Referendo ilegal. Guardia Civil detém 14 dirigentes do governo catalão

Presidente do governo regional acusa o governo espanhol de suspender a autonomia da Catalunha e aplicar "estado de exceção"

Agentes da Guardia Civil detiveram esta quarta-feira o secretário-geral do Departamento de Economia catalão, Josep Maria Jové Lladó, na sequência das ações contra o referendo na Catalunha, suspenso pelo Tribunal Constitucional.

Fontes oficiais ligadas investigação disseram à agência EFE que um "grande dispositivo da Guardia Civil" procurava documentação relacionada com o referendo marcado pelos "independentistas" para o dia 01 de outubro.

O jornal El País, que cita fontes policiais, avança que foram detidas, ao todo, 14 pessoas nesta operação, que envolveu 22 buscas. O objetivo da Guardia Civil seria o de desativar o núcleo duro da organização do referendo à independência na Catalunha. A equipa responsável pela organização é coordenada por Oriol Junqueras, o vice-presidente da Catalunha.

Fontes ligadas à investigação disseram à EFE que o número de detenções pode vir a ascender a 17. Entre os detidos encontram-se o número dois da conselheira para a Economia, Josep Maria Jové, o secretário das Finanças, Josep Lluís Salvadó, Josué Sallent Rivas, responsável pelo Centro de Telecomunicações e Tecnologias de Informação (CCTI) e Xavir Puig Farré, do Gabinete dos Assuntos Sociais.

Outros detidos são Paul Furriol e Mercedes Martínez (ambos relacionados com o aluguer de um armazém onde supostamente se encontra 'material eleitoral'), David Franco Martos (CCTI), David Palancad Serrano, do Gabinete de Assuntos Externos e Juan Manuel Gómez, do gabinete do Departamento de Economia e Finanças.

As detenções e as operações de busca foram ordenadas pelo Tribunal de Instrução n.º 13 de Barcelona, no quadro das investigações sobre o eventual uso indevido de fundos públicos nos preparativos do referendo, suspenso por ordem do Tribunal Constitucional.

Os agentes estão a fazer buscas, desde o princípio da manhã, ao gabinete de Joan Salvadó, número dois do Departamento de Economia, no centro da cidade de Barcelona. Os escritórios do Departamento de Economia estão igualmente a ser alvo de buscas, assim como o edifício onde está instalada a Agência Tributária da Generalitat.

Utilizando um grande dispositivo, a Guardia Civil entrou esta manhã na sede do Departamento de Assuntos Externos, que funciona na residência oficial do presidente da região autónoma da Catalunha.

A polícia está igualmente no Departamento de Trabalho e Assuntos Sociais, no Consórcio da Admnistración Abierta, entidade encarregada de facilitar as ferramentas tecnológicas públicas e no CTTI.

Os agentes estão também na residência particular de Joan Ignasi Sanchéz, assessor de Meritexell Borrás, do Departamento de Governação.

Alvo da atenção das autoridades está também a empresa T-Systems, que proporcionou apoio logístico na última consulta na Catalunha e que atualmente tem contratos com a Generalitat, assim como a fundação privada PuntCat, dedicada à gestão de páginas na internet.

Presidente do governo regional fala em "estado de exceção"

O presidente do governo regional da Catalunha, Carles Puigdemont, acusou hoje o Governo espanhol de "suspender de facto" a autonomia da Catalunha e "aplicar um estado de exceção", apelando aos catalães a responderem com "firmeza e serenidade". Puigdemont compareceu no palácio do executivo regional, rodeado dos seus conselheiros, para ler em tom solene uma declaração institucional.

Também o vice-presidente da Catalunha, Oriol Junqueras já reagiu, dizendo que "isto ultrapassa todas as garantias democráticas e é um atentado contra os direitos básicos dos cidadãos". O governante catalão considerou que "isto não se passa em nenhuma democracia do mundo", denunciando a existência de detenções na rua sem a existência de ordem judicial.

No Twitter, repetiu essa ideia: "Estão a atacar as instituições deste país e, portanto, atacam os cidadãos. Não permitiremos isso".

Entretanto, dezenas de pessoas juntaram-se para se manifestar a favor da causa independentista em frente ao edifício que serve de sede ao governo catalão, protestando após as detenções efetuadas na manhã desta quarta-feira.

Rajoy defende que "o Estado tem de reagir"

O chefe de Governo espanhol, Mariano Rajoy, defendeu hoje que "logicamente o Estado tem de reagir", perante o desafio da soberania da Catalunha, o "ignorar da lei" e a atuação contra a Constituição, segundo escreve o La Vanguardia.

"Não há um Estado de direito no mundo que aceite o que estas pessoas estão a propor, foram advertidos, sabiam que o referendo não poderia ser realizado porque isso é liquidar a soberania nacional e o direito que têm todos os espanhóis de decidir o que querem para o seu país", disse, de acordo com a mesma fonte.

Rajoy pediu ao governo catalão, liderado por Carles Puigdemont, que cumpra a lei e volte atrás nesta intenção independentista, que qualificou como "um disparate que não leva a lado nenhum".

O presidente da Generalit convou uma reunião extraordinária do governo catalão.

A Procuradoria Geral de Espanha abriu na semana passada uma investigação mais de 700 presidentes de Câmara da Catalunha por cooperação com o referendo sobre a independência daquela região e ordenou a sua detenção, caso não cooperem.

O procurador-geral, Jose Manuel Maza, ordenou aos procuradores provinciais que investiguem 712 autarcas que já ofereceram instalações municipais para a realização do referendo previsto para dia 01 de outubro, considerado ilegal por Madrid. A procuradoria ordenou aos procuradores que notifiquem esses autarcas da região a comparecerem perante as autoridades judiciais e, caso o autarca não responda, a procuradoria pede que "seja ordenada a sua detenção" para que compareça.

O rei Felipe VI de Espanha garantiu, também há uma semana, que a Constituição "prevalecerá sobre qualquer falha" da "convivência em democracia" e que "os direitos de todos os espanhóis serão preservados" face "aqueles que se colocam fora da legalidade constitucional e estatutária".

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