Sarkozy no banco dos réus por corrupção e tráfico de influências

Advogados do ex-presidente francês dizem que vai recorrer depois de 25 de junho. Escutas feitas no caso al-Kadhafi revelaram alegada tentativa de subornar juiz

Nicolas Sarkozy vai ser julgado por corrupção e tráfico de influências no chamado caso das escutas, avançou ontem o Le Monde. Além do ex-presidente francês, vão sentar-se também no banco dos réus o seu advogado Thierry Herzog e o ex-juiz Gilbert Azibert, conforme pedira o Ministério Público. A notícia surge nove dias depois de o político de direita ter sido detido para interrogatório, em Nanterre, no âmbito de um outro processo, que apesar de separado está ligado a este.
Tudo começou em 2012, quando o site Mediapart publicou documentos que dizia serem do governo líbio e indicavam que a campanha de Nicolas Sarkozy, em 2007, tinha recebido financiamento ilegal do regime de Mummar al-Kadhafi. Essa foi a campanha eleitoral que levou Sarkozy ao Eliseu. Em 2013, o caso começou a ser investigado. Denúncias foram surgindo e os media chegaram ao número de 50 milhões, cinco milhões dos quais transportados em notas.

Foi então que os investigadores puseram sob escuta o telefone do ex-presidente por suspeita de financiamento ilegal da parte do regime de al-Kadhafi (que esteve no poder entre 1969 e 2011). Nesse processo ligado à Líbia, Sarkozy foi acusado, no passado dia 21, de corrupção passiva, financiamento ilegal de campanha eleitoral e receção de fundos estatais líbios. O ex-chefe do Estado ficou sujeito a termo de identidade e residência.

As escutas telefónicas levaram então os investigadores a descobrir conversas entre o ex-presidente e o seu advogado, das quais se depreende que estavam a tentar obter do juiz Azibert informações secretas sobre um outro processo. Nesse investigava-se se Liliane Bettencourt, herdeira do império L"Oreal, também tinha financiado de forma ilegal a campanha de Sarkozy. Algumas dessas conversas foram filtradas para a imprensa e deixavam antever que o presidente estava disposto a ajudar o referido juiz a obter um posto no Mónaco, se este influenciasse, em troca, o Supremo Tribunal no caso Bettencourt.

As escutas foram posteriormente validadas em março de 2016 e isso abriu caminho para o julgamento anunciado esta quinta-feira. Além destes processos, Sarkozy tem ainda pendente um outro julgamento por alegado financiamento ilegal da sua campanha para as presidenciais de 2012, as quais perdeu, para o socialista François Hollande. Este caso é conhecido como Bygmalion, um suposto esquema de falsificação de faturas para ocultar gastos eleitorais e contornar os limites legais. O permitido eram 22,5 milhões. Foram gastos 42,8 milhões.

Reagindo à notícia de ontem sobre o julgamento de Sarkozy, os advogados do ex-chefe do Estado, citados pela agência Reuters, indicaram que ele irá recorrer. "Nicolas Sarkozy irá, calmamente, esperar pelo resultado da decisão sobre o pedido de nulidade [que será analisado no dia 25 de junho]. Ele não duvida de que a verdade irá triunfar uma vez mais", disseram os advogados em comunicado.

Esta não é a primeira vez que um ex-chefe do Estado francês se senta no banco dos réus. O precedente foi aberto por Jacques Chirac - presidente entre 1995 e 2007 - de quem Sarkozy foi ministro do Interior. Chirac, hoje com 85 anos, foi condenado em dezembro de 2011 a dois anos de prisão com pena suspensa. Em causa o processo sobre empregos fictícios no tempo em que era presidente da Câmara de Paris (entre os anos de 1977 e 1995). O ex-presidente francês foi condenado por desvio de fundos públicos e abuso de confiança por ter permitido que 21 pessoas que trabalhavam sobretudo para o seu partido (RPR, ex-UMP e hoje Republicanos) fossem pagos pela autarquia.

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