Seis casos que mostram como a corrupção se tornou um problema para os espanhóis

O último barómetro CIS mostra que a corrupção é a segunda maior preocupação dos espanhóis. Em 2015, a corrupção levou, segundo o jornal espanhol 'El Mundo', 2442 pessoas a serem detidas em Espanha. Alguns dos maiores escândalos envolvem ex-presidentes de câmara, de regiões, de bancos ou até membros da família do rei. Eis aqui seis deles.

ERE
O PSOE andaluz e a fraude nas reformas

Este escândalo revelado em 2011 afeta diretamente a Junta de Andaluzia, na qual os socialistas governam desde 1980. A sua origem está na investigação do caso de corrupção na empresa sevilhana Mercasevilla, onde se detetou que existiam pré--reformas supostamente fraudulentas. Houve falsos pré-reformados com fundos públicos de mais de mil milhões de euros. Este caso, conhecido como ERE (de Expediente de Regulación del Empleo), acumula 275 acusados. Há 51 ex-altos cargos do governo andaluz investigados por prevaricação administrativa, acusados de desenhar e manter um procedimento que sabiam ser ilegal para ajudar empresas em crise. No topo da pirâmide, os dois ex-presidentes da Andaluzia, Manuel Chaves e José Antonio Griñán, que já foram ouvidos pela justiça. O caso aguarda o início do julgamento mas alguns delitos podem prescrever. Já passou pelas mãos de cinco juízes, entre eles a juíza Mercedes Alaya, a mais minuciosa de todos, agora afastada do processo.

Gürtel
Garzón, a "correia" e a corrupção no PP

Caso de corrupção política relacionado com o PP, funcionava nomeadamente nas comunidades de Madrid e Valencia, mas também na Costa do Sol (na Andaluzia). A investigação começou em 2007 e a procuradoria anticorrupção apresentou a denúncia à Audiencia Nacional em 2009. Por ordem do juiz Baltasar Garzón investigou-se um esquema de branqueamento de capitais, fraude fiscal, suborno, tráfico de influências. Foi preso Franscisco Correa, empresário ligado ao PP, líder da rede que envolveu várias empresas, entre elas Special Events, Pasadena Viajes, Easy Concept, Good and Better e Orange Market. Durante a investigação do caso Gürtel (nome alemão para correia, som do nome de Correa) foi descoberto um outro relacionado com este: o caso Bárcenas (a contabilidade paralela do PP). Luis Bárcenas, o tesoureiro do partido de Mariano Rajoy, recebeu do Gürtel 1,3 milhões de euros. Por causa de escutas ilegais feitas no âmbito do Gürtel, Garzón foi suspenso em Espanha 11 anos.

Caso Bárcenas
O tesoureiro e as contas paralelas dos populares

Também conhecido como Caixa B do PP, este caso está relacionado com contas não declaradas às Finanças que estavam nas mãos do então tesoureiro do PP, Luis Bárcenas. Nesta contabilidade paralela estão incluídos donativos ilegais de construtoras e entregas de dinheiro negro em envelopes aos dirigentes do partido. O caso foi descoberto pelo El País mas ainda não foi provado que altos cargos do PP recebessem um salário extra em dinheiro negro. Também este jornal divulgou os famosos papéis de Bárcenas, onde aparecia a suposta contabilidade B do governo de José María Aznar. Bárcenas, acusado dos crimes de suborno e evasão, foi preso em junho de 2013 por risco de fuga, tendo sido libertado em janeiro de 2015. Na investigação foi descoberto que tinha perto de 50 milhões de euros na Suíça. O PP defendeu desde início a legalidade das contas. Começou assim uma guerra entre o partido e Bárcenas, a qual a oposição não deixou de usar contra Rajoy na campanha eleitoral de dezembro.

Caso Nóos
Quando a irmã do rei se sentou no banco dos réus

A génese deste caso remonta à investigação de um outro, o Palma Arena, pela relação que existia com o Instituto Nóos, presidido por Iñaki Urdangarín (marido da infanta Cristina). Em 2011 a procuradoria anticorrupção começou a investigar Urdangarín e o seu sócio Diego Torres por delitos de falsificação de documentos, prevaricação, fraude e gestão danosa. Em 2013 a infanta Cristina, filha de Juan Carlos, irmã de Felipe VI, o atual rei de Espanha, é acusada no caso Nóos. Um magistrado disse ter encontrado indícios de cooperação ou cumplicidade da infanta nos delitos do marido e do seu sócio. Um mês depois a Audiencia de Palma retira a acusação por não encontrar indícios suficientes, mas depois disso avança a acusação popular contra a infanta realizada pelo sindicato Mãos Limpas. A irmã do rei iria sentar-se no banco dos réus, pela primeira vez. O julgamento está a decorrer em Palma de Maiorca. Cristina enfrenta uma pena de prisão de oito anos. Para o marido a procuradoria pede 19 anos.

Caja Madrid
Cartões de crédito fantasmas para usar e abusar

86 diretores e conselheiros da Caja Madrid, entidade financeira resgatada com dinheiro público, gastaram 15,5 milhões de euros em refeições, viagens e compras privadas, através de operações que eram carregadas em contas destinadas a cobrir somente erros do servidor informático. As compras foram feitas durante quase nove anos, durante a liderança de Miguel Blesa e Rodrigo Rato, através dos chamados cartões de crédito "fantasmas". Os montantes recebidos por diretores e conselheiros não eram declarados ao fisco e só houve quatro pessoas que realizaram gastos moderados. Além de Blesa e Rato, na lista estavam outras pessoas como o presidente da confederação patronal CEIM, Arturo Fernández, e Rafael Spottorno, ex-chefe da Casa do Rei, que gastou 15 mil euros em móveis e quase 3 mil euros em Spas e massagens. O uso excessivo dos cartões está a ser julgado. Blesa e Rato (este último ex-diretor do FMI e ex-vice-primeiro-ministro de Espanha) podem levar penas de seis e quatro anos respetivamente.

Operação Taula
Os contratos viciados e a intocável Rita Barberá

A maior operação anticorrupção da atualidade está centrada na Comunidade Valenciana e envolve 80 pessoas, salpicando Rita Barberá, ex--presidente da Câmara Municipal de Valência e membro do PP. Estão em causa contratos viciados, cobrança de comissões, suposto financiamento ilegal do PP valenciano e ainda branqueamento de capitais. Várias administrações públicas recorreram a contratos viciados, ao mesmo tempo em que a Câmara Municipal de Valência supostamente financiava atos eleitorais de forma ilegal. Barberá foi "alcaldesa" de Valência durante 24 anos. O seu nome aparece na investigação do caso mas não pode ser chamada a depor porque é senadora e tem imunidade. Só o Supremo Tribunal pode iniciar uma investigação judicial contra ela. O caso foi desvendado o ano passado e já foram detidas 24 pessoas. Barberá nega desde o início o seu envolvimento no esquema mas os investigadores acreditam que ela era a "chefe". Perante isto, o PP Valência foi dissolvido e tem gestão interina.

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