"Seria melhor se matassem o vosso bebé do Daesh"

Os combatentes do Estado Islâmico são conhecidos por manterem escravas sexuais. Embora normalmente obriguem as mulheres a usar contracetivos, há muitas que, mesmo assim, ficam grávidas. As que conseguem fugir ficam com profundas cicatrizes emocionais. O DN publica hoje a 2.ª parte de uma reportagem da revista alemã Der Spiegel

Se o bebé de Khaula tivesse sobrevivido, ele teria provavelmente acabado ao cuidado de dois homens no centro de Dohuk (no Curdistão iraquiano) que estão a tentar ajudar os bebés do EI e as suas mães. Um deles é o Dr. Nezar Ismet Taib, o diretor do departamento de saúde em Dohuk, que também dirige uma clínica para mulheres sobreviventes. O outro é Mohamed Hasan, um juiz do tribunal civil, que gere as adoções de órfãos na região. Hasan ajuda a colocar os bebés do EI sobreviventes em famílias curdas que não sabem nada sobre os pais do bebé. Os dois tentam fazer o que podem para tornar um pouco mais suportável uma situação terrível.

O Dr. Taib recebe-nos num dia morno de primavera, em março, num edifício retangular em Dohuk. "Estamos a fazer o que podemos, mas estamos sobrecarregados", diz Taib, psiquiatra infantil de formação. Ele é um homem tranquilo, com o cabelo grisalho e parece ter uma paciência infinita. Trabalha em conjunto com três terapeutas do sexo feminino e um ginecologista. Pouco antes da nossa visita, uma mulher tinha chegado ao seu consultório a querer suicidar-se.

"Das mais de 700 mulheres que vieram para se tratar no ano passado, 5% tinham engravidado durante o seu cativeiro", diz ele. O que dá um total de 35 mulheres. Ele atribui a taxa relativamente baixa de gravidez ao uso de contracetivos. "Todas aquelas que ficam grávidas têm de ter direito a um aborto seguro", diz Taib. Juntamente com a sua equipa, ele apareceu em tribunal para solicitar que uma mulher violada fosse autorizada a fazer um aborto depois do segundo mês de gravidez. Os abortos numa gravidez avançada são ilegais na região autónoma do Curdistão iraquiano. "Ainda não temos uma solução", diz Taib.

Órfãos anónimos

Isso significa que as mulheres grávidas que chegam em estágios mais avançados são muitas vezes obrigadas a levar a gravidez até ao fim. A equipa de Taib proporciona-lhes uma vaga no berçário, onde o bebé pode ficar até que o tribunal encontre pais adotivos. Não há orfanatos no Iraque, e a sociedade yazidi é conservadora. "Sangue estrangeiro, ou seja, uma criança de um muçulmano, nunca seria aceite", diz Taib. O facto de as crianças também nascerem fora do casamento torna-as "inaceitáveis" para a sociedade, o que explica porque o Dr. Taib as regista no tribunal como sendo órfãos anónimos.

Mohamed Hasan, um homem alto com uma voz sonora, trabalha no tribunal civil em Dohuk. Ele entrega os filhos do EI aos seus novos pais. Hasan hesita muito em conceder uma entrevista, dada a natureza secreta daquilo com que lida mas, no final, ele concorda com um encontro na sala de estar de sua casa. Hasan ama crianças, mesmo aquelas nascidas de pais do Estado Islâmico.

"O meu departamento aceitou dez bebés durante o ano passado", diz Hasan. Ele recebe um impresso do departamento hospitalar de Taib com informações sobre a criança e a observação "pais desconhecidos" - uma especificação dada a fim de proteger a identidade do bebé e a sua mãe. A nível interno é claro que os trabalhadores sabem quando é um bebé do EI.

Geralmente, há cerca de 20 candidatos para cada bebé, diz o juiz Hasan. "É muito importante ter crianças na sociedade curda. Nós temos muitos potenciais pais adotivos que estão à espera", diz ele.

Os casais devem ser ricos e capazes de garantir que a criança vai herdar pelo menos um terço dos seus bens se os pais por acaso morrerem. Eles também têm de ser casados e possuir uma casa. "Nós temos de ter a certeza de que eles podem providenciar um bom futuro à criança", sublinha ele.

Hasan coloca os nomes dos casais que satisfazem os critérios num frasco, mistura-os bem e tira um vencedor.

Melhor não descobrir a verdade

Em circunstâncias normais, os pais adotivos teriam acesso a todas as informações sobre o seu filho, diz Hasan, mas ele abre uma exceção para os filhos dos combatentes do EI porque, como ele diz, "quem iria ficar com eles?" Diz também que é melhor para a criança se nunca vier a descobrir a verdade.

E o que acontece se a criança parecer estrangeira porque o seu pai era um combatente do EI loiro? "Existem todas as cores de cabelo possíveis na sociedade curda", diz Hasan. Ele tem um provérbio na ponta da língua: "A barriga é como um jardim - qualquer coisa pode crescer dentro dela."

Uma vez que uma criança do EI é adotada, o seu nome é anexado à certidão de casamento dos novos pais. Depois de ter o nome aí registado, a criança passa a fazer efetivamente parte da família. Os vizinhos não fazem perguntas. As organizações tribais são a estrutura da sociedade curda. A indignidade de ser uma criança do EI foi eliminada.

Os bebés que acabam nas mãos do Dr. Taib e do juiz Hasan são os afortunados. Nem todas as mulheres recorrem às organizações de assistência, o que lhes dificulta ajudarem mais pessoas necessitadas. E algumas mulheres estão tão traumatizadas que ficam simplesmente incapacitadas. Elas criam a sua própria realidade e vivem uma narrativa alternativa, na qual os seus bebés são produto de um relacionamento amoroso com os seus maridos no meio do terror infligido pelo EI. Para algumas mulheres, essa é a única maneira de conseguirem lidar com a verdade.

A luta pela vida

Sajedah, uma yazidi de 18 anos que vive num edifício inacabado nos arredores de Dohuk, é uma delas. A sua bebé, Nura, está deitada num berço ao lado dela. A criança tem cerca de 5 meses, dorme bem, tem fome com frequência e está, atualmente, um pouco adoentada por causa de uma tosse. A sua touca tem o desenho de um ursinho e ela está a chupar uma chucha cor-de--rosa. Os olhos são castanhos e vivazes. Os vizinhos dizem que têm a certeza de que Nura é uma filha do Daesh, não têm dúvidas.

O ar frio das montanhas entra pelo bairro pobre, onde as ruas são esburacadas e os edifícios meros esqueletos de pedra. A família está reunida em redor do berço - avó, avô, tias, tios e Sajedah, pálida sob a iluminação fluorescente. Ela veste uma saia e usa um lenço solto na cabeça. Sorri timidamente e logo o seu rosto se transforma novamente numa máscara. Em seguida, o sorriso volta. Tudo acontece tão rapidamente que é como se não houvesse nenhuma fronteira entre o interior e o exterior. Nenhuma defesa.

Sajedah senta-se a poucos metros do berço. Só depois de meia hora é que diz: "A criança no berço é minha filha." Há seis meses que vive em liberdade. Ela teve Nura após 14 meses de cativeiro. No nono mês de gravidez conseguiu escapar do seu último proprietário, na cidade de Tal Afar. Com a ajuda de um intermediário da rede curda dentro da zona dominada pelo EI, ela conseguiu escapulir-se para o interior de um camião de água que a levou para fora do inferno.

Ela está profundamente traumatizada e isso sente-se em cada um dos seus movimentos, na sua aparência, na voz e nas expressões faciais.

Não é possível verificar a sua história. É provável que Sajedah não resistisse se tivesse de reconhecer que a sua bebé é filha de um combatente do EI. Ela fala incansavelmente sobre o marido, Misban, que desapareceu durante a guerra com o EI.

Ele é o seu herói e ela até tatuou o nome dele no braço usando uma agulha e uma pasta feita de relva. No entanto, mesmo a evocação de Misban não tem sido suficiente para a proteger das acusações dos seus vizinhos.

Quando o Estado Islâmico atacou a sua aldeia, Tall Asser, em agosto de 2014, Sajedah estava dentro da casa de Misban e os dois foram sequestrados juntos. Era meia-noite e os combatentes levaram-nos para dois pontos de recolha diferentes. Homens e mulheres foram separados, mas depois Sajedah foi devolvida ao marido. Alguns antigos prisioneiros do Daesh relataram que esta era uma prática comum do EI.

Os combatentes transportaram o casal de um lugar para outro: Misban teve de trabalhar a carregar camiões, enquanto Sajedah ficava em casa.

"Aquela situação durou um ano", diz Sajedah. "Foi durante esse tempo que nós concebemos a criança."

Depois de várias famílias terem conseguido escapar, os combatentes do EI separaram o casal. Depois de nove meses de prisão, Sajedah foi vendida pela primeira vez. "Eu já estava grávida nessa altura", diz ela, "no quarto mês de gestação".

Ela diz que o primeiro combatente que a comprou mandou fazer uma ecografia, depois da qual a devolveu como se ela fosse um produto defeituoso. O segundo combatente golpeou-a brutalmente na barriga, na esperança de que ela tivesse um aborto espontâneo. O terceiro ficou com ela cinco dias. O quarto era um homem velho, que também mandou fazer uma ecografia e viu que a criança ia ser uma menina. Ela conta que ele lhe disse: "Vou matá-la e, em seguida, vendo-te novamente." Naquele momento, faltavam apenas dez dias para o nascimento.

Quando o quarto homem saiu para fazer uma viagem, Sajedah usou o computador dele para entrar no Facebook, que usou para entrar em contacto com a rede que finalmente a resgatou e libertou. Depois de ter sido libertada, ela jejuou durante seis dias em gratidão a Deus. Nura nasceu num hospital de Dohuk. Ela diz que tudo se passou tão depressa que já não se consegue lembrar dos primeiros dias após a sua libertação.

"Tenho a certeza de que Nura é filha do meu marido", diz ela baixinho. "O problema é que ninguém além dos meus pais acredita em mim."

"Seria melhor que o matassem"

Poucos dias antes de dar à luz, alguns vizinhos foram lá a casa. Eles entraram na sala e disseram: "O teu bebé é do Daesh. Porque é que não fazes um aborto?"

No mercado, alguém se virou para a irmã dela e disse: "Seria melhor que matassem o vosso bebé do Daesh." Quando Sajedah ouviu falar sobre isso correu com Nura para o duche. Ela queria estrangulá-la com um lenço e depois matar-se, mas a mãe correu atrás dela.

Sajedah tenta agora ignorar o que os vizinhos dizem. Ela levanta Nura do berço, puxa as calças dela para baixo e mostra um hematoma nas nádegas da bebé. Diz que um homem do EI lhe bateu com tanta força que também magoou Nura, acrescentando que quando esta nasceu a mancha era negra. Em termos médicos, a história que ela conta é inverosímil. É difícil conceber que uma contusão ainda estivesse visível após um período de tempo tão longo. Depois acrescenta: "Eu também bato em Nura quando ela grita, depois passo-a rapidamente para os braços da minha mãe." Ela diz que sempre que a criança está triste ela também se sente triste e com raiva.

Sajedah está a fazer um esforço considerável para ser uma mãe para Nura. Ela sorri para a criança, mesmo que seja um sorriso forçado. Embala o seu berço, mas, em seguida, senta-se longe dele.

O pai de Sajedah lança-se numa diatribe sobre documentos de identificação para Nura, que a família não conseguiu ainda obter, porque Misban é oficialmente desconhecido como marido e não há nenhuma certidão de casamento. A conversa faz Sajedah dar um salto da cadeira e começar a andar furiosamente pela sala como um animal ferido. Ela já quase nunca vai até à porta. Sajedah passou de uma prisão para outra com a sua bebé.

Algumas semanas atrás, uma organização não governamental (ONG) convidou-a para ir a Erbil fazer um curso de língua inglesa. Durante dez dias, ela aprendeu vocabulário inglês juntamente com outras mulheres que tinham conseguido sobreviver ao terror do Estado Islâmico.

Elas ajudavam-se umas às outras, viam vídeos nos seus telemóveis, passeavam pelas ruas e bebiam sumo de romã - tal como costumavam fazer anteriormente. Sajedah sentiu-se feliz, livre. A sua bebé, Nura, tinha ficado em casa, no berço. Sajedah é uma mulher orgulhosa que, em tempos, tinha sonhado ser advogada. Ela ainda se lembra de todas as injustiças infligidas a ela e às suas amigas na escola, em criança. Mas, quando entrou no autocarro em Erbil para voltar para casa, ela só pensava numa coisa: que gostaria muito de ser uma mãe para Nura. Mas ela sabe que vai ser difícil.

Jornalista da Der Spiegel

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