Sanders e Warren: dupla radical contra os moderados. Mas irão bater Trump?

Senadores do Vermont e do Massachusetts enfrentaram as críticas dos oito adversários na primeira mão do segundo debate entre candidatos à nomeação democrata para as presidenciais de 2020. A segunda, entre outros dez candidatos, tem lugar esta noite, também em Detroit, e transmitido na CNN.

Colocados lado a lado, bem no centro do palco da CNN em Detroit, Bernie Sanders e Elizabeth Warren estiveram no centro de todas as críticas. Mas os senadores do Vermont e do Massachusetts, veteranos da ala mais radical do Partido Democrata, em vez de se atacarem um ao outro, quase fizeram dupla contra as críticas dos oito rivais, muito deles atrás nas sondagens.

Nesta primeira mão do segundo debate entre candidatos à nomeação democrata para as presidenciais de 2020, os primeiros dez candidatos com ambições de destronar Donald Trump da Casa Branca focaram-se sobretudo na reforma da saúde, no comércio, ambiente ou imigração.

"Más políticas" e "promessas impossíveis" foram algumas das acusações lançadas pelo ex-congressista do Maryland Joh Delaney. O empresário, pouco conhecido a nível nacional e que nas sondagens compiladas no site FiveThirtyEight surge com apenas 1% das intenções de voto, foi um dos protagonistas da noite em Detroit, dando o tom aos moderados.

"Os democratas ganham quando apresentam verdadeiras soluções e não promessas impossíveis de realizar. Quando apresentamos propostas realistas e não contos de fada económicos", lançou Delaney a Warren. A senadora, que chegou a ser falada como possível candidata a vice-presidente de Hillary Clinton nas presidenciais de 2016, respondeu: "Não percebo porque alguém se daria ao trabalho de se candidatar a presidente dos EUA apenas para falar daquilo que não conseguimos fazer e pelo qual não devemos lutar. Não percebo. Eu estou disposta a entrar na luta e a ganhá-la".

Com o ex-vice-presidente Joe Biden, o favorito das sondagens, esperado em palco esta madrugada, ficou livre o lugar de voz moderada na primeira mão do debate. E foi esse lugar e esse tempo de antena - tão precioso à medida que o tempo passa, levando inevitavelmente à redução do número de candidatos - que Delaney tentou ocupar.

A divisão neste debate mostra bem o dilema que vive o Partido Democrata. Depois da vitória de Trump em 2016 muito graças ao descontentamento da classe média, os democratas têm agora de decidir se escolhem a via radical, mais liberal, representada por Sanders e Warren, ou se opta por apelar ao centro, à classe média trabalhadora, escolhendo um candidato moderado, como Joe Biden.

Um fosso ideológico na reforma da saúde

A reforma da saúde foi um dos tópicos que revelou as maiores diferenças ideológicas entre os candidatos. No centro do debate esteve a proposta de Sanders de um Medicare para todos, uma espécie de sistema nacional de saúde que muitos dos mais moderados veem como um suicídio político. A proposta de Sanders, apoiada por Warren, esteve na mira de Delaney e do congressista do Ohio Tim Ryan. Os dois homens, que trabalharam ambos no sector da saúde, garantiram que a proposta de Sanders iria prejudicar a classe média, retirando-lhe os benefícios que os patrões neste momento asseguram.

"Sou a única pessoa em palco que conhece este negócio. Fiz as contas e não bate certo", afirmou Delaney. Ao que Sanders retorquiu: "Talvez tenha feito e tenha ganhado dinheiro com a saúde, mas a nossa função é garantir um sistema de saúde sem fins lucrativos".

"Sou a única pessoa em palco que conhece este negócio. Fiz as contas e não bate certo"

Warren também defendeu o acesso de todos à saúde, sublinhando que os democratas "não estão a tentar os seguros de saúde a ninguém" e apelou aos adversários para "deixarem de usar os argumentos dos republicanos".

Descriminalizar a entrada de ilegais?

Outro assunto que dividiu os candidatos foi a crise na fronteira entre os EUA e o México. E se o ex-congressista estadual do Texas Beto O'Rourke e o mayor de South Bend, no Indiana, Pete Buttigieg, defenderam a mudança das políticas de imigração, mas com a entrada de ilegais nos EUA a continuar a ser crime, Sanders e Warren voltaram a fazer dupla para descriminalizar a entrada de pessoas sem documentos no país.

"Já vi as mães, já vi as crianças mantidas em gaiolas. Temos de ser um país que todos os dias respeita os seus valores e isso significa que não pode ser um crime quando alguém entra nos EUA", explicou Warren.

Os mais discretos penalizados

Num debate deste género, com tantos candidatos em palco, os mais discretos acabaram por ficar mais na sombra. Se muitos esperavam que Sanders e Warren entrassem em choque, foi o contrário que aconteceu. Mesmo se a senadora do Massachusetts parece ser quem saiu melhor desta noite. Vamos ver se as próximas sondagens confirmam que está a ultrapassar o senador do Vermont e rival derrotado por Hillary Clinton nas primárias de 2016.

Além de Delaney, clara surpresa da noite, também Tim Ryan e o governador do Montana, Steve Bullock, assumiram a liderança dos moderados, liderando as críticas a Sanders e Warren.

Os restantes candidatos - Buttigieg, O'Rourke, a senadora do Minnesota Amy Klobuchar, o ex-governador do Colorado John Hickenlooper e a escritora e guia espiritual Marianne Williamson - ficaram muitas vezes esquecidos.

Ao terceiro debate, em setembro, só passarão os que tiverem mais de 2% em pelo menos quatro sondagens nacionais

Esta noite, as atenções irão centrar-se em Biden, que volta a enfrentar a senadora da Califórnia Kamala Harris em palco, depois do frente-a-frente entre os dois no primeiro debate. Esta é também a última oportunidade para muitos dos "pequenos" candidatos brilharem. Ao terceiro debate, em setembro, só passarão os que tiverem mais de 2% em pelo menos quatro sondagens nacionais. Uma fasquia que promete reduzir o número de candidatos e lançar alguma luz sobre qual deles vai ser o rival de Trump nas presidenciais de novembro de 2020.

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