Quatro horas para chegar ao trabalho? Bem-vindos a Manila

Alejandro sai de casa duas horas e meia antes de começar a trabalhar, para evitar chegar atrasado. Janice sai quatro horas antes e Oliver, como já chegou várias vezes atrasado, já perdeu parte do ordenado.

São 3.30 da manhã nas Filipinas e grande parte de San Jose Del Monte está ainda a dormir. De lanterna na mão, o varredor Alejandro Galasao, de 58 anos, navega por um labirinto de ruelas até à rua principal para apanhar um autocarro até à capital Manila, a 30 km de distância. Tem que acordar a meio da noite para chegar a horas ao trabalho, que só começa às 6.00.

O trânsito é tão mau em Manila que se sair mais tarde não conseguirá chegar a horas. "Se for trabalhar à hora de ponta, demoro três horas", disse Galasao à Reuters. "Este é o único trabalho que conheço. Mesmo que encontre outra coisa, duvido que consiga ganhar mais". acrescentou.

A área metropolitana de Manila, um conjunto de 16 cidades que estão fundidas por velhas infraestruturas, está a desabar sob o peso de milhões de veículos, em parte devido ao crescimento económico de mais de seis por cento ao ano desde 2012.

A cobertura ferroviária urbana é limitada, os comboios têm tendência a quebrar e as filas chegam às ruas onde os fumos dos escapes são intoxicantes.

A qualidade de vida é pobre para muitos filipinos que vivem na cidade e passam uma grande parte do dia nas deslocações para o trabalho.

Janice Sarad trabalha num banco e sai de casa quatro horas antes de começar a trabalhar em Bonifacio Global City, um dos centros de negócios de Manila.

Num dia típico, Sarad, de 22 anos, apanha o comboio, um autocarro e dois carros de passageiros para chegar ao trabalho. "De manhã, é ainda mais difícil a viagem por causa da pressão para não chegar tarde. Temos mesmo que lutar para entrar", afirmou.

Um estudo de 2015 da app de navegação por GPS Waze concluiu que Manila tinha os piores congestionamentos de tráfico do mundo, em parte por causa do triplicar das vendas anuais de carros, quando comparado com há uma década.

Oliver Emocling, de 23 anos, viaja de comboio, mas as filas são tão longas que muitas vezes chega tarde ao trabalho e, como punição, tem perdido parte do ordenado. "Quando chego a casa já são 22.00", disse Emocling, que trabalha numa revista. "Podia estar a usar esse tempo para dormir mais, descansar mais. Em vez disso, perco o meu tempo."

A perda diária de negócios em Manila devido ao tráfego aumentou de 2,4 mil milhões de pesos (40,6 milhões de euros) em 2012 para para 3,5 mil milhões de pesos (59,3 milhões de euros) em 2017, segundo a Agência de Cooperação Internacional Japonesa.

O presidente Rodrigo Duterte disse na semana passada que solucionar os problemas de trânsito de Manila não é fácil, indicando que é a única promessa de campanha que não conseguiu cumprir.

Recentemente, aprovou uma lei que encoraja as empresas a apoiar mais funcionários a trabalhar de casa.

O governo está a fazer progressos num programa de 180 mil milhões de dólares para modernizar estradas, caminhos-de-ferro e aeroportos, incluindo a construção de um sistema de metro que começou a ser construído esta semana.

Contudo, os trabalhos de construção estão a aumentar os engarrafamentos.

Ferdinand Tan, de 53 anos, que dá palestras sobre coo gerir a riqueza, deixa os seus funcionários trabalharem a partir de casa e modificou a sua carrinha para enfrentar o trânsito, transformando-a num gabinete móvel com tomadas de eletricidade, computados e até um massajador de pés.

"Ninguém pode na realidade solucionar o problema do trânsito. Por isso, em vez de me queixar, procuro maximizar o meu tempo", contou. "Uso tempo improdutivo para ser produtivo."

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