"Quando estas crianças quiserem voltar para a Síria pode haver uma geração perdida"

A Associação de Solidariedade com os Migrantes e Requerentes de Asilo (ASAM) abriu recentemente cinco centros de apoio à infância e às famílias, em parceria com a UNICEF. O coordenador, Ibrahim Kavlak, avisa que a educação é uma "emergência na vida das crianças".

Qual a importância de garantir educação a estas crianças?

A educação é talvez uma das questões mais importantes. Há um milhão de crianças em idade escolar, apenas metade tem acesso à escola, e um mês ou seis meses, sem fazer nada, podem ser muito tempo na vida de uma pessoa. Quando estas crianças quiserem voltar para a Síria, pode haver uma geração perdida, e se não tiverem acesso à escola, pode haver outros problemas como o casamento ou o trabalho infantil ou serem vítimas de violência sexual e de género. Por isso, há centros de educação temporários e escolas turcas para os sírios, mas, infelizmente, não há escolas nem professores suficientes. Existem alguns projetos, como os do Banco Mundial e da UNICEF, para abrir novas escolas para os sírios. O Ministério da Educação turco tem agora um departamento especial para a educação dos refugiados sírios. Podemos dizer que é uma emergência na vida das crianças, por vezes mais importante do que as necessidades básicas. É uma forma de socialização e também de terapia, num período traumático. Por exemplo, há muitas crianças que ainda receiam um ataque aéreo quando ouvem os aviões no Aeroporto Ataturk, aqui em Istambul. Estão muito traumatizadas e a educação pode ajudar. Portanto, talvez os turcos devessem criar um novo sistema educativo, específico para os refugiados, para aumentar a capacidade física das escolas, com mais professores, talvez um novo currículo para os sírios, com um treino vocacional. As necessidades são urgentes, porque, até agora, a resposta social foi dirigida sobretudo para os campos, para a alimentação e o alojamento. Agora, é tempo de criar algo para o futuro, a médio e longo prazo.

Um dos riscos da falta de escolaridade é o casamento infantil. É um problema que está a aumentar?

Sim, o casamento é uma oportunidade para as famílias reduzirem o número de pratos para o jantar. No início de 2016, tínhamos um ou dois casamentos por mês, mas no final do ano eram três ou quatro por semana. É um tema sensível nestas comunidades. Há muitas crianças a pedir esmola, a dormir nas ruas ou a trabalhar nas fábricas têxteis. Por vezes, é apenas a mulher que trabalha ou são famílias sem pai e marido. A composição das famílias está a mudar e as crianças são testemunhas disso. Por isso, organizámos, por exemplo, um grupo de música, criámos um conservatório para os refugiados, temos agora um grupo de teatro para crianças refugiadas. Há um pianista sírio, um virtuoso e um dos melhores do mundo, que está a dar concertos noutros países. Se não lhes dermos oportunidades, não saberemos até onde poderão chegar.

A Turquia está a receber dinheiro da União Europeia desde o acordo no ano passado. Isso é suficiente?

Na verdade, não chega. Vamos imaginar que a Turquia oferecia três mil milhões de euros a um dos países europeus, mais três milhões de refugiados. Acho que nenhum país aceitaria isso. Há consequências sociais, pode haver uma violação dos direitos humanos, há efeitos económicos, legais e sociais. Dar dinheiro e fechar os olhos não é a abordagem correta. Acho que depois de março, quando o tempo melhorar, podem chegar aqui mais refugiados. Portanto, o acordo com a UE não é um sucesso. Devido à posição estratégica e geográfica, a Turquia vai enfrentar sempre uma vaga de migrantes e refugiados. Devia haver uma distribuição do fardo, porque esta é uma questão crucial para o resto do mundo."

Em Sanliurfa e Istambul
(Turquia)

Jornalista da TSF.
Viajou a convite do Centro Europeu de Jornalismo e Comissão Europeia

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