Relações Londres-Moscovo "não estão num bom plano"

Uma conferência de imprensa com tanto de humor como de picardias selou a visita do MNE britânico Boris Johnson ao congénere russo Sergei Lavrov

Trataram-se pelo primeiro nome, tentaram fazer humor e encontrar objetivos em comum. Mas o único ponto em que os ministros dos Negócios Estrangeiros da Rússia e Reino Unido concordaram é que as relações entre ambos os países está muito longe de ser positiva. "As relações não estão num bom plano, essa é a desgraça", reconheceu Boris Johnson, numa conferência de imprensa carregada de farpas entre os dois dirigentes e na qual o inglês pediu para a Rússia parar de interferir no Ocidente.

A viagem de Johnson a Moscovo foi a primeira em cinco anos de um responsável britânico. Ucrânia, Síria e ciberguerra são alguns dos dossiês que apartaram o Reino Unido de uma Rússia em deriva nacionalista e autoritária. "Não é segredo que as relações não são boas. Vocês preferem falar das divergências em público, nós preferimos fazê-lo cara a cara", disse Sergei Lavrov. Começou então o pingue-pongue: "Apesar das dificuldades entre nós, como o Sergei diz corretamente, há sinais de progresso económico", dando de seguida o exemplo das exportações de batatas fritas e de 300 carros de luxo neste ano. "Acredito que nem todos para funcionários dos Negócios Estrangeiros." Lavrov acusou o toque e sacudiu para o Ocidente a responsabilidade das más relações.

No cargo há 13 anos, Lavrov lembrou uma série de declarações públicas "agressivas e insultuosas" que antecederam a visita do dirigente britânico. O próprio Boris Johnson, em entrevista ao Times, comparou a Rússia a Esparta, "fechada, detestável, militarista e antidemocrática". Mais tarde corrigiu as afirmações: explicou que se referia à União Soviética.

O ministro russo usou a sua experiência para lembrar que Johnson declarara "não haver provas de que Moscovo tenha interferido no referendo do brexit". "De forma bem-sucedida foi o que eu disse", interrompeu de forma brusca o antigo mayor de Londres. "Ele tem medo de que a sua reputação fique arruinada no seu país se não discordar comigo", retorquiu o russo, para Johnson dar o troco de imediato, ao recordar que há provas da interferência russa nas eleições alemãs e norte-americanas: "Sergei, é com a sua reputação que eu estou preocupado."

Embora os dois políticos tenham passado a maior parte da conferência de imprensa conjunta a trocar acusações, ambos mostraram otimismo quanto à cooperação em assuntos específicos, caso do Conselho de Segurança das Nações Unidas, da Coreia do Norte, do Irão, e em acordos de segurança relativos ao campeonato do mundo de futebol, que vai decorrer no próximo ano na Rússia. No campo da segurança, o russo queixou-se de falta de cooperação das autoridades britânicas para com o FSB (ex-KGB).

Confiança é a palavra-chave e foi isso que, a dado ponto, Johnson disse sobre a relação com Lavrov, citando Ronald Reagan sobre Mikhail Gorbachev: "Confia, mas verifica." Gracejou de seguida ao dizer que a sua confiança é tão grande que quando chegou ao ministério entregou o seu casaco a Lavrov "com tudo nos bolsos, secreto ou não". Em mais um momento inesperado, Lavrov entrou no jogo ao dizer que "não havia nada nos bolsos do casaco do Boris", ao que este perguntou: "Então já o revistaram?"

A visita de Boris Johnson a Moscovo incluiu a deposição de flores no memorial do opositor Boris Nemtsov (assassinado em 2015), um encontro com ativistas, e um discurso na Universidade de Plekhanov. Johnson não esqueceu os direitos das minorias, ao lembrar casos de tortura de gays na Chechénia.

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