Tempelhof: ex-aeroporto dos nazis vai acolher refugiados em Berlim

Local foi escolhido porque instalações mais pequenas já não chegavam para abrigar refugiados.

Com a chegada do inverno e as temperaturas a cair - Berlim não passava ontem dos 10 graus -, a Alemanha luta para encontrar abrigo para os refugiados que continuam a chegar diariamente ao país. Esgotados os pavilhões desportivos, os hostels e os edifícios públicos vazios, as autoridades germânicas tiveram de recorrer a tendas, mas com o frio a apertar foi preciso encontrar alternativas. E foi assim que a Câmara de Berlim decidiu usar o antigo aeroporto de Tempelhof, remodelado pelos nazis e depois símbolo da Guerra Fria, para receber famílias de refugiados.

Construído em 1923 e mandado modernizar pelo regime nazi - entre 1936 e 1941-, Tempelhof exibe ainda a monumentalidade da arquitetura daquela época. Hitler queria fazer do aeroporto um símbolo da Germania, o nome que queria dar a uma Berlim transformada em capital do III Reich. Mas terminada a II Guerra Mundial, foi como símbolo da Guerra Fria que Tempelhof acabou por entrar para a história, ao receber os aviões que faziam a ponte aérea que permitia abastecer Berlim Ocidental durante o bloqueio dos soviéticos, em 1948-49. Reconhecível sobretudo pelo seu edifício central semicircular, o aeroporto acabou encerrado em 2008, por se considerar que não cumpre as exigências do transporte aéreo moderno e após o seu futuro ter sido decidido através de um referendo de iniciativa popular. Desde então tem sido usado como parque, com os praticantes de skate, patins em linha ou windskate. O local tem ainda sido usado para conferências, concertos ou festivais da cerveja.

Agora, as instalações encheram-se de militares que montaram tendas e carregaram camas para abrigar mil refugiados, na maioria sírios, que continuam a chegar à Alemanha todos os dias depois de um longo percurso através dos Balcãs e do Leste europeu. "Tempelhof teve de ser escolhido porque locais mais pequenos já não resolviam nada", explicou à Bloomberg Regina Kneiding, porta-voz do departamento de saúde da capital alemã. E acrescentou: "Todos os dias chegam a Berlim 700 novos refugiados, estamos no limite da nossa capacidade de acolhimento."

Todos os dias chegam a Berlim 700 novos refugiados, estamos no limite da nossa capacidade de acolhimento

O desafio de encontrar habitação para os refugiados está a tornar-se um dos principais desafios para o governo de Angela Merkel. A chanceler tem respondido com um forte wir schaffen das ("conseguimos fazer isto") aos mais céticos. A Alemanha espera receber este ano 800 mil a 1,5 milhões de refugiados.

Muros e mais muros

Depois de nos últimos dez dias ter recebido mais de 85 mil refugiados, a pequena Eslovénia ameaçou ontem construir uma barreira ao longo da sua fronteira com a Croácia caso o plano acordado pela União Europeia para resolver a crise migratória não seja implementado. Horas antes fora a Áustria a anunciar que tenciona construir uma vedação na principal fronteira usada pelos migrantes para entrarem no país a partir da Eslovénia. Uma medida que o chanceler austríaco, o social-democrata Werner Faymann, garantiu não ir encerrar a fronteira, mas sim permitir um maior controlo de quem chega.

No domingo, 11 Estados membros da UE acordaram a criação de mais cem mil lugares em centros de acolhimento europeu (metade para a Grécia) e o envio de 400 guardas fronteiriços para a Eslovénia dentro de uma semana. Mas perante a lentidão no apoio vindo de Bruxelas durante a crise dos refugiados, as autoridades de Liubliana decidiram seguir o exemplo da Hungria e criar a sua própria vedação para controlar as entradas no país. E até a Áustria, que com a Alemanha tem tido a atitude de maior abertura em relação aos migrantes, parece estar a endurecer o tom. Depois de Budapeste ter fechado a fronteira com a Sérvia e a Croácia, a construção de novas vedações viria encerrar quase por completo esta rota de chegada dos refugiados.

A ONU estima que desde o início do ano 700 mil migrantes atravessaram de barco para a Europa. Ontem, três embarcações naufragaram entre a Turquia e a Grécia.

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