Um Salazar polaco? Não, só catolicismo e absoluta arrogância

Jaroslaw Kaczynski manda sem ser presidente ou primeiro-ministro. Estilo messiânico assusta oposição, Bruxelas e mercados

No seu gabinete num moderno edifício envidraçado do coração de Varsóvia, a curta caminhada do gigantesco Palácio da Cultura oferecido por Estaline ao regime comunista, Boguslaw Chrabota bebe um chá enquanto garante que "não vem aí nenhuma ditadura", muito menos um Salazar, como já se falou nalguns media polacos. O que não significa que o diretor do 'Rzeczpospolita' não esteja preocupado com os efeitos do "estilo agressivo" do governo liderado por Beata Szydlo mas controlado por Jaroslaw Kaczynski, antigo primeiro-ministro, irmão do presidente que morreu em 2010 num acidente de avião e atual chefe do partido Direito e Justiça (PiS).

"Preocupa-me o futuro da economia. Foram demasiadas promessas na campanha, desde os 500 zlotys por filho até aos medicamentos para os mais velhos, e o dinheiro tem de vir de algum lado. Por isso os novos impostos para os bancos e as lojas", sublinha Chrabota, apontando o gráfico na primeira página que mostra os 3,6% de crescimento em 2015, invejado Europa fora.

Há empresas portuguesas também na mira: o Millennium, cujos balcões em tom grená são omnipresentes, e a Jerónimo Martins, dona dos supermercados Biedronka. "Existe a ideia de que as empresas estrangeiras, sobretudo alemãs, contribuem pouco e o PiS, que junta conservadorismo moral a preocupação social, rentabilizou nas urnas o preconceito", afirma Piotr Wilczek, professor da Universidade de Varsóvia, situada perto desse rio Vístula que divide a Polónia em duas, com a mais tradicionalista a ser a metade sul e oriental, na qual o PiS em outubro alicerçou a sua maioria absoluta.

Reacionarismo do PiS

Wilczek não tem dúvidas em destacar o "reacionarismo" do PiS, que na campanha contou com o apoio da Rádio Maria, próxima da Igreja. E sabendo o papel histórico dos bispos para preservar a alma nacional, fosse quando o país desapareceu entre 1795 e 1918 fosse no tempo do bloco soviético, reconhece que a simpatia da hierarquia católica vale votos. Mas o que mais o incomoda é "a arrogância com que falam e o primitivismo das ações". E dá o exemplo dos desafios à União Europeia mas sobretudo dos escândalos com a nomeação dos juízes do Tribunal Constitucional e das mudanças na chefia da televisão pública. "No fundo, fizeram o mesmo que todos, e no caso dos juízes até há culpas da Plataforma Cívica [PO], os de antes, mas agora é pouco subtil."

Tal como Chrabota, também Wilczek ouviu a comparação com Salazar. Foi lançada por duas figuras, o ex-senador Joséf Pinion e o chefe da Fundação Batory, Aleksander Smolar. O antigo exilado político explicou ao DN o contexto: "Comparei Kaczynski não só com Salazar como com Franco. Não no sentido de vir a tornar-se um ditador, mas sim pela defesa do conservadorismo católico e pelo isolacionismo." Smolar admite que o preocupa que o PiS chame "líder do Estado" a Kaczinsky, mesmo que o presidente seja Andrzej Duda, seu delfim, tal como Szydlo. "Podemos suspeitar que tem desejo de ser ditador, mas só isso. Na Polónia continua a haver democracia."

Defesa da democracia

Sentada no café Sara, no velho bairro judaico de Cracóvia, Elzbieta Pitlarz confessa ter "medo de uma ditadura". E por isso esta historiadora da arte foi fundadora dos Comités de Defesa da Democracia (KOD), que promovem manifestações. Nasceram na internet, organizaram-se e, como diz Pitlarz, "inspirámo-nos nos Comités de Defesa dos Trabalhadores que nos anos 1970 exigiam aos comunistas que respeitassem a sua própria Constituição". O primeiro protesto foi em Varsóvia a 19 de dezembro, depois noutras cidades. "Se o PiS respeitar a lei, aceitamos o governo. Mas não gosto de os ver a usar as técnicas de propaganda do comunismo. E estão a destruir a economia. Se a União Europeia decretar sanções, quem sofre é o povo, não Kaczynski."

Os comités não recusam o apoio de ninguém, mas preferem não estar associados a partidos, explica um sociólogo de Cracóvia, para quem há também uma justificação para o escasso número de jovens nos protestos (o que levou o PiS a dizer que são queixas de gente bem instalada): "Quem conheceu o comunismo sabe o que vale a democracia. Quem já nasceu depois de 1989, e do triunfo do Solidariedade, acha tudo certo, talvez mudem se um dia censurarem a internet." Mesmo assim, o académico também recusa falar da chegada de uma ditadura, o que é diferente dos tiques de autoritarismo do PiS. E nota que se a maioria absoluta (obtida com 37% dos votos) lhes reforçou a autoconfianca, por outro lado "têm manifestado grande incompetência técnica". Um exemplo são os 500 zlotys por bebé, uns 120 euros mensais, que o sociólogo até acha bem para contrariar a quebra da natalidade: "É para todos ou não? Vai para qual dos pais se forem divorciados? Afasta as mulheres do mercado de trabalho? Quanto custará?"

Na casa no bairro de Ursynow, "pequena como todas em Varsóvia", Mariana Biela ajuda Marta a adormecer. Tem dias e veio juntar-se a Teresa de 7 anos e Mateus de 4. Para a tradutora portuguesa casada com um polaco, aquilo que ouviu do PiS até é positivo, como os 500 zlotys. O marido, Stanislaw, que diz identificar-se com o partido nas questões morais, contesta porém a fórmula: "Porque em vez de me darem dinheiro, não me descontam nos impostos?" No seu círculo de amigos há mesmo quem veja o lobby dos liberais da PO nos ataques ao PiS vindos de Bruxelas. E a forma como a primeira-ministra respondeu à União Europeia tem sido elogiada, até por uma revista que faz capa com Szydlo e põe como título "xeque-mate".

Quem não acredita numa rutura com a União Europeia é Chrabota. "Kaczynski sabe que o progresso da Polónia deve-se muito aos fundos de coesão. "A raison d"État obriga-o a seguir as regras europeias, mesmo que não goste. Vai, porém, contrariar o federalismo e opor-se à moeda única e aos refugiados", sublinha este diretor de um jornal que defende a Polónia no euro.

Zloty contra euro

Sobre a manutenção do zloty nenhuma novidade no horizonte, diz Ryszard Kokoszczynski. "É uma forte convicção a moeda nacional, que no entanto não impede que nas sondagens uns 70% apoiem a União Europeia", sublinha o administrador do Banco da Polónia. Com a ajuda da desvalorização do zloty, a economia polaca passou ao lado da crise, crescendo 28% desde 2008. Já António Castro, a viver na Polónia há 18 anos, vê como segredo deste sucesso o próprio povo, que é "trabalhador, resistente, empreendedor e pronto para aprender". Nota o dirigente da Câmara de Comércio Polónia-Portugal que "há uma nova classe jovem muito bem preparada".

É manifesto exagero então a denúncia de deriva autoritária? Depende. A Standard & Poor"s degradou a nota da Polónia e outras agências de rating podem seguir o exemplo, alerta Chrabota. Como nota Andrejz Celinski, que foi ministro da Cultura num governo de esquerda, "a Polónia está a perder tempo e energia". Ideias partilhadas por Ligia Krajewska. Mas mais do que com a economia é com a própria democracia que a ex-deputada da PO está preocupada: "O ataque contra o Tribunal Constitucional, a aprovação de leis que ameaçam a liberdade civil, a politização dos meios de comunicação social públicos, a Justiça, a liquidação duma administração apolítica, tudo isto leva-nos na direção de uma ditadura." Só faltou a comparação com Salazar.

Enviado especial a Varsóvia

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