Sánchez recusa ultimato mas não fecha a porta a Iglesias

Secretário-geral socialista não aceita parar as negociações com o Ciudadanos para dialogar em exclusivo com o Podemos. PP insiste em querer antecipar o debate de investidura

No jogo de póquer entre Pedro Sánchez e Pablo Iglesias, o líder socialista cobriu ontem a aposta do dirigente do Podemos, pagando para ver as últimas cartas na mesa e perceber qual dos dois conseguirá continuar a fazer bluff. Depois de há duas semanas ter exigido vários cargos num eventual governo do PSOE, incluindo o de vice-primeiro-ministro para si, Iglesias exigiu ontem a Sánchez que escolha entre negociar com o Podemos ou continuar a dialogar com o Ciudadanos. O secretário-geral socialista recusou o ultimato, sem contudo fechar a porta ao terceiro partido mais votado nas eleições de 20 de dezembro.

"Iglesias propôs uma negociação exclusiva e excludente e o PSOE defende uma negociação plural aberta a todas as forças políticas", disse Sánchez após o encontro de uma hora e um quarto com Iglesias. "Há coisas que nos separam a todos, mas há uma que nos une - pôr fim ao governo de Mariano Rajoy e do Partido Popular (PP)", referiu o líder socialista, pedindo a Iglesias que reconsidere a posição. De contrário, "terá de explicar aos eleitores do Podemos porque vota com o PP contra um governo progressista".

Há coisas que nos separam a todos, mas há uma que nos une - pôr fim ao governo de Mariano Rajoy e do PP

O Podemos (69 deputados) recusa apoiar um executivo socialista (90 deputados) que tenha o aval do Ciudadanos (40 deputados), mesmo que Albert Rivera não entre no governo. E o Partido Popular (123 deputados) já avisou que votará contra qualquer solução que tenha Sánchez como primeiro--ministro. Podemos e PP têm juntos os votos necessários para travar a eventual aliança entre PSOE e Ciudadanos. O partido de Rivera também é contra a entrada do Podemos no acordo, defendendo que deve ser o PP o terceiro partido a garantir a investidura.

"Penso que Sánchez prefere um governo connosco em vez das direitas", afirmou Iglesias depois do encontro, negando querer novas eleições. "Se o PSOE continua a pensar que pode virar à direita ao mesmo tempo que coloca a outra opção, nós não estamos de acordo", explicou o líder do Podemos, justificando o ultimato. "Negociar com o Ciudadanos é negociar em diferido com o PP. Só há duas opções de governo. A grande coligação ou o governo de progresso", lembrou.

Sánchez mantém contudo a porta aberta ao Podemos, à espera de um recuo que permita a sua participação num programa de governo "progressista e de mudança". Na opinião do líder socialista, não houve uma rutura nas negociações já que estas nunca começaram. E deixa o aviso: "Querer é poder e o Podemos parece que não quer." Iglesias recusa nomear uma equipa de negociadores para falar com o PSOE, mas disse que manterá o contacto com Sánchez. "Combinámos falar com mais frequência."

O líder do Podemos diz que está a "mostrar paciência" e prometeu ser um vice-primeiro-ministro "leal" e disposto a "defender" Sánchez. O líder socialista não exclui a hipótese de lhe entregar o cargo, mas primeiro quer negociar um programa com o número máximo de forças políticas e só depois pensar na composição do executivo.

Ao contrário do Podemos, o Compromís (seu aliado valenciano) vai negociar com o PSOE - tal como a Esquerda Unida (que Iglesias quer incluir no seu acordo de governo). O primeiro partido tem quatro deputados e o segundo tem apenas dois. Sánchez reúne-se hoje com o Partido Nacionalista Basco (seis deputados), esperando que este também se una às negociações.

Propostas do Ciudadanos

O partido de Rivera começou ontem o diálogo com a equipa de negociadores do PSOE, liderada pelo porta-voz socialista no Congresso, Antonio Hernando. Este anunciou que na segunda-feira tornará público o novo programa de governo, que enviará para os outros partidos, depois de ter dito haver "vontade real" de acordo com o Ciudadanos. Ontem, este partido transmitiu ao PSOE os seus "objetivos prioritários" para esta legislatura, que incluem o contrato único (que Sánchez criticou na campanha), um pacto nacional pela educação e uma reforma territorial que assegure a "igualdade real" entre todos os espanhóis.

Debate de investidura

Sánchez pediu ao presidente da Mesa do Congresso, Patxi López, um prazo de três semanas a um mês para negociar um acordo. Mas o PP não quer dar esse prazo e pediu ontem para que o debate de investidura seja marcado para dia 22. "O PP agora tem pressa em que eu seja investido presidente. Não deixa de ser curioso que aqueles que permitiram esta situação de bloqueio ponham agora uma data limite de escassas semanas", disse o líder socialista. A decisão final cabe a López.

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