Putin cancela voos e dá força à hipótese de atentado terrorista

Secretas intercetaram conversas de jihadistas sobre alegada bomba no porão e caixa negra parece confirmá-lo

O presidente russo, Vladimir Putin, suspendeu ontem todos os voos da Rússia para a estância balnear egípcia de Sharm el-Sheikh. A decisão de Moscovo dá crédito às suspeitas das autoridades britânicas e norte-americanas de que o Estado Islâmico foi o responsável pela queda, há uma semana, de um avião da Metrojet no Sinai, matando todas as 224 pessoas a bordo. As suspeitas surgem depois de os serviços de informações desses dois países terem intercetado conversas de alegados militantes do grupo jihadista em que se insinua que uma bomba teria sido colocada no porão do aparelho.

"A teoria da existência de um engenho explosivo, com cumplicidade local, está a ser considerada seriamente. Nada está ainda provado, mas existe uma possibilidade real", afirmou à Reuters um responsável europeu, sob anonimato, depois de ter sido informado por uma secreta ocidental. "Eles acreditam que o que o Daesh [Estado Islâmico] está a dizer pode ser credível", acrescentou.

Um grupo local ligado aos jihadistas que controlam parte do território iraquiano e sírio reivindicou em duas ocasiões diferentes o abate do aparelho, dizendo atuar em represália pela ação russa contra o Estado Islâmico na Síria. Segundo uma fonte citada pela BBC, o engenho explosivo terá sido colocado no porão, dentro ou por cima da bagagem, pouco antes da descolagem. Isso implicaria o envolvimento de algum funcionário do aeroporto ou de alguém com acesso ao aparelho.

Putin ordenou a suspensão de todos os voos russos para a estância balnear depois de uma recomendação nesse sentido do líder da FSB (sucessor do KGB). "Até sabermos as verdadeiras razões sobre o que aconteceu, considero oportuno suspender os voos russos para o Egito", disse Alexander Bortnikov. O Kremlin deixou claro, porém, que isso não significa que haja certeza de que a queda foi resultado de ataque terrorista.

Na véspera, Moscovo considerara apressada a decisão do Reino Unido de cancelar os voos para Sharm el-Sheikh, lembrando que a investigação às causas da queda do avião, 25 minutos após descolar em direção a São Petersburgo, ainda estavam a decorrer.

A análise às caixas negras do aparelho começou na quarta-feira. Ontem, a AFP citava uma fonte próxima da investigação para dizer que os primeiros testes confirmam o carácter "violento e rápido" dos acontecimentos que levaram à queda do aparelho. "Tudo estava normal, absolutamente normal durante o voo, e de repente não há mais nada", indicou a mesma fonte.

Turistas retidos

Segundo a agência de Turismo estatal da Rússia, estão cerca de 45 mil russos na estância egípcia no mar Vermelho. A estes somam-se os cerca de 19 mil britânicos, que ontem começaram a regressar aos poucos a casa - numa operação considerada "altamente complexa" pelo governo de David Cameron. Não haverá turistas portugueses retidos.

Apesar de estar prevista para ontem a realização de duas dezenas de voos para o "resgate" dos britânicos, as autoridades egípcias travaram os planos das companhias aéreas. Só oito partiram. Em causa estava a alegada capacidade do aeroporto de Sharm el-Sheikh para armazenar bagagem, já que os turistas estão a partir só com as malas de mão, por questões de segurança. A bagagem de porão deverá seguir mais tarde num avião de carga.

"A este ritmo, mais valia irmos de camelo até ao Cairo", disse Terry Wylde, de 35 anos, ao The Guardian, queixando-se de falta de informação das companhias aéreas e da confusão no aeroporto. Terry tinha previsto regressar com mais cinco amigos no voo da Thomas Cook para Gatwick, mas este foi um dos que foram cancelados. Dos quatro voos desta companhia que estavam previstos, só um teve autorização para aterrar em Sharm el-Sheikh.

O primeiro voo a partir da estância egípcia com destino a Londres foi um da easyJet, que aterrou em Gatwick antes das 17.00. À saída do aeroporto, os passageiros revelaram que o piloto do aparelho avisou que a bordo seguia um agente do MI5 (a secreta britânica), para garantir a segurança.

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