Terminou a longa guerrilha de Afonso Dhlakama

Dirigiu a Renamo desde 1979, então em luta contra a Frelimo. Assinou o Acordo de Paz de 1992, que pôs fim a 16 anos de guerra civil. Acusou sempre o poder de fraude eleitoral

Afonso Dhlakama morreu nesta quinta-feira aos 65 anos nas matas da Gorongosa, morte que sucede num momento crucial das negociações que decorriam entre o líder da Renamo e o presidente Filipe Nyusi para o total desarmamento dos elementos do principal partido de oposição em Moçambique e sua integração nas forças armadas do país.

A Renamo confirmou a morte ao final do dia e anunciou que o corpo do seu líder será transferido sexta-feira para o hospital central da Beira. Um grupo de dirigentes do partido estava a caminho da Gorongosa.

A causa da morte terá sido resultado de uma crise de diabetes. Dhlakama, que liderava a Renamo desde 1979 (após a morte de André Matsangaissa, que fundara o movimento em 1977), negociava com o presidente moçambicano uma revisão da Constituição que permita a designação dos administradores de distrito pelos governadores das províncias, a serem eleitos nas eleições gerais de 2019. Esta questão assim como a completa desmobilização das forças da Renamo têm estado no centro das negociações entre os dois dirigentes.

O desaparecimento de Dhlakama a pouco mais de um ano das eleições vem colocar um sério desafio à Renamo, que teve sempre, nas cinco presidenciais realizadas em Moçambique desde o Acordo Geral de Paz, assinado em Roma, a 4 de outubro de 1992, o seu líder histórico como candidato e grande responsável pela estratégia do partido.

Dhlakama, desde a primeira votação em 1994, sempre contestou os resultados que, invariavelmente, deram a vitória ao candidato da Frelimo, no poder desde 1975, e a maioria a este partido. Nas presidenciais de outubro de 1994, tem 33,7 % dos votos; Joaquim Chissano ganhou com 53,3%. Nas legislativas, a Frelimo somou 44,3%, a Renamo 37,7. No ciclo eleitoral de 1999, Chissano obteve 52,2% e Dhlakama 47,7%. O padrão dos resultados ir-se-á repetindo até 2014, quando Nyusi teve 57% dos votos e Dhlakama 36,6%.

As sucessivas derrotas de Dhlakama e da Renamo, a que não foram alheias fraudes eleitorais, de acordo com a análise de observadores independentes, levaram o antigo guerrilheiro a endurecer o discurso. Após quase 16 anos de guerra civil (1977-1992) e a paz trazida pelo Acordo de Roma, em 2012, pela primeira vez Dhlakama deixou a capital, Maputo, com o argumento de que tinha a vida em perigo. Desde então e até 2017 viveu-se um conflito de baixa intensidade entre a Renamo e o governo, com o líder da antiga guerrilha em parte incerta, após as forças governamentais atacarem a base de Sadjundjira (Gorongosa) e o desalojarem em outubro de 2013.

Só em 2014 reapareceu em Maputo para a assinatura de um acordo de cessação de hostilidades, a 5 de setembro, com o presidente Armando Guebuza. Mas pouco depois das eleições de outubro do mesmo ano, deixou de novo a capital moçambicana, abrindo a crise político-militar mais séria desde 1992. Começou pouco depois um longo e acidentado processo negocial que só terminaria em 2017, com a assinatura de um acordo de cessar-fogo entre a Renamo e o poder político em Maputo.

"Parceiro estratégico"

Marcelo Rebelo de Sousa lamentou a morte do líder da Renamo numa mensagem enviada a Filipe Nyusi, destacando o relevo de Dhlakama como "interlocutor privilegiado nos caminhos do diálogo, da paz e da concórdia" em Moçambique. Neste país, a primeira reação veio da segunda maior força da oposição, o Movimento Democrático de Moçambique (MDM), com o seu líder e antigo dirigente da Renamo até 2009, Daviz Simango, a classificar o desaparecimento de Dhlakama como "uma grande tragédia nacional".

Posteriormente, a Frelimo, através do porta-voz Caifadine Manasse, citado pela Lusa, considerou que o líder da Renamo "era um parceiro estratégico" e "estava a percorrer um caminho para a paz". O mesmo porta-voz afirmou-se convicto de que a Renamo não deixará as negociações em curso e que irá trabalhar para a consolidação da paz e da estabilidade em Moçambique.

Afonso Macacho Marceta Dhlakama nasceu a 1 de janeiro de 1953 na localidade de Mangunde, numa família onde o pai era régulo - fator importante na política em África. Por causa do envolvimento desde jovem, primeiro, com a Frelimo, depois na guerrilha contra o regime de Maputo, Dhlakama não teve grande educação formal. No entanto, nunca desistiu de se cultivar e de receber formação, quer a partir da África do Sul quer de diferentes círculos europeus (entre os quais portugueses) e americanos que, a partir dos anos 80, vão apoiar a Renamo. Casado desde 1980, era pai de oito filhos.

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