Rajoy garante em tribunal que nada sabia das finanças do PP

Primeiro-ministro espanhol garantiu que não sabia do saco azul do partido e que nunca se reuniu com Francisco Correa, o líder do esquema de corrupção no caso Gürtel

O momento foi inédito. Pela primeira vez na história da democracia espanhola, um primeiro-ministro, ainda para mais em exercício, deslocou-se ao tribunal para ser ouvido como testemunha num gigantesco caso de corrupção que envolve o seu partido. Mariano Rajoy, chefe de governo e presidente do Partido Popular, esteve ontem na Audiência Nacional para ser inquirido no âmbito do chamado Caso Gürtel.

Para o El Mundo, Rajoy "saiu vivo do tribunal, mais pelas perguntas dos advogados de acusação do que pelas suas próprias respostas". O primeiro-ministro, assinala o El País, chegou à audiência com um objetivo claro: "não dar a imagem de querer esconder-se na falta de memória". Foram várias as ocasiões em que Rajoy usou a expressão "lembro-me perfeitamente".

Ainda assim, o presidente do PP argumentou várias vezes que sempre se ocupou apenas das questões políticas relacionadas com a atividade dos populares e que os detalhes económicos nunca passaram pelas suas mãos. Rajoy garantiu também que nunca tivera conhecimento da famosa "caixa B", uma espécie de saco azul para o qual eram canalizados alegados subornos vindos de particulares e empresas em troca de favores públicos. "Jamais me ocupei dos temas de contabilidade", frisou. "Não sei nada de contas, só tive conhecimento quando foi publicado nos meios de comunicação social, por isso não há nada que possa aportar, não sei nada desse assunto, francamente", afirmou noutro momento da audiência.

O primeiro-ministro entrou no tribunal pela garagem, o que evitou que tivesse que caminhar pelo passeio, seguido pelas câmaras de televisão. Eram 300 os jornalistas acreditados para assistir à sessão. No interior do edifício, tal como explica o El País, foi, por "cortesia institucional", recebido por José Ramón Navarro, presidente da Audiência Nacional, o tribunal encarregado de investigar e julgar o Caso Gürtel. A sessão começou quase à hora marcada, tendo arrancado às 10.05, com apenas cinco minutos de atraso. Terminaria às 11.56.

Ao contrário do que tem acontecido ao longo das outras mais de 100 sessões do julgamento, a testemunha Mariano Rajoy não ficou de frente para os juízes, mas sim ao seu lado, de frente para a sala. "A colocação de Rajoy, não perante a lei, mas sim num à parte, foi decisiva para desdramatizar o momento e transformar a sala num estúdio de televisão", pode ler-se no El País. Habituado a debates, discursos e entrevistas, o primeiro-ministro espanhol mostrou-se tranquilo e em alguns momentos decidiu jogar ao ataque. "Se calhar está a confundir a testemunha" ou "não me parece um raciocínio brilhante" foram duas tiradas com que brindou José Mariano Benítez, da Associação de Advogados Democratas da Europa.

"Não convenceu a ninguém de nada", resume o El País, "mas a verdade é que nunca o apanharam". Quando questionado sobre as mensagens escritas que trocou com Luís Bárcenas, ex-tesoureiro do PP, Rajoy desvalorizou o assunto. "Não tem nenhum significado. Nenhum", respondeu sobre um SMS para Bárcenas que dizia: "Luis, não é nada fácil, mas fazemos o que podemos". Wilfredo Jurado, advogado do PSOE de Madrid, quis saber mais sobre o texto. "O que estava a fazer?", perguntou Rajoy foi lacónico. "Fazemos o que podemos significa exatamente fazemos o que podemos. Significa que não fazemos nada que possa prejudicar nenhum processo". O primeiro-ministro espanhol também garantiu que nunca teve qualquer tipo de relação com Francisco Correa, o cabecilha da trama de corrupção do Caso Gürtel: "Nunca foi ao meu escritório nem a qualquer reunião, porque eu não me ocupava de questões económicas, mas sim políticas. Se o conhecia era de cumprimentá-lo em atos partidários e mesmo isso não posso assegurar de forma nítida".

Pedro Sánchez, líder do PSOE, o principal partido da oposição, exigiu ontem a demissão de Rajoy. Seria, explicou o socialista, uma forma de "pôr fim à sua agonia antes que agonizem as instituições". Pablo Iglesias, do Podemos, quer que o chefe do governo compareça no Parlamento para dar explicações.

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