Rússia. Vida milionária de assessor de Putin e da mulher sob suspeita

Dmitry Peskov, o porta-voz do presidente russo, e a sua mulher, Tatiana Navka, uma ex-bailarina, acumularam um património de mais de dez milhões de euros e estão a planear a construção de um palácio à beira-rio.

A ostentação de riqueza do casal russo Tatiana Navka e Dmitry Peskov, ele porta-voz para a imprensa de Vladimir Putin, está na mira da oposição russa, que quer saber qual a origem dos rendimentos - um património imobiliária avaliado em mais de dez milhões de euros.

Uma investigação publicada nesta quarta-feira pelo jornal britânico The Guardian revela os negócios milionários do casal e as relações de proximidade com empresários ligados a Donald Trump, o presidente norte-americano. O possível favorecimento do casal, e consequente enriquecimento, pelo facto de ser próximo de Putin, está a ser questionado.

O mais recente plano conhecido do casal é um palácio à beira-rio, numa propriedade exclusiva de Moscovo. Segundo o The Guardian - que contou nesta investigação com um grupo independente russo de designado Dossier Center -, o projeto está a ser supervisionado por um magnata russo que já teve negócios com Trump.

O estilo de vida do porta-voz de Putin e da sua mulher tem sido severamente criticado pela oposição, desde o casamento de ambos, em 2015, que contou com inúmeras celebridades. Tatiana Navka foi campeã de dança no gelo e ganhou uma medalha de ouros nos Jogos Olímpicos de Inverno, em 2006. Apesar de ser cidadã russa, viveu e treinou durante mais de dez anos nos Estados Unidos.

Embora tenham rendimentos próprios significativos, os documentos recolhidos pelo Dossier Center revelam que os gastos do casal são muito superiores às posses declaradas.

Nos últimos quatro anos, Navka tem comprado propriedades em zonas de elite, uma das quais na mesma área onde reside o próprio presidente russo, em Rublyovka.

Os documentos a que o The Guardian teve acesso, mostram que Navka conseguiu comprar este terreno a preço muito abaixo dos valores de mercado, indiciando favorecimento. O vendedor pertencia a uma fundação criada por Alisher Usmanov, um dos mais poderosos e politicamente influentes oligarcas da Rússia. Usmanov era até recentemente um dos principais acionistas do Arsenal Football Club e em 2018 o oitavo homem mais rico do Reino Unido.

Em resposta ao The Guardian, alegou que comprou a propriedade ao "preço de mercado, numa altura em que os valores dos imóveis começaram em queda". Navka frisou que trabalha "há muito tempo", ganha "dinheiro" e paga os "impostos". "Tudo o resto são assuntos pessoais", assinalou, negando que tivesse, ou o seu marido, "relações comerciais" com algum "grande empresário" da Rússia.

O seu novo projeto, para construir uma mansão numa região para ultra-ricos em Moscovo - com praia privativa e campo de golfe - envolve o magnata Aras Agalarov. Os documentos recolhidos pelo "Dossier Center" mostram que em 2017 o casal contratou uma firma de arquitetos americanos, Zampolin & Associates, com sede em Westwood, New Jersey.

A proposta de Zampolin para o palácio incide sobre 2400 metros quadrados, com entrada separada para os empregados, piscina, SPA, sauna, salão e uma biblioteca. O projeto estava pronto em meados de 2018. Contudo, até à semana passada, não havia ainda sinal de obras.

Desde que ganhou o ouro olímpico, Tatiana Navka já desfrutou de ofertas lucrativas na televisão e publicidade. A propriedade de Rubylovka terá sido comprada com um empréstimo privado sobre o preço total. Questionada pelo The Guardian sobre este empréstimo, respondeu: "Não tem nada a ver com isso".

Tatiana Navka abriu nessa altura três contas na Suíça, segundo os documentos do "Dossier Center", em dólares, rublos e euros. Criou também uma empresa offshore nas Ilhas Virgens Britânicas, conhecido paraíso fiscal. Essa empresa, Carina Global Assets, foi identificada na fuga dos Panama Papers.

Entre as outras propriedades de luxo de Navka, estão um apartamento do distrito central de Yakimanka, em Moscovo, avaliado em quatro milhões de euros, oferecido pelo Estado como homenagem pelo seu desempenho desportivo.

Tem também um apartamento, avaliado em dois milhões de euros, em Polyanka, um subúrbio de Moscovo. Em 2015 conseguiu também ficar com o arrendamento de um imóvel do Estado, por 49 anos, onde iria criar uma pista de gelo e uma arena desportiva. O projeto nunca avançou. Tem também um pequeno apartamento no resort da Crimeia de Yalta.

O casal tem filhos de anteriores relacionamentos anteriores e uma filha de ambos. Entre os destinos das últimas férias estão as Maldivas, o Dubai e a estação de esqui francesa de Courchevel.

O líder da oposição a Putin, Alexei Navalny, já pediu ao Kremil que examine a discrepância entre e os rendimentos oficiais de Peskiv e os seus gastos ostensivos, mas sem sucesso. Uma tese que tem corrido é que Navka terá beneficiado das ligações do marido aos oligarcas russos que apoiam Putin.

Anteriormente, Navalny alegou que Usmanov (o da fundação que vendeu uma das propriedades a Navka a preço abaixo do mercado) usou a sua Fundação para oferecer a Dmitry Medvedev, o primeiro-ministro russo, uma mega-villa avaliada em 85 milhões de euros, na área de Moscovo. Usmanov nega.

Peskov é confidente de Putin há 20 anos e é considerado uma das pessoas mais poderosas da Rússia. Esteve envolvido em conversações sobre um acordo de propriedade em Moscovo, com o ex-advogado de Trump, Michael Cohen, que admitiu ter mentido sobre os planos de construir uma Trump Tower em Moscovo.

Peskov e Agalarov são visados no dossiê compilado pelo ex-oficial do MI6, Christopher Steele, no qual é alegado que o Kremlin tem material comprometedor sobre Trump, parte dele supostamente recolhido durante a visita de Trump em 2013 a Moscovo para o concurso Miss Universo. Agalarov hospedou Trump e pagou-lhe cerca de 14 milhões de dólares em honorários por participar do programa.

Este relatório diz que Peskov fazia parte do plano de Moscovo para influenciar as eleições norte-americanas a favor de Trump.