após dia sangrento na Alemanha, na Turquia e na Suíça.

O terror regressou ontem à Europa, com ataques em Berlim, Ancara e Zurique que, ao todo, fizeram pelo menos dez mortos e 53 feridos. Na capital alemã o atropelamento com um camião num mercado de Natal é tratado como atentado terrorista, tendo havido outros no passado reivindicados pelo Estado Islâmico. Na capital turca um polícia assassinou a tiro o embaixador russo, como vingança pelo apoio de Moscovo ao regime de Assad na Síria. Na cidade que é o centro financeiro da Suíça está ainda por esclarecer a motivação do ataque contra uma mesquita islâmica.

Ao final da tarde de ontem, os líderes dos dois países, Vladimir Putin e Recep Tayyip Erdogan, conversaram por telefone para partilharem informações. Ambos disseram depois exatamente a mesma coisa: o homicídio de Karlov foi uma provocação para tentar minar as relações entre Moscovo e Ancara.

Morte em Berlim

Um camião subiu ontem os passeios numa das áreas mais movimentadas de Berlim, atropelando mortalmente 12 pessoas e deixando feridas outras 48, algumas delas com gravidade. O ataque ocorreu ao início da noite no largo onde se situa o Memorial ao Rei Guilherme, também conhecido como a igreja do "dente partido" - deliberadamente deixada em ruínas no final da II Guerra Mundial para lembrar aos alemães a violência do conflito -, sendo considerado uma ação terrorista pela polícia alemã. No local eram visíveis dezenas de ambulâncias, veículos dos bombeiros e um forte dispositivo de segurança. Segundo uma testemunha ocular, Emma Rushton, citada pela CNN, o veículo, de cor escura, seguiria a cerca de 40 km/hora quando galgou os passeios, abalroando bancas de madeira, destruindo caixotes, enquanto atropelava pessoas que procuravam fugir, acabando por se deter perto da igreja do "dente partido". Impossibilitado de prosseguir, o condutor deixou o veículo, dirigindo-se para o jardim zoológico, que se situa nas proximidades, acabando por ser detido durante a fuga. O veículo apresentava matrícula polaca e seria propriedade de uma empresa sediada em Danzig. No interior, segundo a polícia, estava o corpo sem vida de um homem, que se presume ser o motorista.

Este mercado de Natal, segundo a página do município local, é um dos maiores na cidade, com cerca de cem bancas e 70 carrosséis. Nesta altura do ano estão a funcionar cerca de 12 destes mercados

A chanceler Angela Merkel convocou o ministro do Interior e expressou pesar pelas mortes ocorridas, declarando "estar de luto". As autoridades pediram aos residentes da capital alemã para não saírem às ruas, temendo outros atos terroristas.

O sucedido ontem em Berlim trouxe de imediato à memória o ataque de 14 de julho em Nice, na França, quando um camião de maior porte do que o empregue ontem na capital alemã atropelou as pessoas que assistiam às celebrações do Dia Nacional, matando 86. Um ataque que foi reivindicado pelo Estado Islâmico.

Mas o ataque de Berlim não é o segundo caso de operações com recurso a veículos. Em dezembro de 2014, dois dias antes do Natal, nas cidades francesas de Nantes e Dijon, sucederam dois casos semelhantes, com os condutores de pequenos comerciais a tentarem atropelar mortalmente transeuntes. Em ambos os casos registaram-se apenas feridos, com um dos condutores a tentar suicidar-se em seguida, mas sem sucesso.

Outro caso, este de consequências fatais, ocorrera no ano anterior, a 22 de maio. Dois britânicos de origem nigeriana, Michael Adebolajo e Michael Adebowale, atropelaram o soldado Lee Rigby, acabando por matá-lo a golpes de arma branca.

Na Alemanha sucederam dois casos de ataques, atribuídos ou reivindicados pelo Estado Islâmico. Outros dois atribuídos a islamitas auto-radicalizados. A 16 de outubro, um casal de adolescentes foi atacado com arma branca em Hamburgo, acabando por morrer o jovem. O atacante pôs-se em fuga. Antes, a 27 de agosto, em Oberhausen, no Ruhr, um casal é morto por um indivíduo aos gritos de "Alá é grande". A 24 de julho, um sírio faz explodir um engenho artesanal junto de um bar em Ansabach, na Baviera, e, ainda em julho, a 18, um "refugiado" agride com um machado os passageiros numa carruagem de um comboio suburbano, em Wuerzburgo, também na Baviera.

Embaixador abatido

Ontem, por volta das 16.00 em Lisboa (19.00 em Ancara), chegou a notícia de que o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, tinha sido alvejado numa galeria de arte na capital turca. O diplomata ainda chegou a ser transportado para o hospital, mas já sem vida.

Um vídeo mostra o atirador, identificado como Mevlüt Mert Altintas, a gritar em turco: "Não se esqueçam de Aleppo, não se esqueçam da Síria. A menos que as nossas cidades estejam seguras, vocês não estarão em segurança. Todos os envolvidos neste sofrimento irão pagar um preço." O atacante terá ainda acrescentado em árabe: "Somos aqueles que juraram fidelidade a Maomé para fazer a jihad."

O jovem turco de 22 anos servia há dois anos e meio como polícia numa unidade de operações especiais e foi "neutralizado" pelas forças de segurança que cercaram o edifício. A CNN turca revelou que os familiares de Altintas foram presos em Aydin, terra natal do atirador.

Andrei Karlov estava presente na galeria para a inauguração de uma exposição de arte contemporânea. Durante o discurso que proferia foi alvejado oito vezes pelas costas. Conta o The Guardian que o embaixador tinha estado envolvido nas negociações entre Moscovo e Ancara que conduziram ao cessar-fogo na Síria. Era um diplomata de carreira que já tinha servido como embaixador na Coreia do Norte e que estava colocado em Ancara desde 2013.

Num momento em que Rússia (fiel a Assad) e Turquia (que se opõe ao presidente sírio) lideram o processo negocial sobre o conflito, ainda não é claro quais poderão ser as consequências deste ataque. "Para a Rússia a Turquia é responsável por não ter sido capaz de garantir a segurança do embaixador. Isto vai obrigar Erdogan a esforçar-se para agradar à Rússia e ir atrás dos islamitas", defende ao DN Fabrice Balanche, especialista em Médio Oriente, diretor de investigação na Universidade de Lyon 2 e professor convidado no The Washington Institute.

Desde o início da guerra na Síria, este não é o primeiro incidente que faz perigar as relações entre Moscovo e Ancara. Em novembro de 2015, um caça russo foi abatido pelos militares turcos por violação do espaço aéreo. O sucedido motivou várias sanções económicas impostas pela Rússia e as relações só foram normalizadas em junho, depois de um pedido de desculpas de Erdogan. Ontem, após a conversa com Putin, Erdogan garantiu que depois do atentado a cooperação e a solidariedade entre os dois países será ainda mais forte.

No complexo xadrez de alianças e inimizades no conflito sírio, apesar de estarem em barricadas opostas no que diz respeito a Assad, os dois países partilham o objetivo de derrotar o Estado Islâmico. Erdogan pretende também conter os ganhos territoriais das forças curdas.

Para hoje, em Moscovo, está marcado um encontro entre os ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa da Rússia, do Irão e da Turquia. Os dois primeiros são os principais aliados de Bashar al-Assad. Ao contrário dos turcos, que se opõem ao regime do presidente sírio.

Com a morte do embaixador, chegou a temer-se que a reunião não tivesse lugar, mas os planos não foram alterados. "Servirá para perceber os pontos de vista dos três lados, entender onde estamos e ver para onde podemos ir a partir daqui. Não será uma reunião-milagre, mas dará aos vários lados uma oportunidade para se escutarem um aos outros", disse, citado pelas agências internacionais, um porta-voz de Mevlüt Cavusoglu, chefe da diplomacia turca.

ONU unânime

Ontem o Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou por unanimidade uma resolução pedindo que oficiais da ONU sejam autorizados a monitorizar as evacuações de Aleppo e a segurança dos civis que continuam na cidade. A aprovação aconteceu depois de uma longa noite de negociações durante a qual foi trabalhada a proposta inicialmente elaborada pela França - que a Rússia ameaçou vetar.

Apesar de ser a primeira vez que a Rússia não vetou desde que o conflito estalou, em março de 2011, a importância é relativa. "Não fará qualquer diferença. Nenhuma resolução da ONU poderá salvar a Síria." Este é o veredicto de Mitchell Belfer - presidente do Centro de Informação Europa-Golfo, com sede em Roma, e diretor do Central European Journal of International and Security Studies. O especialista, ouvido pelo DN, duvida mesmo de que a resolução venha a ser implementada: "Tudo dependerá do que se entende por monitorização. Não vejo que seja possível uma delegação com pessoal da ONU chegar a Aleppo para monitorizar de forma independente a evacuação e a segurança dos civis." No entender de Belfer, o mais provável é que o governo sírio defina zonas de segurança, permitindo aos oficiais da ONU colocar questões aos civis que se encontrarem dentro dessa zonas. "Não tenhamos ilusões. Assad vai assegurar-se de que os observadores ficam à distância e falam apenas com aqueles que forem previamente selecionados", acrescenta o especialista em Médio Oriente.

Opinião diferente tem Fabrice Balanche. Este analista não antecipa entraves à aplicação da resolução das Nações Unidas. "Uma missão humanitária visitou a zona leste de Aleppo nos dias 14 e 15 para fazer um levantamento das necessidades. A Rússia e o exército sírio não têm qualquer problema em deixar entrar os observadores, até porque quando chegarem as operações já estarão praticamente concluídas."

O objetivo da resolução, segundo François Delattre, embaixador francês na ONU, "é evitar uma repetição de Srebrenica" em 1995 [cidade na Bósnia onde foi cometido o pior massacre na Europa desde a II Guerra]. "É apenas uma forma de o Conselho de Segurança tentar mostrar que está a fazer alguma coisa em vez de ficar apenas a ver o que acontece", sentencia Belfer.

O embaixador da Síria na ONU, Bashar Ja"afari, disse que a resolução não passa de propaganda, uma vez que a evacuação dos rebeldes estava praticamente concluída.

Para Balanche, a única conclusão a retirar das entrelinhas da resolução é que "Assad e a Rússia ganharam". Isto porque o texto em nenhum momento acusa o governo sírio. "Os russos votaram a favor da resolução porque querem que os líderes ocidentais salvem a face. A conversa de Putin sobre negociações políticas e tréguas humanitárias é uma forma de aproximar-se do Ocidente deixando-lhe apenas uma escolha: parar de apoiar os opositores de Assad, até porque não irão ganhar a guerra", explica Balanche.

Ataque a mesquita

Um homem armado e totalmente vestido de preto entrou ontem numa mesquita islâmica em Zurique, ferindo com gravidade três indivíduos adultos. Pôs-se em fuga a seguir, tendo a polícia encontrado um corpo sem vida não muito distante do local do ataque. As autoridades helvéticas recusaram-se a fornecer quaisquer pormenores do sucedido, marcando para hoje uma conferência de imprensa para explicar os acontecimentos.

Exclusivos

Premium

Catarina Carvalho

Clima: mais um governo para pôr a cabeça na areia

Poderá o mundo comportar Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Erdogan na Turquia e Boris no Reino Unido? Sendo esta a semana do facto consumado do Brexit e coincidindo com a conferência do clima da ONU, vale a pena perguntarmos isto mesmo. E nem só por razões socioideológicas e políticas. Ou sobretudo não por estas razões. Por razões simples de simples sobrevivência do nosso planeta a que chamamos terra - porque é isso que é fundamentalmente: a nossa terra. Todos estes líderes são mais ou menos populistas, todos basearam as suas campanhas e posteriores eleições numa visão do mundo completamente conservadora - e, até, retrógrada - do ponto de vista ambiental. E embora isso seja facilmente explicável pelas razões que os levaram à popularidade, é uma das facetas mais perigosas da sua chegada ao poder. Vem tudo no mesmo sentido: a proteção de quem se sente frágil, num mundo irreconhecível, em acelerada e complexa mudança, tempos de um paradigma digital que liberta tarefas braçais, em que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens, em que os jovens podem saber mais do que os mais velhos... e em que nem na meteorologia podemos confiar.

Premium

Pedro Lains

Boris Johnson e a pergunta do momento

Afinal, ao contrário do que esperava, a estratégia do Brexit compensou, isto é, os resultados das eleições desta semana deram uma confortável maioria parlamentar ao homem que prometeu a saída do Reino Unido da União Europeia. A dimensão da vitória põe de lado explicações baseadas na manipulação das redes sociais, da imprensa ou do eleitorado. E também põe de lado explicações que colocam o desfecho como a vitória de uma parte do país contra outras, como se constata da observação do mapa dos resultados eleitorais. Também não se pode usar o argumento de que a vitória dependeu de um melhor uso das redes sociais, pois esse uso estava ao alcance de todos e se o Partido Trabalhista não o fez só ele pode ser responsabilizado. O Partido Conservador foi mais profícuo em mentiras declaradas, mas o Partido Trabalhista prometeu coisas a mais, o que é diferente eticamente, mas não do ponto de vista da política eleitoral. A exceção, importante, mas sempre exceção, dada a dimensão relativa da região, foi a Escócia, onde Boris Johnson não entrou. Mas a verdade é que o Partido Conservador conseguiu importantes vitórias em muitos círculos tradicionalmente trabalhistas. Era nessas áreas que o Manifesto de esquerda tradicional teria mais hipóteses de ganhar, pois são as áreas mais afetadas pela austeridade dos últimos nove anos. Mas tudo saiu ao contrário. Porquê?

Premium

Adolfo Mesquita Nunes

É o que dá prometer nacionalizar tudo o que mexe

A chegada de Jeremy Corbyn à liderança do Partido Trabalhista foi saudada como uma espécie de feliz regresso às origens, aos ideais fundacionais, à verdadeira esquerda. Tanto mais que essa vitória se fez contra as principais figuras do partido, enfrentando o chamado sistema, amparado num discurso profundamente desconfiado da economia de mercado e próximo de experiências socialistas ou comunistas. Nessa narrativa, que se popularizou, Blair representava o abastardamento desses ideais, uma espécie de esquerda vendida, incapaz de resistir aos vis interesses do capitalismo. Já Corbyn, claro, representava a esquerda autêntica, a preocupada com os mais vulneráveis, e por isso capaz de mobilizar toda aquela jovem militância que transvasava para o partido vinda das redes sociais. E à medida que Corbyn foi resistindo aos ataques do chamado baronato do partido, e não o levando ao colapso eleitoral que os barões afiançavam, a narrativa foi ganhando adeptos na opinião publicada e nas redes sociais politizadas, como que confirmando a ideia de que o centro moderado estava morto, enterrado, que o velho socialismo era o novo socialismo, o único capaz de mobilizar a juventude e as massas, o exemplo a seguir. Diga-se que esta ideia de moderação morta e enterrada não se quedou pelos trabalhistas ingleses nem sequer pela esquerda inglesa. Vários partidos socialistas europeus andam com entusiasmos ou ânimos semelhantes (França, Espanha e Portugal são exemplos), como à direita anda muita gente a defender o mesmo (Espanha e Portugal são exemplos também). Mas eis que o colapso eleitoral chegou, e com estrondo. Um resultado ainda pior do que o sofrido por Foot e Kninock, perdendo bastiões que eram seus há décadas. É o que dá defender nacionalizações de tudo e mais alguma coisa e propor um manifesto próprio da esquerda sul-americana. É o que dá confundir indignação com razão, radicalismo com determinação, emoção com inspiração, tudo embalado pelas redes sociais politizadas, dominadas por elites urbanas deslocadas das principais preocupações das pessoas. Mas se o centro não morreu, se a moderação está viva e de boa saúde, como explicar que Boris Johnson, tomado por cá como uma espécie de Trump, como uma direita pouco moderada, tenha tido uma vitória esmagadora? Convém ir além da forma e do estilo e conhecer não só o trajeto executivo de Boris na Câmara de Londres como também o seu manifesto para estas eleições. Conhecendo-o, vejo poucas razões para a direita que desdenha a moderação andar a celebrar esta vitória. Boris funda o seu manifesto numa adesão à economia de mercado e à democracia liberal pouco compatível com os críticos da globalização e da livre circulação, e exalta um cosmopolitismo e um liberalismo social que costumam arrepiar quem acha que isso é marxismo cultural.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Contas certas com prioridades certas

Cada vez mais, ouvimos dizer que o vínculo entre os cidadãos e a vida política é, hoje em dia, menos pleno do que antes. Rui Rio, esta semana, falou até de um "divórcio entre a sociedade e os partidos". Percebe-se o recurso a esta metáfora por parte do PSD, devido ao seu clima interno de discórdia. No entanto, constatar o afastamento não basta e não nos isenta. Há também que refletir sobre o conceito de "democracia de proximidade" de que tanto falamos e do que isso significa. O que é - de facto - uma democracia de proximidade? Em primeiro lugar, é a democracia próxima dos problemas e anseios dos cidadãos. Basta olhar para a esfera pública para perceber que se exige cada vez mais à democracia que seja capaz de resolver problemas reais e estruturais.