"Solução turca não é uma solução consistente, a prazo"

Para Maria João Rodrigues, eurodeputada socialista, só a Europa pode fornecer uma solução para a crise dos refugiados.

O acordo entre UE e Turquia para a troca de refugiados, tem potencial como solução para a crise?

A solução turca não é uma solução consistente, a prazo. A Europa não pode transferir para a Turquia, uma solução que só a Europa pode fornecer. Trata-se de assumirmos de uma vez por todas aquilo a que se deve chamar soberania europeia. Estamos a falar de uma verdadeira fronteira europeia, capaz de proteger Schengen, com padrões humanitários. Trata-se da ideia que defendo de uma verdadeira fronteira inteligente.

O que é uma fronteira inteligente?

Deve ser uma infraestrutura com capacidade de gestão de informação e de logística. Pretende-se que seja um verdadeiro sistema de fronteira. Não se trata de uma linha divisória, nem de um muro. É um conceito muito mais evoluído, a que podemos chamar "smart", porque será dotada de serviços inteligentes.

Essa seria uma forma de devolver o controlo à Europa?

As soluções passam pela estabilização dos países de origem. Mas, no imediato é necessário fazer um reforço daquilo que os campos de refugiados oferecem nos países de origem e de trânsito ou eles não vão querer ficar lá e vêm para a Europa. Mas, se os refugiados vêm para a Europa e batem à porta da fronteira europeia, então a fronteira europeia tem de os aceitar com padrões europeus.

Qual a extensão deste sistema de fronteira?

Na parte que é decisiva para reganhar o controlo da situação, estamos a falar de 10 mil quilómetros.

Onde é que a fronteira deveria ser instalada?

As prioridades são a fronteira na Grécia, na chamada rota dos Balcãs, mas também na Itália e mais a norte na Finlândia, porque também está a haver entrada de refugiados pela fronteira da Finlândia. Há ainda a questão da fronteira marítima, onde Portugal também poderia ser visado, embora esteja mais protegido do ponto de vista geográfico. Mas, pode ser envolvido de outra formas.

Quais?

Por exemplo, através do envolvimento das empresas. Desde a construção civil, até às infraestruturas eletrónicas, até à capacidade digital ou à capacidade logística, temos empresas com experiência e provas dadas. Se a empreitada for lançada, vão abrir-se muitos mercados públicos e as empresas portuguesas deveriam posicionar-se para isto.

Que investimento é necessário fazer, para instalar esta infraestrutura?

Há uma estimativa que ronda à volta de 20 mil milhões, por ano, como base mínima. Construir este sistema de fronteira ficará muitíssimo mais barato do que estar a reerguer outra vez fronteiras nacionais.

Como poderia ser estruturado esse volume de investimento?

Estamos a falar de investimento público, porque a fronteira é uma infraestrutura pública. Se a ideia for retida e lançada pelas instituições responsáveis, precisará a colaboração de centenas, até milhares de empresas que deveriam trazer a sua capacidade técnica, para as diferentes valências, como infraestruturas físicas, logísticas, de informação e de prestação de serviços.

Com impacto ao nível do emprego?

Isto seria uma empreitada para dar emprego a muitos milhares de pessoas. Defendo que estas pessoas deveriam ser treinadas num espírito Erasmus, com uma maioria de cidadãos do país em que esse troço de fronteira fosse construído, mas deveriam também combinar-se com outros cidadãos europeus provenientes de outros países.

Quem apoia esta ideia na Europa?

É apoiada por delegações do grupo socialista de 28 Estados-membros. A ideia foi apresentada em Paris, no passado sábado, na cimeira de líderes, que aprovaram uma declaração a apoiar a ideia de uma fronteira europeia - e assim temos um primeiro passo que já envolve governos. Já expus esta ideia na conferência anual das organizações empresariais e teve grande acolhimento. A ideia já colheu também amplo apoio de ONG de toda a Europa.

Bruxelas

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