Kelly deixa sonho do "el dorado" e regressa ao Brasil "mais endividada"

A Organização Internacional para as Migrações recebeu, desde janeiro, 219 pedidos de imigrantes em Portugal que querem voltar aos seu país

Kelly Silave chegou a Portugal em 2017, com uma filha, atraída pelo sonho do "el dorado" passado nas redes sociais e nos contos "de amigas", mas a realidade levou-a a regressar ao Brasil, o seu país, "mais endividada".

O seu pedido de retorno voluntário foi um dos novos 219 recebidos pela Organização Internacional para as Migrações, desde janeiro deste ano até agora, dos quais 92% (201) são de cidadãos brasileiros, mantendo-se a tendência de crescimento verificada em 2018, explicou à Lusa Luís Carrasquinho, um dos responsáveis da organização em Lisboa.

Porém, Kelly desistiu de esperar pela ajuda da OIM e com o apoio de familiares conseguiu pagar a viagem dela e da filha Rafaela, agora com 12 anos, e regressou ao Brasil em março, confirmou à Lusa o responsável daquela organização.

Com apenas 12 anos, Rafaela levou a imagem de um país "com muitos velhos" e Kelly transportou as marcas do trabalho ilegal, por vezes sem salário, da exploração praticada pelos seus próprios compatriotas e por portugueses, que aproveitam as vulnerabilidades de pessoas como ela, de acordo com o que contou à Lusa.

Kelly regressou ao Brasil "mais endividada", como admitiu na conversa ainda na casa que alugou em Portugal, localizada nos arredores da Costa da Caparica, longe de qualquer centralidade, reconhecendo que o recomeço não será fácil.

Porém, volta novamente com a esperança numa vida melhor para Rafaela, que espera colocar na escola militar no Brasil.

"Porque lá eu tinha uma vida diferente da que eu tenho aqui. Eu tinha um salão de manicure, só mexia com unha, tinha a minha casa e ainda tenho"

"Porque lá eu tinha uma vida diferente da que eu tenho aqui. Eu tinha um salão de manicure, só mexia com unha, tinha a minha casa e ainda tenho. Então se eu voltar vou continuar de onde vim", afirmou à Lusa.

Por cá, nestes quase dois anos, nem conseguiu matricular a filha numa escola portuguesa, por causa de um papel que lhe era exigido, passado pela junta de freguesia da área a comprovar a sua residência. Isto obrigava a ter duas testemunhas do local onde morava, coisa que Kelly não conseguiu. "Eu fui atrás dos vizinhos e eles não quiseram ser testemunhas", relatou.

Por conta disso, Rafaela viveu quase dois anos em casa, numa rua onde quase só moram idosos, onde nunca via crianças, entre paredes manchadas de negro pela humidade, a limpar a casa e a estudar, e quando era preciso, saía à rua para ir ao supermercado mais próximo.

"Eu penso que tem um pouco de velho aqui. Eu não vejo muita criança. Aqui, só tem idoso"

Por isso, quando a Lusa lhe perguntou que imagem levava de Portugal, respondeu: "Eu penso que tem um pouco de velho aqui. Eu não vejo muita criança. Aqui, só tem idoso".

Apesar disto, no ano passado, Rafaela ainda conseguiu ir fazer o exame à escola e passar do quarto para o quinto ano, com boas notas, conta a mãe.

A "má aventura" que mãe e filha viveram, começou em conversas com uma amiga de uma amiga de Kelly, que já vivia em Portugal, reforçadas pelas imagens e vivências que outros brasileiros colocam nas redes sociais.

A Kelly foi dito que "em Portugal é que era bom, que aqui se ganhava 1.500 euros por mês, que aqui tinha segurança e boa escola para a Rafaela", ao mesmo tempo que prometia ajudá-la quando chegasse, contou à Lusa.

"Fui-me entusiasmando com aquilo e comecei a pesquisar no Youtube e no Facebook", relatou Kelly, acrescentando: "Aí comecei a ver só a parte boa. Porque ali não se vê a parte ruim".

Quanto à amiga da amiga, foi a primeira desilusão que teve em Lisboa.

"Quando cheguei aqui (...) fui procurar ela e ela mal falou comigo. Ficou por isso mesmo. Daí eu comecei a me virar sozinha", contou.

Um salão de cabeleireiro de um brasileiro, onde entrava às nove da manhã mas não tinha horário para sair, foi o primeiro emprego que conseguiu em Portugal, como manicure, o mesmo trabalho que tinha no Brasil, mas que não lhe dava para pagar as contas.

Decidiu então mudar para um outro salão em Algés, também de brasileiros, onde era suposto ganhar 400 euros em duas semanas, mas o que lhe foi pago foi 111 euros. Como reclamou, a patroa ameaçou-a de que chamaria a polícia. "Fiquei com medo e vim para casa", relatou.

Através de uma empresa conseguiu outro trabalho a cuidar de idosos, mas repetiu-se o despedimento sem salário do mês respetivo e novas ameaças de chamada à polícia, relatou.

"Só dá para ficar mais endividada"

Em vésperas de regressar ao Brasil, Kelly, a trabalhar numa outra empresa de apoio domiciliário a idosos, ganhava 640 euros, para pagar só de renda de casa 345 euros. O passe eram mais 50 euros. "Só dá para ficar mais endividada", admitiu.

No Brasil, no seu salão, antes de emigrar, tirava cerca de mil euros mês, menos 500 euros do que lhe diziam poder ganhar em Portugal.

E nem sequer a segurança foi fator que pesasse na sua decisão de emigrar para Portugal. "Curitiba é um lugar bom para viver", afirmou.

Já a questão política teve algum peso. Mas "agora, lá já mudou o Governo e eu daqui de fora já vejo que lá está melhorando", considerou.

"Vou sem nada", confessou, com a desilusão no olhar.

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