Rádio Caracas continua a resistir apesar da suspensão de emissão do regime

A Rádio Caracas continua a emitir, mas através da Internet, com canais no Youtube, Twitter, Periscope e Tune In.

"Resistir, resistir, resistir" foram as palavras transmitidas pelo diretor da Rádio Caracas Rádio aos populares que se juntaram, terça-feira à tarde, frente às instalações em solidariedade com o órgão cujas emissões foram suspensas no dia 30 pelo regime de Maduro.

Jaime Nestares, o diretor da Rádio Caracas Rádio, a mais antiga da Venezuela (nasceu a 12 de dezembro de 1930) e que foi suspensa no dia 30 de abril, não se deixou abater com a suspensão das emissões, no dia em que transmitiu o ato político de Juan Guaidó junto às instalações militares de Carlota.

Afirma que não o surpreende, depois de em 2017 a RCR TV (do mesmo grupo empresarial) ter sido igualmente encerrada, "numa grave violação do direito à informação mas que também resultou no fim de mais de mil postos de trabalho".

A suspensão das emissões aconteceu no dia em que o presidente da Assembleia Nacional se apresentou com Leopoldo Lopez e alguns militares apontando para uma mudança de regime. Funcionários da Conatel (Comissão Nacional de Telecomunicações) chegaram às instalações e invocaram que a licença, que datava de 2007, estava caducada.

"Uma desculpa, a verdade é que o governo não quer que contemos o que acontece na Venezuela todos os dias, incomoda-lhes muito que defendamos a liberdade de expressão", considerou o jornalista.

"12 anos depois é que se lembraram que estava caducada a licença?", ironiza o diretor da rádio que na rua diz para os simpatizantes e apoiantes da rádio: "Vivemos uma contínua violação dos direitos humanos na Venezuela".

No momento da suspensão Nestares colocou no Twitter: "Este é um ato de força e de censura, mas chegaram muito tarde, rapidamente voltaremos a estar no ar".

A verdade é que no dia de hoje, uma semana após a suspensão do sinal radiofónico, a Rádio Caracas continua a emitir, mas através da Internet, com canais no Youtube, Twitter, Periscope e Tune In.

Fazer rádio diariamente

Os 42 trabalhadores da rádio continuam a fazer rádio diariamente tal qual faziam antes.

"Somos uma emissora que não retira os microfones ao povo, que ouve as pessoas, e reiteramos esse propósito", disse.

E os sinais são muito positivos. As audiências apontam para 45 mil pessoas por programa a assistirem às emissões da Rádio Caracas Rádio.

A razão, para Jaime, é simples, "as pessoas querem informação livre, num país onde há poucas opções de informação livre".

No dia-a-dia da redação, o acesso à informação oficial é praticamente impossível. "Não nos deixam entrar no Palácio de Miraflores (Maduro), nem nos ministérios, todas as fontes de informação do Estado estão fechadas".

Porque se trata de "um governo que não admite a crítica e nós somos jornalistas que queremos contar o que os outros não querem que se saiba".

"Continuamos com as nossas equipas a trabalhar sempre com o mesmo objetivo, na Internet, com os nossos repórteres a informar e opinar. Continuaremos. Não nos rendemos", diz o jornalista.

Para todos os apoiantes da rádio que se encontravam na rua a gritar palavras de ordem a favor da liberdade de expressão, Jaime disse que todos têm de "continuar juntos e agrupados, e procurar formas de luta e sobretudo maneiras de resistir e aguentar. Um governo que tem 87% de pessoas que o detestam, que não lhes dá eletricidade, água, alimentos, medicamentos é difícil de continuar no poder".

Pressão sobre os órgãos de comunicação

O sistema de pressão sobre os órgãos de comunicação é grande, e Jaime afirma que alguns órgãos, para sobreviver, aceitam as regras e já fazem autocensura. Nós não fazemos isso. Vamos continuar a fugir à propaganda do regime".

Sobre o futuro acha difícil que Nicolás Maduro consiga permanecer muito mais tempo no poder: "Um governo que não te dá trabalho, é difícil continuar. A não ser que te salte em cima com mais violência. A pergunta é: Vão matar todos, ou vão embora? Eu espero que vão embora o mais depressa possível".

Jaime termina a conversa com a Lusa dizendo: "Temos medo? Sim, claro que temos. Mas só há duas opções, ou deixar que te amedrontem ou lutar contra o medo. Nós lutamos".

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