Químico usado no ataque a ex-espião só pode ser encontrado na Rússia

Essa é a convicção de um ex-oficial do Exército Britânico e especialista em armas químicas. O agente tóxico chama-se Novichok e foi desenvolvido entre 1971 e 1973 por Petr Kirpichev, um cientista russo

O químico que envenenou o ex-espião russo, Sergei Skripal e a sua filha, em Salisbury, no Reino Unido, é originário de Shikhany, na Rússia. A afirmação foi feita por Hamish de Bretton-Gordon, ex-oficial do Exército Britânico e especialista em armas químicas. Segundo Bretton-Gordon, o agente tóxico foi desenvolvido e produzido em Shikhany, onde está sediado um edifício de pesquisa militar, uma informação patente num relatório russo apresentado há vários anos ao órgão internacional que monitora armas químicas, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ).

O Governo britânico pediu à OPAQ que investigasse o uso do Novichok na tentativa de assassinato do ex-espião russo Sergei Skripal e da sua filha Yulia, a 4 de março. Theresa May disse esta quarta-feira que o governo do Reino Unido estava a trabalhar com a polícia "para permitir que a OPAQ verifique [a informação] independentemente da nossa análise".

O governo do Reino Unido espera que a organização visite a Rússia para ver se há stock de Novichok e, uma vez que se prove que existe, supervisionar a sua destruição. Se a Rússia insistir que não tem o agente químico guardado, o caso pode levar a "um impasse internacional e a uma disputa diplomática nas Nações Unidas", escreve o The Guardian, que avança com a notícia.

Bretton-Gordon disse ainda que Shikhany era o único local para o desenvolvimento e produção de Novichok, descartando indicações de que o químico poderia ser encontrado em outros lugares da antiga União Soviética, como a Ucrânia e o Uzbequistão.

A afirmação de Bretton-Gordon sobre Shikhany é apoiada por Vil Mirzayanov, um ex-químico russo que trabalhou no programa Novichok antes de desertar para os EUA. No seu livro, "State Secrets: An Insider's Chronicle of Russian Chemical Weapons Program", lê-se que o Novichok foi desenvolvido entre 1971 e 1973 por Petr Kirpichev, cientista sénior em Skikhany.

Apesar da informação da primeira-ministra britânica, a OPCW disse ao The Guardian, através de um e-mail, que a instituição "não tem informações sobre o caso".

A OTAN expressou profunda preocupação com aquele que descreve "como o primeiro uso ofensivo de agente nervoso no território de um membro da OTAN desde a sua fundação após a II Guerra Mundial" e solicitou à Rússia que "aborde as questões do Reino Unido, incluindo a divulgação completa do programa de Novichok à Organização para a Proibição de Armas Químicas".

Entretanto, esta quinta-feira, os países Aliados - França, Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido - emitiram uma declaração conjunta sobre o ataque com o agente químico ao ex-espião russo e à sua filha, alegando que a responsabilidade russa no caso é a "única explicação plausível".

No documentos, os líderes dos quatro países condenam o "primeiro uso ofensivo de um agente nervoso na Europa desde a Segunda Guerra Mundial", chamando-o de "assalto à soberania do Reino Unido", de acordo com a BBC.

Ontem, o Reino Unido informou que vai expulsar 23 diplomatas russos do país na sequência do incidente. No entanto, uma pista criminosa não pode ser descartada, dizem especialistas no assunto.

"Não há outra conclusão além daquela de que o Estado russo é culpado" pela tentativa de assassínio do antigo agente duplo Sergei Skripal e da sua filha no dia 4 de março.

As palavras da primeira-ministra Theresa May no Parlamento foram acompanhadas do anúncio de medidas para enviar uma "mensagem clara" à Federação Russa. A expulsão de 23 diplomatas - a maior em 30 anos - é uma das ações tomadas pelo governo britânico. Se o agente tóxico é de origem russa, a responsabilidade é de Moscovo. Para Theresa May é um axioma - tão óbvio que não precisa de ser demonstrado. Mas será assim?

No fim da Guerra Fria e com a derrocada da União Soviética algumas substâncias tóxicas e respetivo know-how podem ter passado para as mãos de criminosos. "Não descartaria essa possibilidade, especialmente uma pequena quantidade e, em particular, tendo em conta quão laxista era a segurança nas instalações químicas russas no início da década de 1990", comenta à Reuters Amy Smithson, especialista em armas biológicas e químicas.

Em 1995, o banqueiro russo Ivan Kivelidi e a sua secretária foram envenenados com uma toxina fornecida por um funcionário de um instituto de investigação química.

Armazenados em condições adequadas e misturadas agora, os ingredientes ainda poderiam ser mortais num ataque em pequena escala, disseram dois especialistas em armas químicas à Reuters .

Em resultado do contingente formado por mais de 250 agentes de contraterrorismo e 180 militares destacados para investigar o caso, foi revelado que os Skripal foram envenenados com o agente nervoso Novichok criado na União Soviética. Perante este dado, as autoridades britânicas levantaram duas hipóteses. Ou o Estado russo estava envolvido na tentativa de eliminação do antigo coronel - julgado e condenado na Rússia por ter revelado identidades de agentes secretos a operar na Europa -, ou o Estado russo perdera, a certa altura, o controlo desta substância proibida.

Perante a dúvida, o ministro Boris Johnson comunicou ao embaixador russo em Londres que teria até terça-feira à noite para dar explicações. As autoridades russas recusaram responder no prazo imposto pelos britânicos. O ministro dos Negócios Estrangeiros russo Sergei Lavrov disse que a resposta só seria dada através dos canais próprios, e após pedido oficial. Lembrou que a Convenção sobre a Proibição de Armas Químicas (CPAQ) estabelece um prazo de dez dias para responder. O diplomata, que se queixa de uma "campanha russófoba", exigiu uma amostra do veneno usado em Salisbury para análise laboratorial.

Ontem, na Câmara dos Comuns, a chefe do governo lamentou a ausência de explicações, mas também o tom de "sarcasmo, desprezo e desafio" por parte dos dirigentes russos. De seguida anunciou as primeiras medidas a tomar. Os 23 diplomatas, ou "agentes não declarados", têm uma semana para sair de solo britânico. A maior expulsão de russos desde o fim da Guerra Fria é uma retaliação que May acredita "reduzir as capacidades dos serviços de informações russos" nas ilhas britânicas.

As outras medidas da resposta "completa e robusta" passam por cancelar a visita do ministro Sergei Lavrov a Londres, bem como suspender todos os contactos de alto nível entre os dois países. Ministros e membros da família real não irão ao campeonato mundial de futebol, que se realiza em junho e julho na Rússia. As medidas de segurança relacionadas com os voos privados serão aumentadas, bem como nas alfândegas.

No ar paira a ameaça de que ativos do Estado russo podem ser congelados a qualquer momento, caso existam provas de que podem ser usados contra cidadãos ou residentes no Reino Unido. Outras medidas poderão ser tomadas. Nova legislação contra "atividades de Estados hostis" está em estudo.

"Inaceitável, injustificado e míope", respondeu a embaixada russa em Londres.

Já a embaixadora britânica em Lisboa relevou a importância do sucedido para o Ocidente. "Este incidente não é apenas uma questão bilateral. Tem repercussões para os outros países da União Europeia e para a segurança europeia. Foi um ataque em que um Estado usou uma arma química proibida contra outro Estado e, o que é mais grave, foi a primeira vez desde a II Guerra Mundial que um agente nervoso foi usado de forma hostil na Europa. A Rússia tem de ser responsabilizada pela violação de acordos internacionais sobre segurança e não proliferação", declarou Kirsty Hayes.

Também o Ministério dos Negócios Estrangeiros reagiu ao caso, tendo expressado "forte solidariedade para com o Reino Unido", e condenado "veementemente" o "ato absolutamente inaceitável em qualquer circunstância e em total desrespeito pelas leis internacionais e pelo qual os seus autores devem ser responsabilizados".

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