Teerão deteve embaixador britânico numa vigília pelas vitimas do Boeing 737

"É uma violação flagrante da legislação internacional", reagiu o ministro dos Negócios Estrangeiros britânico. E o Irão retificou: "Ele não foi preso, mas detido como estrangeiro não identificado numa manifestação ilegal".

O vice-ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano confirmou, este domingo, que Teerão deteve brevemente o embaixador britânico, Rob Macaire, como estrangeiro suspeito de ter participado "numa manifestação ilegal". Foi libertado pouco depois de ter sido confirmada a sua identidade.

"Ele não foi preso, mas detido como estrangeiro não identificado numa manifestação ilegal", escreveu Abbas Araghchi, o vice-ministro, na rede social Twitter, precisando que Macaire foi libertado ao fim de um quarto de hora, depois de ter sido identificado.

O embaixador do Reino Unido no Irão, Rob Macaire, cuja detenção em Teerão foi denunciada por Londres, negou ter participado em qualquer manifestação contra as autoridades, como anunciaram vários media iranianos."Fui a um evento anunciado como uma vigília pelas vítimas da tragédia (do voo) #PS752" da Ukraine International Airlines, abatido na quarta-feira perto de Teerão, disse Macaire, adiantando que abandonou o local cinco minutos depois, quando algumas pessoas começaram a gritar palavras de ordem contra as autoridades iranianas.

É "normal querer prestar uma homenagem", escreveu Macaire, tendo em conta que "algumas vítimas eram britânicas". O anúncio da sua detenção foi feito sábado à noite, pelo ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Dominic Raab, que na altura não deu mais pormenores."A detenção do nosso embaixador em Teerão sem fundamento ou explicação é uma violação flagrante da legislação internacional", declarou Raab.

Também o chefe da diplomacia da União Europeia, Josep Borrell, criticou, este domingo, Teerão pela breve detenção no sábado do embaixador britânico no Irão e apelou à contenção, numa mensagem no Twitter. "Muito inquieto depois da detenção temporária do embaixador britânico no Irão. O respeito da Convenção de Viena é uma obrigação. A União Europeia apela para a contenção e para a abertura de um espaço para a diplomacia", adiantou Josep Borrell.

Protestos contra o regime iraniano

Teerão responsabilizou-se, este sábado, depois de ter negado várias vezes a tese de que o aparelho teria sido atingido por um míssil, pela catástrofe que levou à morte de 176 pessoas. O avião, um Boeing 737 da companhia aérea Ukrainian International Airlines, descolou de Teerão, com destino a Kiev, despenhando-se dois minutos após a descolagem nos arredores da capital iraniana. O acidente ocorreu horas depois do lançamento de 22 mísseis iranianos contra duas bases da coligação internacional liderada pelos Estados Unidos, em Ain Assad e Erbil, no Iraque, numa operação de vingança pela morte do general iraniano Qassem Soleimani. O aparelho transportava 167 passageiros e nove tripulantes de várias nacionalidades, incluindo 82 iranianos, 57 canadianos, 11 ucranianos, dez suecos, quatro afegãos, três alemães e três britânicos.

O Presidente do Irão afirmou que o país "lamentava profundamente" ter derrubado o avião civil ucraniano, mas o mea culpa inédito não bastou para calar a revolta interna e as críticas da comunidade internacional.

"Erro imperdoável", "erro humano", "profundo arrependimento" e pedidos de "desculpa" pela morte dos "inocentes" foram algumas das palavras usadas pelos líderes políticos, religiosos e militares do Irão depois de negarem durante três dias a responsabilidade no abate do avião. Numa atitude inédita, o líder supremo, aiatola Ali Khamenei, ordenou uma investigação ao corpo da Guarda Revolucionária, mas nem a vontade de assumir as responsabilidades, nem as promessas de que os culpados serão punidos chegaram para conter a revolta dos iranianos - que saíram para a rua em protesto - ou da comunidade internacional que exige justiça.

As forças de segurança do Irão estão em alerta especial, tendo sido reforçada a sua presença nas ruas da capital por se esperarem mais protestos contra o abate acidental pela Guarda Revolucionária do avião civil. A polícia de choque em uniforme e capacetes pretos está concentrada na Praça Vali-e Asr, na Universidade de Teerão e noutros pontos de referência, enquanto circulam apelos a protestos no final do dia. Donald Trump comentou a situação no Twitter: "Aos líderes do Irão - NÃO MATEM OS VOSSOS MANIFESTANTES".

Escalada de tensão entre iranianos e britânicos

A participação do embaixador britânico numa manifestação, apesar de este ter negado a intenção de protestar contra o Irão, foi interpretada como uma ofensa. Por isso, manifestantes pró-regime reuniram-se, este domingo, em frente à embaixada do Reino Unido, segundo o The Guardian, para pedir o encerramento da mesma.

Cerca de 200 pessoas gritaram: "Morte ao Reino Unido", "Morte aos Estados Unidos" e "Morte a Israel". Queimaram também uma bandeira do Reino Unido.

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