Qatar recusa ultimato para romper com Teerão e fechar base turca e Al Jazeera

Emirado tem dez dias para cumprir exigências da Arábia Saudita, Bahrein, Egito e Emirados Árabes Unidos. Doha já tornou claro que não aceita o ultimato.

Encerramento da base militar turca no Qatar; restrição ao caráter comercial das relações com o Irão e expulsão de nacionais deste país ligados aos Guardas da Revolução; encerramento da estação televisiva Al Jazeera e todos os outros meios de comunicação apoiados pelo emirado; entrega de toda a informação relativa ao apoio a grupos de oposição no mundo árabe; pagamento de indemnizações às vítimas da política externa do Qatar; extradição de todos os indivíduos que constam das listas de terroristas elaboradas pela Arábia Saudita, Bahrein, Egito e Emirados Árabes Unidos (EAU) e também das autoridades de Washington e de listas de organizações internacionais. Estas são as principais das 13 exigências feitas ontem pelos quatro países acima referidas naquilo que constitui um duro ultimato ao Qatar.

A referência à Turquia deve-se ao facto de Ancara se ter colocado desde o início da crise ao lado do Qatar, tendo, inclusive, reforçado o contingente militar que tem no emirado.

O governo de Doha tem dez dias para cumprir todas as exigências feitas, mas o seu ministro dos Negócios Estrangeiros, xeque Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, tornou claro que isso não irá suceder. Numa entrevista ao canal em árabe da France 24, o ministro qatari declarou que o emirado rejeita quaisquer "exigências estrangeiras" e está fora de questão "discutir o que quer que seja relacionado com a Al Jazeera. Esta é uma questão interna". Al Thani garantiu ainda que o Qatar é parte da coligação internacional que combate o Estado Islâmico e não apoia "qualquer grupo terrorista".

No ar desde 1996, a Al Jazeera depressa se tornou extremamente popular entre as audiências dos países do Golfo e do mundo árabe por veicular opiniões críticas das oficiais num clima político geralmente rarefeito. A estação é também apontada pela forma como acompanhou os movimentos de contestação de 2011 conhecidos como Primavera Árabe. Para os detratores e, em particular, para os governos dos países autores do ultimato de ontem, a Al Jazeera é um instrumento da estratégia do Qatar.

Num comunicado, a Al Jazeera considerou que a exigência dos quatro países "é uma tentativa para silenciar a liberdade de expressão" e exige que os "governos respeitem a liberdade dos media", não embarcando em "ações de intimidação, ameaças ou na criação de um clima de medo".

O ultimato ontem apresentado ao Qatar é o episódio mais recente de uma crise formalmente desencadeada no passado dia 5 quando os quatro países em questão cortaram relações diplomáticas com o Qatar, que acusam de patrocinar grupos terroristas, cultivar uma relação próxima com o Irão e desestabilizar a região do Golfo. Uma acusação subscrita pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, país que tem no emirado a sua principal base militar na região e que firmou, no último dia 14, um acordo para a venda 36 F-15 por 12 mil milhões de dólares no quadro de um programa de cooperação militar no valor total de 21 mil milhões de dólares.

Um porta-voz do Departamento de Estado declarou ontem à televisão CBS que a Administração Trump estava "perplexa" pelo tempo que decorreu desde o início da crise até à formulação do ultimato, cujo texto teria sido elaborado por diplomatas sauditas e dos EAU, segundo aquela estação, que cita fontes americanas.

Na próxima semana, Mohammed bin Abdulrahman Al Thani, o MNE do Qatar, estará em Washington para contactos com o presidente Trump e o secretário de Estado Rex Tillerson numa tentativa de encontrar uma solução diplomática para a crise. Esta está a ser interpretada pelos analistas, principalmente, como uma competição entre os principais poderes na região, uma Arábia Saudita que é a maior produtora mundial de petróleo e o Qatar, principal produtor mundial de gás natural e país de maior PIB/per capita. Para James F. Jeffrey, do Washington Institute of Near East Policy, "os pecados do Qatar não são diminutos, mas no que respeita a apoiar grupos extremistas (...), não há grande diferença entre os grupos que eles apoiam e os apoiados pelos EAU, pelos sauditas ou pelos turcos". Para o diretor para o Médio Oriente e Norte de África do International Crisis Group, Joost Hiltermann, "os sauditas e os EAU têm as suas razões para pressionarem o Qatar", que de facto se distanciou da orientação geral do Conselho de Cooperação do Golfo (que, além do emirado, integra a Arábia Saudita, Bahrein, EAU, Koweit e Omã), "mas estão divididos, o que reduz a eficácia das suas ameaças". De facto, se a fraseologia do ultimato é dura, não são explicitadas quais as consequências do não acatamento.

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