Redoshi. A última sobrevivente do tráfico negreiro para os EUA

Investigadora da Universidade de Newcastle encontrou registo de uma mulher falecida em 1937, que foi raptada na costa de África e levada para os Estados Unidos em 1860, cinco anos antes da abolição da escravatura

Chamava-se Redoshi. Ou lembrava-se que era assim que lhe chamavam em criança, na aldeia situada no que é hoje o Benim, onde levava uma vida "em paz" que acabou aos 12 anos. Com essa idade Redoshi foi raptada, vendida a traficantes, e levada para os Estados Unidos num dos últimos barcos negreiros que fez a travessia do Atlântico levando escravos da costa africana para o território norte-americano.

Uma investigadora da Universidade de Newcastle, Hanna Durkin, chegou agora ao nome e à história de Redoshi - ou Sally Smith, como viria a ser "rebatizada" nos EUA - apontando-a como a sobrevivente (identificada) mais tardia do tráfico de escravos a partir da costa de África: morreu em 1937, na mesma plantação do Alabama para onde tinha sido levada como escrava, 77 anos antes.

Recuando essas quase oito décadas, corria o ano de 1860 quando a criança raptada de África chegou aos EUA. A escravatura não haveria de durar muito mais no estado do Alabama, para onde foi levada Redoshi - que passaria a chamar-se Sally Smith, o apelido do banqueiro que a comprou e que era também dono de uma plantação. Em 1862, o presidente norte-americano Abraham Lincoln decretou a liberdade dos escravos na chamada Proclamação de Emancipação. Mas a medida, adotada em plena Guerra Civil, só se tornaria efetiva no país em dezembro de 1965, em resultado da 13.ª Emenda à Constituição - "Não haverá, nos Estados Unidos ou em qualquer lugar sujeito a sua jurisdição, nem escravidão, nem trabalhos forçados, salvo como punição de um crime pelo qual o réu tenha sido devidamente condenado".

"É apenas uma voz, mas dá-nos uma ideia das outras vozes que se perderam"

Apesar da libertação em 1865, a jovem africana permaneceu sempre na plantação para onde tinha sido levada, com o marido - também ele trazido à força de África - e uma filha.

Hanna Durkin, a investigadora da Universidade de Newcastle, chegou à história de Redoshi através de censos, arquivos, mas também de registos que ficaram das primeiras décadas do século XX, quando historiadores e ativistas dos direitos civis começaram a documentar as histórias das pessoas levadas para os Estados Unidos e forçadas à escravatura. É destes arquivos que vem a memória da própria de uma vida em paz, em África, até ter sido raptada por membros de uma tribo vizinha e vendida como escrava. Terá enfrentado espancamentos, chicotadas, terá assistido a mortes. Segundo a investigação de Hanna Durkin, Redoshi manteve até ao fim a sua identidade e cultura africanas, e passou para a filha resquícios da sua língua materna.

"É apenas uma voz, mas dá-nos uma ideia das outras vozes que se perderam", afirmou a investigadora, citada pela BBC.

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