Rajoy aceita ir à investidura. PSOE admite castigar quem não se abstiver

Debate de investidura começa hoje e sábado, o mais tardar, Rajoy será reconduzido primeiro-ministro. Líder interino do PSOE, Javier Fernández, garante que abstenção não é cheque em branco e não promete aprovar Orçamento

Se não houver nada em contrário, Mariano Rajoy será investido primeiro-ministro no sábado, pondo fim ao impasse político em que Espanha mergulhou há dez meses. O líder do Partido Popular e primeiro-ministro em funções aceitou ontem o convite feito pelo rei Felipe VI no sentido de se apresentar ao debate de investidura, que começará hoje à tarde. Segue-se a primeira votação, amanhã, na qual Rajoy precisa de maioria absoluta de deputados. Que não tem. Não obtendo logo luz verde, segue-se a segunda votação. E aí já só precisa de maioria simples.

"Aceitei submeter-me à confiança do Parlamento. Estou consciente das dificuldades, mas Espanha precisa de um governo", disse Rajoy depois de se reunir com o rei. "A minha vontade é a de que a legislatura dure quatro anos". Felipe VI terminou ontem a sua ronda de consultas pelos partidos, destinada a perceber se há ou não condições para se formar governo. Na votação da investidura o líder do PP espera poder contar com o voto favorável dos deputados do Ciudadanos e a abstenção dos do PSOE. Porém, alguns eleitos socialistas estarão apostados em violar a disciplina de voto decidida no último comité federal do partido, no sábado, deixando no ar, até ao fim, o resultado da votação da investidura.

"Transmiti ao rei que o grupo socialista se vai abster. Não entrei em pormenores sobre se será abstenção técnica ou em bloco. Como aprovado no comité federal, votaremos contra na primeira votação, abster-nos-emos na segunda", disse o presidente da Comissão Gestora do PSOE, Javier Fernández, que está encarregue de administrar o partido desde que Pedro Sánchez se demitiu de secretário-geral (por defender o voto contra dos 85 deputados socialistas a um novo governo do PP e de Rajoy). Se isso acontecesse o país iria para aquelas que seriam as terceiras eleições legislativas em dez meses (as primeiras foram a 20 de dezembro e as segundas a 26 de junho).

"Espero que o Partido Socialista da Catalunha vote em consonância com o decidido no comité federal", avisou Javier Fernández, reagindo à intenção expressa do líder dos socialistas catalães, Miquel Iceta, de que os seus sete deputados vão votar contra a investidura de Rajoy. Após notícias que davam conta da possibilidade de o PSOE expulsar os eleitos que violem a disciplina de voto decidida no comité federal, Javier Fernández admitiu a possibilidade mas sem dramatizar. "Não estamos a contemplar ações contra a hipotética desobediência ao mandato do comité federal. O que nos cabe é persuadir todos para que não tomem essa decisão. Oxalá não tenhamos que tomar nenhuma medida", declarou o político que é também presidente do governo das Astúrias.

O El País publicou ontem gravações realizadas durante o comité federal de sábado do PSOE, cujo conteúdo ilustra bem as divisões patentes no partido. "Quanto tempo gastámos a demonizar uns contra os outros, quanta energia, quantos insulto entre nós. Se fosse por alguns partidos, estaríamos a fazer mais eleições, umas terceiras, umas quartas ou umas quintas, até se considerar que o sistema de que desfrutamos desde a Transição afinal não serve. Eu, como socialista, não partilho disto", declarou a presidente da Andaluzia Susana Díaz. "Comprometemo-nos hoje com um fôlego momentâneo pelo preço de nos afogarmos no futuro", declarou, por seu lado, o líder dos socialistas bascos Patxi López, defensor do voto contra Rajoy.

Apesar da abstenção, Javier Fernández avisou ontem que esta não é um cheque em branco a Rajoy e prometeu uma oposição forte. "Não contemplamos proporcionar estabilidade ao governo. Não contemplamos aprovar o Orçamento do Estado com o PP. Há outros partidos com que pode contar, pois não necessita de uma maioria absoluta para fazê-lo, apenas de uma maioria simples". O primeiro-ministro em funções, por seu lado, prometeu diálogo com o PSOE. "Não falei com Javier Fernández sobre as resoluções do PSOE. O que tentarei fazer é falar com ele para ver como podemos governar. Tentarei falar com Fernández e os líderes de outras forças dispostas ao compromisso", disse o líder do PP, que elegeu 137 deputados.

Do lado dos outros partidos ontem ouvidos pelo rei Felipe VI, o líder do Ciudadanos, Albert Rivera, confirmou que os seus 32 deputados votarão favoravelmente à investidura de Rajoy. "O Ciudadanos vai colaborar no desbloqueio. Depois de quase um ano de tempo perdido todos temos de aprender. Queremos fechar a etapa do não é não", disse Rivera, afirmando esperar que o próximo governo de Rajoy cumpra parte das 150 medidas negociadas com o PP. Rivera tem posto o foco muito na questão da luta contra a corrupção e na reforma da educação.

O líder do Podemos, partido que em junho concorreu coligado com a Esquerda Unida na coligação Unidos Podemos, não poupou críticas ao Ciudadanos e ao PSOE. "O que há é uma tripla aliança que vai permitir que o PP continue a governar", afirmou Pablo Iglesias, declarando que os seus 71 deputados serão a única oposição agora. O dirigente do Podemos classificou a investidura de Rajoy como "inequivocamente histórica".

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