Sondagem pró-brexit faz soar alarme entre bancos centrais

David Cameron foi a Gibraltar em campanha e irritou Rajoy. É a primeira visita de um chefe de governo britânico desde 1968

"O maior e mais imediato risco para o mercado financeiro britânico e possivelmente para os mercados financeiros a nível global." Foi assim que o Banco de Inglaterra se referiu ontem ao referendo sobre a permanência do Reino Unido na UE, que ocorrerá dentro de apenas uma semana, a 23 de julho.

O adeus britânico está cada vez mais perto de se tornar realidade. A sondagem telefónica ontem publicada no The Evening Standard revela que 53% dos eleitores são a favor da saída. É o primeiro estudo da empresa Ipsos Mori - realizado com base em 1257 entrevistas telefónicas - que dá a vitória ao brexit.

A possibilidade cada vez mais real de o Reino Unido poder vir a abandonar a União Europeia está a fazer soar o alarme e a deixar em alerta as instituições financeiras mundiais. "O referendo britânico pode causar incerteza e aumentar a turbulência nos mercados mundiais", afirmou Thomas Jordan, chefe do banco central da suíça, que revelou estar preparado para atuar sobre as taxas de juro caso o brexit se confirme. Também o líder do Banco do Japão, Haruhiko Kuroda, disse estar a acompanhar de perto o que se passa no Reino Unido, apontando a incerteza causada pelo referendo para justificar a valorização do iene - que afeta negativamente as exportações japonesas - e para congelar novas medidas de estímulo à economia nipónica.

Jordan e Kuroda juntam-se assim a Janet Yellen. A chefe da Reserva Federal dos EUA, na quarta-feira, tinha já optado por não aumentar as taxas de juro antes do referendo. "É uma decisão muito importante para o Reino Unido e para a Europa, que pode ter consequências para os mercados financeiros a nível global", afirmou aos jornalistas a líder do banco central dos EUA.

Num registo mais político, também Angela Merkel, numa conferência de imprensa conjunta com Roberto Fico, primeiro-ministro eslovaco - país que assumirá a presidência da UE a partir de julho -, lançou um aviso sério ao Reino Unido. "Se saírem perderão todos os benefícios do mercado comum", afirmou a chanceler alemã, que acrescentou ainda que a partir desse momento todas as reuniões passarão a ser feitas entre os restantes 27 membros e um "estado exterior".

Os avisos do Banco de Inglaterra sobre as possíveis consequências negativas para a economia britânica de uma vitória do brexit caíram mal entre os defensores da saída. Quatro importantes figuras do Partido Conservador, num artigo publicado no The Daily Telegraph, questionaram a independência da instituição financeira. Nigel Lawson e Norman Lamont (dois ex-ministros das Finanças) e Iain Duncan Smith e Michael Howard (ex-líderes dos tories) afirmam que o Banco de Inglaterra "falhou redondamente" na tarefa de "apresentar uma análise equilibrada e justa" sobre a questão do brexit e argumentam que os fantasmas da desgraça agitados pelos defensores da permanência "não têm qualquer fundamento".

David Cameron, que criticou os seus camaradas conservadores pelo ataque ao Banco de Inglaterra, deslocou-se ontem a Gibraltar - território sob administração britânica mas cuja soberania é reivindicada por Espanha - para fazer campanha pela permanência do Reino Unido na UE. O comício que estava previsto foi cancelado depois de conhecida a notícia do ataque à deputada trabalhista que veio a morrer na sequência dos ferimentos (ver texto ao lado), mas, ainda assim, o primeiro-ministro reuniu-se com Fabian Picardo, o seu homólogo gibraltino.

A visita - a primeira de um chefe de governo britânico desde Harold Wilson em 1968 - irritou Mariano Rajoy. "O governo espanhol não gosta que o senhor Cameron vá a Gilbraltar. O que está a ser debatido é se o Reino Unido fica ou não na União Europeia e por isso a campanha deve ocorrer no Reino Unido", afirmou à Rádio Nacional de Espanha o primeiro-ministro espanhol em funções, que acrescentou que Gibraltar continuará a ser Espanha seja qual for o resultado do referendo.

A finalidade da visita de Cameron a Gibraltar não passa por conseguir votos, uma vez que as sondagens mostram que a esmagadora maioria dos habitantes do território votará pela permanência. O objetivo é outro. Segundo o Financial Times, Gibraltar permite ao primeiro-ministro construir um apelo mais emocional. "Até agora os defensores da saída têm reclamado para si a temática mais patriótica e Gibraltar, pela questão simbólica, permite a David Cameron argumentar que a opção mais patriótica é a permanência na União Europeia", afirmou ao jornal britânico uma fonte próxima do governo de Gibraltar.

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