Sakharov para oposição venezuelana dividida

Galardão do Parlamento Europeu chega depois de as eleições para governadores terem revelado fraturas dentro da aliança opositora

Dois anos depois de ter ficado entre os finalistas, a oposição democrática venezuelana é desta vez a galardoada com o Prémio Sakharov para a Liberdade de Pensamento, entregue pelo Parlamento Europeu. Mas, ao contrário de 2015 quando a oposição ao presidente Nicolás Maduro seguia unida para aquela que seria uma vitória histórica nas legislativas, agora o prémio chega numa altura em que os opositores reunidos na Mesa de Unidade Democrática (MUD) estão mais divididos do que nunca, depois das eleições regionais ganhas pelo chavismo.

"Este prémio não representa só um reconhecimento à valente resistência da oposição democrática. Este Parlamento quer manifestar a sua proximidade e prestar homenagem a todo o povo venezuelano", disse o presidente do Parlamento Europeu, Antonio Tajani. "Agora, mais do que nunca, devem permanecer unidos e não se render face às manipulações de Nicolás Maduro", afirmou a vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos do Parlamento Europeu, Beatriz Becerra, do grupo dos liberais do ALDE, que juntamente com a direita e o centro-direita do PPE propôs a oposição venezuelana para o Sakharov.

"É uma honra receber o Prémio Sakharov em nome de toda a Venezuela, é um reconhecimento da comunidade internacional ao nosso povo", escreveu o presidente da Assembleia Nacional, Júlio Borges, no Twitter. O galardão distingue precisamente a Assembleia Nacional e os presos políticos incluídos na lista do Fórum Penal Venezuelano, representados, entre outros, por Leopoldo López e Antonio Ledezma.

Criada em 2008 como uma aliança opositora contra o então presidente Hugo Chávez, a MUD perdeu por pouco as presidenciais contra Maduro em 2013. Depois, surgiram as primeiras divisões, com dirigentes como López ou Ledezma a liderar as manifestações a exigir a renúncia do presidente, que acabariam com a morte de 43 pessoas. Os políticos acabaram atrás das grades (atualmente estão em prisão domiciliária), passando ao lado da maior vitória eleitoral de sempre: nas legislativas de dezembro de 2015.

Com a maioria absoluta na Assembleia, a oposição procurou organizar um referendo para afastar Maduro. Mas o choque institucional com o poder judiciário, dominado pelo chavismo, impossibilitou a consulta e retirou poder aos deputados. Após vários meses de manifestações diárias, que deixaram mais de 125 mortos e 391 presos políticos, a oposição não conseguiu travar a Assembleia Constituinte entretanto convocada pelo presidente e boicotada pela MUD.

As ruas calaram-se e, sob a mediação do Vaticano, o governo sentou-se a dialogar (sem sucesso) com parte da oposição. As divisões agravaram-se com as regionais para eleger os 23 governadores do país, com alguns dos partidos da MUD a apelar à abstenção e outros a resolver participar. No escrutínio, marcado pelas denúncias de irregularidades, o chavismo conseguiu conquistar 18 dos 23 cargos em disputa.

Maduro obrigou os cinco governadores opositores a jurar diante da Assembleia Constituinte - que a MUD não reconhece. Só um, Juan Pablo Guanipa (eleito pelo estado de Zulia pelo Primeiro Justiça de Henrique Capriles), recusou fazê-lo e foi por isso afastado do cargo. Os outros quatro, do partido de Henry Ramos Allup, cederam. Como consequência, Capriles anunciou a saída da MUD. A fragmentação complicará a situação da oposição no caminho para as municipais (que devem realizar-se até ao final do ano) e das presidenciais de 2018.

O Prémio Sakharov, no valor de 50 mil euros, será entregue a 13 de dezembro, em Estrasburgo. No ano passado, as galardoadas foram duas ativistas yazidi, Nadia Murad e Lamiya Bashar, ex-escravas sexuais do grupo Estado Islâmico. Os finalistas deste ano eram a ativista guatemalteca Aura Lolita Chávez Ixcaquic, ecologista, e o jornalista sueco-eritreu Dawit Isaak, preso desde 2011.

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