Puigdemont tem o caganer vencedor na tradição de Natal

Ex-presidente da Generalitat é um sucesso como figura de barro imortalizada a defecar, típica dos presépios catalães. Mas se Carles Puigdemont, cabeça-de-lista da Junts per Catalunya, ganha em caganers, o mesmo não acontece nas sondagens para as eleições de quinta-feira. ERC e Ciudadanos, dependendo dos estudos de opinião, surgem em primeiro

Ouve-se o Jingle Bells em vez do Els Segadors (o hino da Catalunha), nas ruas há iluminação natalícia entre estelladas (bandeiras independentistas) e junto à catedral de Barcelona não há uma manifestação espanholista, mas o tradicional mercado de Natal. As eleições autonómicas podem ser na quinta-feira, mas a noite de Consoada está aí à porta. À venda nas dezenas de banquinhas há meninos Jesus e reis magos mas também há outras figuras que só são típicas dos presépios catalães: os caganers. "Há quem diga que quem não tem um com o seu nome não é ninguém na Catalunha", contou ao DN José Maria Alós, cuja família é proprietária da empresa caganers.com. Se cada figura vendida correspondesse a um voto, então o ex-presidente da Generalitat Carles Puigdemont venceria.

Os primeiros caganers remontam ao século XVII ou XVIII, quando os camponeses começaram a ter as suas próprias casas e a fazer os seus próprios presépios, explicou Alós. "Alguém se lembrou de pôr um dos camponeses que iam adorar Jesus a fazer as necessidades. Essa figura teve tanto sucesso que outros começaram a pô-la nos seus presépios", acrescentou, enquanto vendia duas das imagens mais tradicionais: um agricultor com o típico barrete catalão, camisa branca, calças pretas e faixa vermelha.

"Como na altura ver um rabo era algo extraordinário, os caganers eram escondidos e as crianças tinham que o encontrar. Era uma espécie de jogo. Como ia mudando de sítio, era como se fosse fertilizando o presépio, pelo que se dizia que dava produtividade e felicidade. Daí que o caganer seja um elemento positivo, de boa sorte", referiu o vendedor, explicando que foi a mulher, Ana Maria Pla, que teve a ideia de fazer figuras fora do comum e os filhos começaram a apostar nos políticos. "Nos tempos em que estava no governo Jordi Pujol, Carod-Rovira e Pasqual Maragall pensaram que podia ser boa ideia, mas os mais velhos não sabíamos como ia ser recebido por essas pessoas", lembrou. Acabou por ser um sucesso e a cada ano foram criando mais figuras, incluindo estrangeiras que fazem as delícias dos turistas que olham perplexos para a banquinha de Alós ignorando por momentos o frio. O ano passado, o recém eleito presidente dos EUA, Donald Trump, foi uma das novidades. O único português entre centenas de figuras na banquinha de José Maria é Cristiano Ronaldo, mas Messi é mais vendido.

A antecipação das eleições apanhou de surpresa a caganers.com, que não teve tempo para criar figuras de todos os candidatos. "Só temos o Puigdemont e o [Oriol] Junqueras", explicou, referindo-se ao cabeça de lista do Junts per Catalunya (JxCat), que está na Bélgica, e ao da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), que está detido por sedição, rebelião e peculato na organização do referendo de 1 de outubro e consequente declaração de independência."Não deu tempo para preparar os moldes e fazer outros", acrescentou. Os novos caganers começam por ser feitos em gesso, construindo-se depois os moldes que serão usados na produção das figuras de barro, que finalmente são pintadas à mão. Também há caganers dos líderes das associações independentistas Assembleia Nacional Catalã, Jordi Cuixart, e Òmnium Cultural, Jordi Sánchez, igualmente detidos. Quem também se vende bem é o major Josep Lluís Trapero, que esteve à frente dos Mossos d"Esquadra (polícia catalã) até outubro.

Se nos caganers ganha Puigdemont, nas sondagens quem vai à frente é Junqueras. O El Periòdic de Andorra contorna a proibição em Espanha de divulgar pesquisas de opinião nos cinco dias anteriores às eleições e revela diariamente novos números. Ontem, a ERC ia à frente em número de deputados (32 ou 33), mas o Ciudadanos de Inés Arrimadas venceria em percentagem de votos (conseguia 22,5%, mais 1,2 pontos percentuais que Junqueras, elegendo 29 a 30 representantes para o Parlamento catalão). Na sondagem do Gabinete de Estudos Sociais e Opinião Pública, o JxCat de Puigdemont era terceiro, com 19% e 28 ou 29 deputados.
Nas contas totais, o independentismo (JxCat, ERC e Candidatura de Unidade Popular) não tem garantida a maioria absoluta de 68 deputados (poderá ter entre 66 e 69) e não consegue ir além dos 45,8% de votos, menos dois pontos percentuais que nas eleições de 2015. Os votos de cada bloco parecem consolidados, com os independentistas a perder votos para outros independentistas e os ditos partidos constitucionalistas a lutar entre si pelos mesmos eleitores.

As contas deixam ainda antever muitas dificuldades na formação de governo, tal como ficou patente no último debate entre os candidatos, no domingo à noite no canal La Sexta. No confronto a sete, sem Puigdemont ou Junqueras (substituídos por Josep Rull e Carlos Mundó, respetivamente), o próprio independentismo mostrou as divisões que provoca o nome do eventual futuro presidente da Generalitat. Para o JxCat, "não restituir Puigdemont no cargo será validar o artigo 155.º", acionado pelo governo de Mariano Rajoy para assumir o controlo das instituições catalãs e convocar as eleições. Para a ERC, o candidato ao cargo é Junqueras, mesmo preso.

Enviada especial a Barcelona

Exclusivos