Talibãs declaram primeiro cessar-fogo em 17 anos

Anúncio das tréguas de três dias surge depois de o presidente afegão ter também declarado um cessar-fogo temporário durante o fim do Ramadão,

Os talibãs anunciaram um cessar-fogo de três dias com as forças afegãs durante o final do Ramadão, o mês sagrado dos muçulmanos, num gesto inédito que abre esperança para eventuais negociações de paz com o governo afegão.

O anúncio inédito desde a invasão do Afeganistão, liderada pelos EUA em 2001, surge depois de o presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, ter declarado na quinta-feira um cessar-fogo unilateral contra os talibãs, excluindo do acordo ouros grupos militantes, como o Estado Islâmico.

Não é claro no anúncio dos talibãs quais serão os três dias do cessar-fogo (o fim do Ramadão é no dia 15 de junho, no calendário afegão), mas o grupo avisa que se irão defender em caso de ataque. Além disso, a trégua temporária não inclui as forças estrangeiras a atuar no Afeganistão, pelo que as operações contra estas irão continuar.

"Os membros dos talibãs não devem participar em reuniões públicas durante a festa do Eid al-Fitr [que marca o fim do Ramadão e começa no final da semana], porque o inimigo pode querer atacar-nos", indicaram em comunicado.

O anúncio refere ainda a possibilidade da libertação de alguns prisioneiros de guerra, se eles prometerem não retomar os combates.

Os talibãs, afastados do poder durante a invasão liderada pelos EUA, estão a tentar voltar a impor a lei islâmica mais rígida. No passado, não hesitaram em atacar durante o Eid, a festa mais importante do calendário muçulmano.

Cessar-fogo do governo

O cessar-fogo declarado pelo presidente será observado a partir de segunda-feira, "27.º dia do Ramadão e continuará até o quinto dia do 'Eid al-Fitr", ou seja, na sexta-feira dia 15 de junho, escreveu o presidente no Twitter.

Ashraf Ghani diz que sua decisão se prende com a decisão histórica da Loya Jirga (grande assembleia, em pashtun), que reuniu em Cabul milhares de dignitários religiosos das 34 províncias afegãs. Estes declararam que "os ataques suicidas e explosões contrários ao que defende a religião islâmica são um grande pecado". O texto também declara que "o apoio ou financiamento [do terrorismo] são contrários à Sharia", a lei islâmica.

Um bombista suicida atacou o exterior do edifício onde decorreu a reunião, matando pelo menos sete pessoas e ferindo outras 20, num ataque reivindicado pelo Estado Islâmico. Já os talibãs criticaram a Loya Jirga, insistindo que a sua jihad (guerra santa) contra os invasores estrangeiros se justificava. E apelou aos clérigos para ficarem do seu lado contra a "ocupação".

Reação do presidente

O presidente já se congratulou com o anúncio dos talibãs, destacando uma "decisão arrojada" para acabar os combates, agradecendo também o apoio dos parceiros internacionais (EUA, Reino Unido, União Europeia e Conferência Islâmica), assim como dos afegãos.

O seu porta-voz, Mohammad Haroon Chakhansuri, disse ainda que o governo "tem esperança que este processo se possa tornar num processo de longo prazo e que resulte numa paz sustentável".

Em fevereiro, Ghani propôs o reconhecimento dos talibãs como um grupo político legítimo ao abrigo de um processo de negociação para pôr fim a 16 anos de guerra. Só no ano passado, mais de dez mil civis afegãos morreram ou ficaram feridos por causa deste conflito.

O embaixador do Afeganistão no vizinho Paquistão e ex-ministro das Finanças, Omar Zakhilwal, disse no Twitter esperar que "o prazer de não derramar sangue afegão durante o Eid se torne tão avassalador que o resto do ano seja declarado como Eid afegão"

Reação dos EUA

O Departamento de Estado disse que as forças norte-americanas e os parceiros da coligação no Afeganistão "vão honrar o cessar-fogo" com os talibãs, aproveitando para concentrar esforços contra o Estado Islâmico no país.

Os EUA e NATO concluíram formalmente a sua missão de combate no Afeganistão e 2014, mas os EUA ainda tem milhares de tropas no país, em papéis de apoio e contraterrorismo. As tropas estrangeiras no país não chegam a 15 mil, apesar de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter anunciado no ano passado o aumento dos ataques aéreos no país.

Último ataque

Poucas horas antes do anúncio do cessar-fogo, pelo menos 17 soldados afegãos foram mortos quando um posto de controlo em que se encontravam, na província de Herat, foi atacada pelos talibãs, segundo o porta-voz do governador, Gelani Farhad. Pelo menos oito talibãs foram mortos no ataque e outros 12 terão ficado feridos.

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