Síria exporta refugiados e ressuscita jihadistas

2017 poderá ser o ano da vitória de Bashar al-Assad na Síria. Enquanto isso, drama dos refugiados e problema do terrorismo continuam a desassossegar a Europa

Ao contrário do que aconteceu na Tunísia, Egito e Líbia, na Síria Bashar al-Assad sobrevive há quase seis anos a uma revolta que tem origem na Primavera Árabe e degenerou numa guerra em que interferem atores externos variados, como Rússia, Irão ou Hezbollah. Estima-se que desde 2011 o conflito tenha feito cerca de 500 mil mortos e 12 milhões de deslocados. Há mais de quatro milhões de sírios refugiados noutros países. Uma grande parte tenta chegar à Europa. Sobretudo à Alemanha de Angela Merkel, que com a sua política de porta aberta criou um efeito de chamariz criticado tanto a nível interno como externo. À guerra síria associa-se um ressuscitar do jihadismo, como antes já se tinha visto com as guerras do Afeganistão, Bósnia e Iraque. Atentados terroristas sucedem-se em solo europeu em nome de uma qualquer vingança. 2017 pode bem ser o ano em que Assad se afirma como vencedor da guerra na Síria, em grande parte devido à ajuda externa que tem recebido para combater os rebeldes e os militantes do Estado Islâmico (EI).

"Assad vai recuperar o controlo de todo o território sírio em 2017. Eventualmente poderá ser reabilitado pelo Ocidente e enaltecido como herói de uma guerra mais vasta contra o Estado Islâmico. Porém, Assad não é nenhum herói e continuará dependente da Rússia para a sua segurança militar e, essencialmente, emergirá como marioneta do regime do Irão", diz ao DN Mitchell Belfer, presidente do The Euro-Gulf Information Centre em Roma. "A Síria é um Estado falhado: o governo protagoniza uma guerra brutal contra o povo, os seus aliados, Irão, Rússia, Hezbollah e outras milícias xiitas, são responsáveis por crimes contra a humanidade, os rebeldes são uma amálgama de grupos seculares (Exército Livre Sírio) e jihadistas (sírios e estrangeiros) e outros que proclamam pseudo-Estados no oeste (antes Aleppo e agora Idlib) e no nordeste (Estado Islâmico). É uma guerra feita para a vitória de um só lado, não para o compromisso", constata o também diretor do Central European Journal of International and Security Studies.

Também Fabrice Balanche, diretor de investigação da Universidade de Lyon 2, pensa que Assad sairá incólume da guerra, embora estabeleça outro horizonte temporal para um triunfo a 100%. "Com a tomada de Aleppo, Assad recuperou legitimidade territorial. Controla as principais cidades do país e parte da população. O próximo ano será o da ofensiva sobre Idlib. Demorará pelo menos um ano a derrotar os rebeldes. Resta o problema do Leste: Raqqa, região curda, a zona à volta de Palmira. Poderá esperar até 2018", constata o também professor convidado no The Washington Institute. Barah Mikhail, diretor do Stractegia Consulting, afirma que o presidente sírio beneficiou de uma conjuntura em que "muitos atores - Rússia e EUA em primeiro lugar - deixaram claro que a saída de Assad não é prioridade".

Enquanto Assad canta e não canta vitória mantém-se o problema dos refugiados e do terrorismo, vistos como grandes questões na Europa e combustível para partidos de extrema-direita num ano em que há eleições importantes na Holanda, em França e na Alemanha. "É um desafio maior para a Europa, porque se abrirmos as fronteiras como fez Merkel vamos ver mais refugiados sírios que estão no Líbano, na Jordânia e na Turquia a partirem em direção à Europa, como em 2015. Depois há jihadistas que se misturam entre os refugiados para vir atacar na Europa, como aconteceu no Stade de France. Outros, como o autor do atentado de Berlim, radicalizam-se depois e passam à ação", sublinha Fabrice Balanche. Barah Mikhail, por seu lado, não culpa apenas os sírios. "A Síria é a origem de muitos dos terroristas mas não é a única. Tunísia, Iraque, Egito, Mali ou Chade estão entre as fábricas deste fenómeno. Enquanto o presidente sírio tem culpa de uma parte do radicalismo no seu país, outros países, incluindo França e Reino Unido, são responsáveis também."

Além de Assad, outro nome sai de 2016 como vitorioso, o de Vladimir Putin. Após o assassínio do embaixador russo em Ancara, o presidente da Rússia conseguiu trazer para o seu lado o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan. A questão é até quando? "Erdogan não quer mais problemas com a Rússia, depois do golpe de Estado falhado de julho ele está de costas voltadas com os EUA por causa de Fethullah Gülen [opositor exilado], então precisa de se reaproximar de Moscovo. Erdogan vai fazer prova de boa vontade para com Putin. O presidente russo terá luz verde na Síria", considera Balanche. "Rússia e Turquia estão apenas a adiar o seu inevitável regresso à competição e à desconfiança política. Continuam divididos sobre a Ucrânia, Irão, Azerbaijão, Geórgia. Turquia continua membro da NATO. Putin tentará quebrar a Aliança via Turquia, mas a menos que ofereça um modelo alternativo em termos de meios militares, a Turquia continuará comprometida com o Ocidente e com a NATO", avisa, por seu lado, Mitchell.

E Donald Trump, que chega à presidência dos EUA a 20 de janeiro, que palavra terá a dizer sobre o que se passa na Síria e por causa da Síria? "Muito irá depender das políticas comuns acordadas por Trump e Putin. Acho que os dois países ainda vão passar por muitos desacordos, mas não sobre o Estado Islâmico e o terrorismo. E é por isso que haverá, digo eu, uma aproximação, ainda que relativa", refere Mikhail. "Para Donald Trump o inimigo é o terrorismo islâmico: o Estado Islâmico ou a Al-Qaeda. Assad não é um problema para ele. Se a Rússia quiser ocupar a Síria, ele deixará. Os EUA têm mais interesse no Iraque", sublinha Balanche. "Apesar de haver algum espaço de concertação entre Donald Trump e Vladimir Putin", conclui, por sua vez, Mitchell, "isso será eclipsado pelas posições divergentes em relação ao Irão e às suas estratégias para o Médio Oriente".

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