Princesa Latifa: antiga comissária da ONU acusada de apoiar Dubai

Mary Robinson encontrou-se com Sheikha Latifa e diz que a princesa é "problemática" e que está a receber tratamento. Grupos de ativistas dos direitos humanos criticam-na e dizem que está a apoiar a versão dos Emirados Árabes Unidos

A ex-comissária para os Direitos Humanos da ONU Mary Robinson está a ser acusada de apoiar a versão do Dubai que assegura que a princesa Latifa, filha do xeque Mohammed bin Rashid al-Maktoum, governante do Dubai e primeiro-ministro dos Emirados Árabes Unidos, está em casa e a receber tratamento médico, quando se pensava que estava desaparecida.

De acordo com a BBC Mary Robinson encontrou-se recentemente com Latifa e terá dito depois dessa reunião que a jovem era "problemática". A antiga comissária dos Direitos Humanos da ONU adiantou à BBC que a princesa estava arrependida de ter divulgado um vídeo em que dizia estar presa e ser vítima de tortura. Radha Stirling, diretora do grupo de direitos humanos "Detidos no Dubai", afirmou ter dúvidas sobre o bem-estar da princesa.

"Qualquer pessoa familiarizada com a história da princesa Latifa e que ouviu a entrevista da BBC Radio a Mary Robinson ficará surpreendida com o facto de parecer que a sra. Robinson está a dizer a versão do Dubai", sublinhou."O que ouvimos foi Mary Robinson a afirmar o que está na declaração do tribunal do governo de Dubai", frisou, acrescentou: "Esta reunião não me garante que ela [sheikha Latifa] esteja livre do abuso que me disse ter sofrido durante anos."

A história da sheikha Latifa, filha do emir do Dubai sheikh Mohammed Bin Rashid Al Maktoum, já se arrasta desde março quando a princesa tentou fugir do Dubai para ter, segundo disse, uma vida mais livre. De acordo com grupos de ativistas dos direitos humanos o iate em que fugia foi intercetado na Índia, tendo a princesa sido obrigada a voltar ao Dubai. Recentemente foi divulgado um vídeo - filmado após uma tentativa de fuga anterior - em que a princesa disse que ela e a sua família "não tinham liberdade de escolha" em suas vidas. Também alegou ter sido presa por três anos e torturada em seu retorno.

Os Emirados Árabes Unidos negam essas acusações e garantem que sheikha Latifa está em casa com sua família. No entanto, como a princesa não foi vista durante vários meses os grupos de direitos humanos pediram às autoridades que provassem que estava bem e em segurança.

Assim, na segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos enviou um documento sobre sheikha Latifa aos responsáveis pelos direitos humanos da ONU. Nesse relatório estariam imagens de sheikha Latifa ao lado de Mary Robinson, ex-Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos e ex-presidente da Irlanda, e supostamente tiradas a 15 de dezembro em Dubai.

O que Mary Robinson disse?

Mary Robinson disse ao programa Today da BBC Radio 4 que foi convidada pela princesa Haya, mulher do governante de Dubai, para "ajudar com um dilema familiar". "O dilema é que Latifa é vulnerável e está preocupada. Lamenta o vídeo que fez", frisou. "Almocei com ela. É uma jovem muito simpática, mas claramente perturbada, precisa dos cuidados médicos que está recebendo", explicou Robinson frisando que a princesa está a sofrer de "uma grave situação médica" e que recebe atendimento psiquiátrico, mas não adiantou mais detalhes. Robinson sublinhou que a família de sheikha Latifa não quer mais publicidade ao caso.

Quais são as preocupações?

O grupo de ativistas "Detidos no Dubai" representa legalmente duas pessoas que dizem ter sido atacadas e sequestradas enquanto tentavam ajudar a princesa a escapar.

Radha Stirling salientou que Robinson "não tinha nada a dizer" sobre as acusações que sheikha Latifa tinha feito contra o seu pai. "Ela não disse nada sobre Latifa ter planeado a sua fuga durante quase uma década, nem nada sobre sua tentativa de fuga anterior [antes de março]", acusou Stirling. Que frisou não ter ouvido Robinson falar sobre a incursão ilegal do barco de Latifa em águas internacionais e sobre o fato de esta ter pedido asilo e de ter implorado para não regressar aos Emirados Árabes Unidos. "A sra. Robinson repetiu uma e outra vez a declaração oficial de Dubai de que Latifa está ao 'amoroso cuidado de sua família' e que a questão não é mais do que um 'assunto de família'".

Outro grupo de direitos humanos, "Guernica 37 International Justice Chambers", também anunciou estar preocupado com os comentários de Mary Robinson. "Parece ter passado algumas horas com sheikha Latifa, e apesar de não ter nenhum conhecimento médico ou psiquiátrico formal, de alguma forma diagnosticou a sua condição e concluiu que ela está recebendo tratamento apropriado. Não está claro em que base a sra. Robinson considera-se qualificada para fazê-lo", acusou num comunicado.

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