"Só nos resta mesmo sonhar com um Justin Trudeau francês"

Autor de livro sobre Claude Guéant, o jornalista francês Francis Christophe acha que Nicolas Sarkozy fará tudo para voltar ao Eliseu e recuperar a imunidade.

Escreveu um livro sobre Claude Guéant, antigo braço direito do ex-presidente Nicolas Sarkozy, e sobre o seu envolvimento em casos de corrupção. Acha que Sarkozy, ele próprio investigado pela justiça, tem hipótese nas presidenciais francesas de 2017?

Uma coisa lhe posso dizer, Sarkozy, quando comparado com [Alain] Juppé, [Bruno] Le Maire e outros candidatos à direita, tem uma supermotivação. Ele precisa de vencer a qualquer custo para recuperar a imunidade presidencial. Para isso terá de eliminar os adversários. Antes das primárias de novembro, ou conseguindo sabotar essas mesmas primárias para se tornar o candidato d"Os Republicanos sem ter de ir a votos. Com ou sem primárias, Sarkozy tem meios, inclusive financeiros, para ser o candidato da direita. E não recuará diante de nada. Mas a eleição será só em maio de 2017. Até lá pode surgir um escândalo que afaste Sarkozy da corrida.

E na esquerda? Também se fala em vários possíveis candidatos...

O primeiro-ministro Manuel Valls, o presidente François Hollande e até [o ministro da Economia] Emmanuel Macron pretendem-se socialistas. Mas as suas políticas incluem medidas que mesmo um conservador ultraliberal como Sarkozy nunca tinha pensado aplicar. Ideologicamente, não são de esquerda. A prova? Quando chegou ao poder, Hollande manteve nos principais cargos do Estado muitos dos nomes que herdou de Sarkozy, nas Forças Armadas, na Justiça, etc. A esquerda de governo ao estilo Hollande não pode ser chamada de esquerda. Não há esquerda em França.

É de esperar que alguém mais à esquerda da esquerda surja antes de 2017?

Se olharmos para os políticos atuais, por exemplo alguém como Jean--Luc Mélenchon está totalmente excluído. Mélenchon gosta de se apresentar como uma encarnação do Podemos espanhol, mas não percebeu que geracionalmente precisava de ter pelo menos 30 anos a menos para ser credível.

A esquerda quando chega ao poder é obrigada a mudar de discurso, como na Grécia?

Quando chega ao poder desmorona-se. Exceto Yanis Varoufakis.

Mas esse saiu do poder...

Sim, mas Varoufakis tinha um plano B que [o primeiro-ministro] Alexis Tsipras não quis seguir. Não sei se ele estava certo ou errado. Mas, quando Tsipras decidiu ceder às exigências de Bruxelas, Varoufakis foi-se embora. Mas terá sido por pouco. Podiam ter seguido a linha Varoufakis, o plano B e a saída do euro. E aí teríamos um cenário totalmente diferente, com um Varoufakis à esquerda que seria o homem-forte da Grécia. Ou então seria o caos total [risos]. Em França, o problema é que não há um Yanis Varoufakis. Mélenchon, [Olivier] Besançenot ou o patrão do que resta do Partido Comunista, Pierre Laurent, não têm envergadura, credibilidade mediática ou um partido atrás deles que lhes permita contestar de forma credível as políticas de François Hollande.

E não há ninguém mais jovem que possa aparecer?

Com o sistema francês, hiperpiramidal, um Mélenchon nunca deixaria um jovem Tsipras ou um jovem Varoufakis ou um jovem Iglesias chegar ao topo. À esquerda é um deserto. O problema é que a sociedade civil quer exprimir-se e não encontra voz nem nos partidos de esquerda nem nos de direita.

Resta Marine Le Pen e a Frente Nacional?

Não, a sociedade civil não quer nada com Marine Le Pen. Damos por nós a sonhar com o que aconteceu aos nossos amigos canadianos...

Esperam pelo vosso Justin Trudeau?

Infelizmente não vamos ter a sorte de ter um, mas em França sonhamos todos com alguém vindo da sociedade civil que se lance na política. Hoje, com a internet, qualquer um pode ser mais eficiente, em menos tempo, do que os políticos profissionais. Até porque a elite política francesa não sabe usar um computador. São analfabetos informáticos. Claro que têm no staff alguém que faz as pesquisas por eles, mas não é a mesma coisa. E isto é verdade à esquerda como à direita. Por isso, acho que Le Pen não é um perigo assim tão grande. É mais uma a querer sentar-se no topo da pirâmide do poder, não está disposta a pôr em causa o sistema.

Mas não acha que ela possa passar à segunda volta das presidenciais?

À segunda volta penso que chega. Mas só poderia ser presidente, na minha opinião, se o seu adversário fosse Nicolas Sarkozy. Aí conheço muita gente, eu incluído, que nunca votaram Sarkozy, nunca votariam Le Pen, mas preferiam não ir votar em caso de duelo entre eles. E, nesse caso, os eleitores da Frente Nacional, diante da abstenção, podem fazer a diferença. Se for Juppé ou outro qualquer, estou convencido de que as pessoas irão votar neles contra Le Pen, mesmo contrariadas, mas irão. Sejam de esquerda ou de direita.

Greves, manifestações... A sociedade francesa está zangada?

Há um sindicato, a CGT, em declínio há anos, que decidiu fazer um braço-de-ferro porque sabe que o seu futuro está em jogo. Precisa de uma vitória, mesmo simbólica, contra este governo. Caso contrário, arrisca-se a desaparecer, como aconteceu ao PC, ao qual estava ligada... Com a esquerda assim, só nos resta mesmo sonhar com um Justin Trudeau francês.

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