Ser contra o "impeachment" é cada vez mais arriscado

Um jornalista, um ator, um apresentador, um cantor e um pastor evangélico insultados. Até um bebé ficou sem atendimento

Juca Kfouri, de 66 anos, é um dos jornalistas da área do desporto mais conhecidos do Brasil. Como antigo diretor das revistas Placar e Playboy e hoje colunista nos canais ESPN ou o jornal Folha de São Paulo e por ser adepto assumido do Corinthians, sentiu hostilidade de leitores e adeptos de futebol. "Mas nada como na terça-feira passada", conta ao DN.

Um carro parou à porta do seu prédio, em São Paulo, e quatro pessoas desataram aos gritos. "Fiquei tão indignado com a barulheira, o desrespeito, com a vizinhança sendo acordada por quatro arruaceiros de extrema-direita que desci ao encontro deles, sem medir consequências. E pude constatar, dado o receio deles quando os abordei, como estes tipos são covardes".

Em causa, um dos raros artigos de Kfouri na Folha de S. Paulo em que trocou futebol por política. "Já havia sido hostilizado por torcedores de futebol que não gostam de eu ser corintiano, mas nunca de maneira tão incompreensível, até porque não sou e nem nunca fui petista, apenas sou contra o impeachment da Dilma".

O caso é apenas o último do ambiente entre os pro e anti governo Dilma que os jornalistas da área da política chamam de "clima Fla-Flu" (e de que os jornalistas de desporto discordam porque acham a rivalidade entre os velhos clubes cariocas mais civilizada). Os petistas, que estão no poder há 13 anos e sob desgaste da crise económica e da corrupção, são os mais hostilizados.

O ator Wagner Moura escreveu artigo na Folha de S. Paulo a chamar "golpe" ao impeachment e "revanchistas" aos seus defensores - nas cartas de leitores do jornal foi insultado e ameaçado de boicote aos seus filmes.

Jô Soares abriu a última temporada do seu programa - "O Programa do Jô" - referindo-se ao episódio mais mediático da anterior: a entrevista considerada suave a Dilma Rousseff, que se traduziu em atos de vandalismo como um "Morra Jô Soares" escrito na rua em frente à sua casa.

"Quando entrevistei o Fernando Henrique Cardoso [presidente entre 1995 e 2003] era coxinha [equivalente a "betinho" e conotado com os defensores do impeachment], entrevisto a Dilma sou petista, no fundo, eu sou é um "coxista"", disse o apresentador.

Chico Buarque foi confrontado em dezembro no Rio de Janeiro por jovens que o acusavam de ser petista. "E você é tucano [membro do PSDB], e daí?", respondeu o compositor. Mas há duas semanas acusaram-no de "censor" por não permitir que um ator que interpretava um musical em sua homenagem voltasse a usar os seus temas, depois de ter improvisado uma piada contra Dilma e Lula a meio da peça.

Mas nem só as celebridades sofrem. Um raro pastor evangélico contra o impeachment queixou-se ao DN de estar a ser ofendido. "Não chegou ainda a agressão física mas já faltou mais", lamentou Ariovaldo Ramos.

E o filho de ano e meio de Ariane Leitão, vereadora suplente da prefeitura de Porto Alegre, não foi atendido por uma pediatra por ela ser petista. "Um absurdo", comentou a própria presidente Dilma Rousseff.

"Eles têm ódio, nós não", concluiu em discurso no Planalto. Os pro-impeachment discordam. Editorial do jornal O Estado de S. Paulo, assumidamente anti-Dilma, sublinhava que o discurso do ""nós contra eles" é uma fabricação petista".

E membros de movimentos populares que organizam manifestações pela queda da chefe de estado acusam as forças sociais que apoiam o governo de "usarem discursos bélicos e de buscarem o confronto físico".

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